domingo, 21 de setembro de 2008

The stranger: Simples mas contundente!

“O que é, com efeito, o homem absurdo? Aquele que, sem o negar, nada faz pelo eterno.



SOBRE O ESTRANGEIRO, DE ALBERT CAMUS

Li recentemente esta de uma das obras do Camus sobre a temática do absurdo do mundo. E para mim foi bom lê-lo sem antes ter ouvido muito a critica de outros a respeito do mesmo. Por alto, eu sabia inicialmente apenas o título do livro, conhecia uma reles sinopse, e tinha a prévia hipótese que o autor poderia escrever bem e me interessar. Mas, eu queria sentir qual seria a minha impressão do livro, só que somente depois que o próprio falasse à mim. E a partir de então, poder passar a assimilar as opiniões da internet sobre o texto e o personagem e comparar com a idéia que fiz dele.

Com pouco mais de 100 páginas, é possível lê-lo rapidamente, sem muita atenção aos fatos. No entanto, há partes tão contundentes, que condensam tanta coisa, que após fazer a abstração da história toda, é possível voltar em páginas, em trechos específicos, e se esbaldar com essa literatura... Significando, pensando, averiguando como aquilo que está dito ali, como aquelas palavras e daquela maneira, te impacta e te afeta...

A principio, a leitura é daquelas que você finaliza mas não absorve quase nada, você não remete o conteúdo à muita coisa. Se não fosse algumas frases mais salientes, eu até diria que a história do O estrangeiro quase passaria batida a mim, superficialmente...


Quase!

Por quê? Porque admito que o absurdo do mundo inicialmente parecia-me não absurdo, já estava absurdamente naturalizado!?...

Explico,

É que a história de Mersault, mesmo escrita em 1942, é bastante atual pra época, e por isso me pareceu comum, mas não é!!

Conta o que sente e o que pensa , por ele mesmo, um homem o qual matou um árabe na Argélia e é julgado não somente pelo assassinato deste árabe que realmente matou , mas por toda sua vida e seu modo de ser.Pouco tempo antes deste incidente, Mersault soube da notícia que sua mãe falecera e, indo ao velório e ao enterro, não chorou pela falecida. Durante o processo, pedem a ele que se arrependa de seus atos, e assim, não seria condenado a morrer. Contudo, Mersault não se sente culpado nem arrependido, apenas aborrecido pela situação em que se inseriu.

Mersault é estrangeiro!



Ou seja, ele demonstra, através de sua indiferença ao mundo moralizado, como ele se sente estrangeiro numa realidade absurda que não lhe entende e lhe julga por não enquadrar-se no normal do mundo. Ele é estrangeiro no lugar em que vive por não responder à sociedade, não agir da forma como os outros esperam que ele aja, por não ter seus atos completamente entendidos pelos que os rodeiam. Ele é acusado pelos sentimentos que deveria ter, mas não tem. É acusado porque pouco fala e porque se recusa a mentir, a falar mais do por que acredita ter agido, se recusa a demonstrar sentimentos que não são os seus.

E está aí o clímax da obra: os sentimentos dos outros perante Mersault!


Ao acabar de ler o texto, percebi que acompanhei a narrativa mais ou menos pelos olhos de Mersault mesmo. Como pode alguém querer impor o que devemos fazer ou pensar? Por que não poderia Mersault não ter chorado no enterro de sua mãe se esta foi sua atitude que gostaria de ter tido e teve naquele momento? Por que o fato do falecimento de sua mãe está inevitavelmente associado ao fato do assassinato do árabe?

Ora, porque os outros pensam que Mersault é apático, frio e anti-sentimental em ambas as situações, e assim são levados a crer que Mersault tem uma personalidade cruel. Porque são generalistas, e, baseado na interpretação que fazem de dois atos, generalizam como Mersault deve sempre ter sido e ser...

Mas como se pode julgar alguém pelos seus atos? Se o comportamento humano é determinado complexamente por infinitos fatores? Às vezes, uma ação é causada circunstancialmente, e às vezes, pode remontar a inúmeros motivos, até inconscientes... Às vezes é uma vida inteira que se soma e que se desemboca em uma ação. Mas às vezes não, às vezes um charuto é só um charuto! Às vezes, é tão simples...



Enfim, estas foram as minhas impressões, que me fizeram não colocar Mersault em uma roda de fogo e decapitá-lo!

Mas espera ai, Sil! Você já tem essa prévia compreensão porque você é psicóloga!! Lhe parece normal que assim O estrangeiro seria lido e analisado, mas não!!!

Fui ver na internet algumas das criticas existentes ...

Dizem que a obra causa revolta em alguns, mal-estar, resignação. Enxergam o personagem como alguém que é apático, anti-sentimental, pessimista... Mas Mersault não me pareceu anti-sentimental. Só me pareceu diferente da maioria, uma pessoa que se importava com outras coisas e não com o que a maioria se importa, uma pessoa que fazia da sua vida uma experiência singular, desconectada um tanto quanto da realidade social artificial, dos valores dos ditos “civilizados moralistas”, que classificam o que é bom ou mau arbitrariamente... mas bom e mal para quem, não é?

Das diversas conclusões, a obra me reforçou a idéia de que é o indivíduo e não o ato isolado que dá significação ao contexto, que uma vida não pode ser julgada pelos valores e princípios dos outros e que isso realmente é difícil de ser feito, de ser levado à risca!

Finalizo com o trecho final da obra, que mais me chamou a atenção, e com relações de outros pensadores e músicos que comporam melodias baseadas no O estrangeiro!!!


“Também eu me sinto pronto a reviver tudo. Como se esta grande cólera m tivesse purificado do mal, esvaziado de esperança, diante desta noite carregada de sinais e de estrelas, eu me abria pela primeira vez à eterna indiferença do mundo. Por senti-lo tão parecido comigo, tão fraternal, enfim, senti que fora feliz e que ainda o era. Para que tudo se consumasse, para que me sentisse menos só, faltava-se me desejar que houvesse muitos expectadores no dia da minha execução e que me recebessem com gritos de ódio”.


"Nunca conseguira arrepender-me verdadeiramente de nada. Assaltaram-me as lembranças de uma vida que já não me pertencia, mas onde encontrara as mais pobres e as mais tenazes das minhas alegrias: cheiros de verão, o bairro que eu amava, um certo céu de entardecer, o riso e os vestidos de Marie".


"Então você acha
Que pode me parar e cuspir em meus olhos?
Então você acha que pode me amar
E me deixar morrer?"

(Bohemian Raphosody - Queen)



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