sábado, 8 de setembro de 2007

A presença na ausência

Cada vez mais, Magnólia é demasiado humano, Magnólia me impressiona...


Só um trechinho de uma ótima interpretação da obra de PTA:


"Por mais racionais que possamos vir a nos tornar, por mais plena de sentido que nossa vida possa estar, ainda assim haverá um “caminhão” de coisas inexplicáveis e que não conseguirão ser compreendidas até o seu final. E por isto mesmo, a confiança inicial com que a assumimos é ela própria o que nos sustenta durante toda nossa existência. Porque não poderemos compreender tudo. Porque muitas e muitas vezes a realidade vai parecer absurda e mesmo maligna. Porque muitas vezes não haverá ninguém que possa lhe compreender e lhe ajudar. E é por isto que só confiando em algo maior e melhor do que nós mesmos poderemos levantar quando cairmos, sorrir quando só há razões para chorar, suportar quando só há dor e sofrimento.

Sobraram-nos poucas palavras para aceitar de Deus a nossa cruz. Somos mais pobres que Jó. Como ele, somos tentados a amaldiçoar o dia em que viemos à existência, pois nossa vida é cheia do mal. Mas não temos sua eloqüência. Quando falamos para nós mesmos, temos ainda menos a dizer do que tinham os amigos de Jó. Não temos nada. (…) Somos já pobres o suficiente e nossa pobreza inclui uma permissão tácita de não sermos heróicos.

Porque essa falta de espetáculo, essa ausência de toda verve em nosso sacrifício, são essenciais à nossa época. Em nossa espiritualidade não há lugar para nada que inspire admiração ou surpresa, quer em nós ou nos outros. E isto está muito certo, porque o homem perdeu toda a admiração pelas coisas de Deus. Ele não mais se maravilha com nada, exceto com os prodígios da Besta do Apocalipse. Portanto, é apropriado que nossas vidas e nossas orações sejam vazias de tudo que é maravilhoso. O mistério supremo está tão escondido que já não tem mais absolutamente nada a revelar de si mesmo, quanto menos um Götterdämmerung, um crepúsculo dos deuses.

Nietzsche, falando em nome do nosso mundo, proclamou a morte de Deus. E é por isso que, em nossa contemplação, Deus freqüentemente parece estar ausente, como se morto. Mas a verdade de nossa contemplação está nisto: nunca, mais do que hoje, Ele fez Sua presença tão sentida como através de Sua “ausência”. Nisto, pois, estamos extremamente firmes e confiantes: que preferimos a escuridão e, em todos os recônditos de nosso ser, valorizamos essa vacuidade e ausência aparentes. Não precisamos lutar em vão para fazê-Lo presente se tais esforços são uma zombaria. Deixemos o nada tal como ele o é. Nele, Ele está presente.”



Retirado do site:
http://cinemaelegante.wordpress.com/2005/08/31/magnolia/

Vale a pena ler na íntegra!!
Aliás, vale a pena conferir o site todo, ótimas críticas e ponderações sobre filmes!!

1 Comentários:

Tiago disse...

Sábias e certeiras palavras, é mesmo um ótimo filme. Quem não precisa de justificações metafísicas para a existência das coisas, não se perde em elocubrações ilusórias.

Beijos.