"CARO LEITOR, sou um pobre de espírito. Não daquele tipo que herdará o reino dos céus, como afirma Jesus no “Sermão da Montanha”. Não há lugar pra gente como eu no reino dos céus. Por uma razão simples: não amo ninguém mais do que a mim mesmo. E isso é mortal. Sempre foi. Os mentirosos é que tentam dizer o contrário. Não partilho da nova “ciência do egoísmo”, essa que se traduz em livros e revistas que buscam “novas formas de espiritualidade” centrada no amor próprio. Ou nessa coisa horrorosa chamada “autoestima”.
Tampouco fiz de mim um budista light, desse tipo que parasita as religiões orientais com a intenção de inventar uma espiritualidade que sirva ao clássico egoísmo moderno, numa salada mista de energias hindus com Jung barato. Antes de tudo, recuso o budismo light por um mero senso do ridículo que habita essas formas mesquinhas de espiritualidade.
Com isso quero dizer que não trocaria o reino dos céus por alguma forma quântica de paraíso egoísta, ao sabor da espiritualidade de livrarias de aeroporto do tipo “O Efeito Sombra”, cujo subtítulo é “Encontre o Poder Escondido na sua Verdade”, dos “guias espirituais” Deepak Chopra, Debbie Ford e Marianne Williamson, perfeito para almas superficiais amantes de toda forma de espiritualidade mesquinha.
O que é uma espiritualidade mesquinha? Fácil responder essa. Espiritualidade mesquinha é, antes de tudo, uma forma de crença que deforma a face do crente, iluminando seus caninos ocultos. Aquela que sempre medita com o objetivo de nos tornar mais poderosos e bem-sucedidos. Essa praga espiritual está em toda parte porque, simplesmente, não conseguimos entender que, para salvarmos nossa vida, temos que perdê-la.
Jesus tinha razão.O principal obstáculo para se libertar do mal é o “eu”. Essa peste que contamina todo ato humano. Como vampiros de Deus, queremos fazer até da “sombra” (do mal em nós) um serviçal de nosso sucesso. Sou um pobre de espírito. Passo horas temendo o abandono, o desprezo e a indiferença. Comparando meus pequenos sucessos com os mais infelizes do que eu. Ainda bem que eles existem. Rezo para que o mundo me ame. Em meus pesadelos sempre sou o último dos amados do mundo. Quando encontro alguém melhor do que eu, perco o sono, quero destruí-lo. Sua respiração me sufoca. Sua generosidade me humilha. Seu sorriso é uma prova de que fracassei em amar o mundo.
Que o leitor apressado não pense que estou numa crise de autoestima. Que o leitor crente nessas formas de espiritualidade mesquinha não aplique psicologia barata ao que digo, tentando justificar tudo que lê com alguma hipótese acerca do cotidiano de quem escreve. Você não me conhece. Mas seguramente conhece a miséria que vos falo: quem ama alguém mais do que a si mesmo?
Não vale jogar na cara dos outros amores maternos e paternos ou filiais. Na era do “direito à felicidade do indivíduo”, até a ciência já está provando que ter filhos é um mau negócio. Pais e mães são mais estressados do que adultos sem filhos. E é a mesma ciência que agora “descobre” a miséria dos pais, que a cria, em grande parte, com suas demandas “cientificas” de aperfeiçoamento da função parental. Ninguém mais sabe ser pai e mãe sem a palavra de uma especialista. Como sempre digo, a mania de criar um “homem” melhor vai nos destruir a todos.
Como idiota digital que sou, busco rapidamente na internet alguma nova teoria científica ou política que prove que ninguém é melhor do que ninguém. Que nos reúna num ato de mediocridade comum. Alguma nova técnica de treinamento em recursos humanos que devolva a mim minha falsa glória. Meu objetivo é fazer inveja a Deus. Entendo Caim em seu ódio por Abel. Ao contrário das bobagens que afirma Saramago em seu livro “Caim” -críticas típicas de quem nada entende acerca da tradição bíblica porque permaneceu infantil espiritualmente-, Caim não suportou o fato de que Abel era melhor do que ele e por isso o matou. Existe algum Abel aí ao seu lado?"
Luiz Felipe Pondé é colunista da Folha de São Paulo, escrevendo às segundas-feiras.
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Gostei desse texto do Pondé para começar o ano, salvo algumas considerações. Combina com o voto para o Ano Novo do Contardo Calligaris "que nos preocupemos menos em mudar nossas vidas e encontremos jeitos de conseguir desejar o que já desejamos sem transformar nosso desejo em obrigação".
Desabafo...
O que friso com isso é que me parece que as pessoas ainda esperam que a gente mude muito para poder se adaptar a elas. Que amemos mais aos outros só porque somos egoístas demais. Junta-se a essa expectativa essa espiritualidade mesquinha, como aponta Pondé, em que sempre podemos ser muito mais vitoriosos e melhores! Confesso que ou eu ainda não estou acostumada a ler o colunista, mas ainda me ressinto da forma 'tapa na cara' que ele diz as coisas. Gosto, mas não venero. (Ou nesse texto em especial, ele julgou, a meu ver, o budismo e o Saramago com muita propriedade, atirando pedras como se tais assuntos não trouxessem nada de util ou devessem ser desmerecidos. Ou pode até ser, do pondo de vista do autor né. Mas eu teria mais cuidado ou seria menos ácida).
Enfim, não que eu pense que as pessoas não possam ser um pouco melhores e pensar em ajudar o próximo para convivências mais harmoniosas e melhores. Eis a nova ética humanista. Mas poderiamos ser mais cientes mesmo de que somos menos bons e mais sórdidos, ou, como diria Morin, somos bi-dimensionais, sempre temos os dois pólos presentes, de qualquer característica humana... Só que a humanidade muitas vezes camufla o lado negativo! Se podemos ser altruistas, podemos ser egoístas.. E mesmo com tanta psicologia baseada na hipótese que nascemos virados pro umbigo, egocentricos, eu não afirmaria nenhuma certeza, mas me mantenho desconfiada! Não nos esqueçamos... Afinal, acho que o que de melhor uma pessoa me ajudou a pensar em 2010 é que eu estava muito auto-enganada sobre a imagem que eu tinha de mim mesma, e que uma parte de mim é péssima... ou melhor, eu acredita que estava sendo o melhor que eu podia ser, mas não estava não! Parece contraditório esse discurso, como se agora eu tivesse acordando pra falar que tenho que mudar, não sei bem se é isso, mas inicialmente, é um reconhecimento, talvez uma aceitação do que eu sou com minhas falhas, para depois pensar no que posso ser! E para os desavisados que fazem mau-agrouro do fato, reconhecer isso não me deixa menor ou triste, quem sabe até mais forte!
A partir de 01/01/11 (gostei dessa data), que possamos olhar inicialmente para nós mais de perto (sem que isso soe em individualismo) para quem sabe aprendermos alguma coisa e independente de se isso levará a sermos alguém melhor (que isso seja consequência e não objetivo, e que não caiamos também por isso num pessimismo desregrado)!
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