sábado, 29 de outubro de 2011

- Sim, sei que me amas. Do outro lado do Atlântico, pelo rádio.


"Elinor tinha erguido o rosto para o mesmo disco brilhante. Lua, lua cheia... E instantaneamente ela trasladou-se no tempo e no espaço. Baixou os olhos e voltou-se para o marido; tomou-lhe da mão e se apoiou piamente contra ele.

- Lembras-te daquelas noites? No jardim, em Gattenden. Lembras-te, Phil? As palavras de Elinor chegaram aos ouvidos do escritor como que vindas duma grande distância e de um mundo pelo qual, naquele momento, não se sentia interessado. Philip despertou com relutância. - Que noites? - perguntou, falando como que do fundo de abismos, e com aquela voz incolor e sem inflexão do homem que responde a um chamado telefônico importuno.

Ao som dessa voz de telefone Elinor se afastou vivamente do marido. Conchegar-se a gente a alguém cujos pensamentos estão longe não é só decepcionante; é também uma humilhação. Na verdade, que noites?

- Por que não me amas mais? - perguntou Elinor com desespero. Como se fosse possível estar-lhe falando de noites outras que não aquelas maravilhosas noites de verão que ambos tinham passado, logo após o casamento, na casa da mãe dela. - Nem sequer tomas o menor interesse por mim, agora; é como se eu fosse uma peça da mobília, muito menos do que um livro.


- Mas, Elinor, de que é que estás falando? - perguntou Philip, pondo na voz um espanto exagerado. Depois do primeiro momento, quando já tivera tempo de vir à superfície, por assim dizer, emergindo das profundezas do seu devaneio, ele conseguira entender o que a mulher queria dizer, tinha ligado a lua da índia àquela lua que brilhara, havia oito anos, sobre o jardim de Hertfordshire. Podia ter dito isso, naturalmente. Teria facilitado a reconciliação. Mas estava irritado por ter sido interrompido, não gostava de que o censurassem, e era forte a tentação de se sentir vitorioso num torneio oratório com a esposa.  - Eu formulo uma pergunta simples - continuou ele -, desejando meramente saber o que querias dizer. E tu me respondes com a queixa de que eu não te amo. Não consigo perceber a relação lógica entre uma coisa e outra...

- Mas tu sabes perfeitamente bem do que eu estava falando – disse Elinor. - E, de resto, é verdade. Tu não me tens mais amor.

- Mas acontece que tenho, tenho, sim - volveu Philip, e, ainda escaramuçando (se, bem que em vão, como ele sabia) no domínio da dialética, prosseguiu, como um pequeno Sócrates, com o seu questionário. - Mas o que eu realmente quero saber é como chegamos a este ponto, partindo do lugar em que começamos. Principiamos com noites e agora...

Mas Elinor estava mais interessada no amor do que na lógica. - Oh, eu sei que não queres dizer que não me amas - interrompeu-o. – Pelo menos em palavras. Não queres ferir os meus sentimentos. Mas tu me feririas menos se me dissesses tudo redondamente, em vez de como fazes agora. Porque esta esquivança vale realmente como uma confissão nua. E fere mais porque dura mais tempo, porque há a incerteza, a espera, a repetição da dor. Enquanto as palavras não tenham sido pronunciadas de modo definitivo, há sempre uma possibilidade de que elas não estejam tacitamente subentendidas. Sempre há uma possibilidade, mesmo quando sabemos que elas estavam subentendidas. Há ainda um lugar para a esperança E onde há esperança há decepção. Na verdade, não é mais gentil fugir à questão, Phil, é mais cruel. Por que haveria de fugir, uma vez que verdadeiramente te amo?

 - Sim, mas como? Como é que me amas?  Não é da maneira como me amava no princípio, ou talvez tenhas esquecido. Tu nem mesmo te lembras do tempo em que nos casamos.

- Mas, minha querida -protestou Philip -, sê, por favor, mais precisa. Tu disseste simplesmente "aquelas noites" e ficaste esperando que eu adivinhasse a que noites te referias.

-Naturalmente que fiquei. Tu devias saber. Tu terias sabido se isso ainda te interessasse um pouco. Eis de que me queixo. Tu me amas tão pouco agora que o tempo em que me amavas verdadeiramente nada significa para ti. Pensas que eu, eu, posso esquecer aquelas noites?

- Tudo se apagou simplesmente no teu espírito - ajuntou ela, numa voz tristonha de censura. Para ela, aquelas noites eram ainda mais reais, mais presentes do que muitos momentos de sua vida atual.

- Mas está claro que me lembro - redargüiu Philip, com impaciência. – Acontece apenas que a gente não pode reajustar instantaneamente o espírito. Quando falaste, no primeiro momento, acontece que eu estava pensando em outra coisa; eis a questão.

Elinor suspirou.
- Quem me dera ter também outras coisas em que pensar. Eis o meu mal,  não tenho. – Por que hei eu de te amar tanto? Por quê? Não é justo. Tu estás protegido pelo teu intelecto e pelo teu talento. Tens o teu trabalho, as tuas idéias, que te servem de escudo. Mas eu não tenho nada – nenhuma defesa contra os meus sentimentos, nenhuma alternativa fora de ti. E sou eu que necessito de defesa e de refugio. Porque sou eu que amo de verdade. Não existe nada contra que precises ser protegido. Tu não amas. Não, não é justo, não é justo.

No fim das contas, pensava ela, tinha sido sempre assim. Ele nunca chegara a amá-la de verdade, nem mesmo no princípio. Nunca a quisera profundamente, inteiramente, com um abandono total. Porque mesmo no princípio Phil tinha fugido às suas perguntas, tinha recusado entregar-se completamente a ela. Elinor, por sua vez, lhe oferecera tudo, tudo. Philip aceitara o que ela lhe dava, mas sem retribuir. A sua alma, as intimidades de seu ser - ele lhas recusara sempre. Sempre, mesmo no princípio, mesmo quando mais a amava. Elinor fora feliz então - mas unicamente porque tinha sido suficientemente ingênua para ser feliz, porque não tinha compreendido, em sua inexperiência, que o amor podia ser diferente e melhor. Ela sentia agora um prazer perverso em rebaixar retrospectivamente a sua felicidade, em devastar as suas lembranças. A lua, o jardim sombrio e perfumado, a grande árvore negra e a sua sombra veludosa sobre a relva... Elinor as negava, rejeitava a felicidade que elas simbolizavam em sua memória.

Philip Quarles, entrementes, não dizia nada. Realmente não havia nada a dizer. Cingiu com o braço o corpo da esposa e puxou-a contra si; beijou-lhe a testa e as pálpebras trêmulas, que estavam úmidas de lágrimas.

(...)

- Minha querida--- repetia ele constantemente -, minha querida...
Elinor deixou-se consolar.
- Tu me amas um pouquinho?
- Amo-te muito.
Ela chegou a rir; um riso entrecortado de soluços,  é verdade, mas no fim das contas ainda era um riso ...
- Fazes o possível para ser gentil comigo. - E depois de tudo, pensava ela, aqueles dias de Gattenden tinham sido verdadeiramente cheios de felicidade. Foram dela, ela os possuíra; não podiam ser negados. - Fazes esforços tão grandes... És muito gentil.
- Não diga tolices, protestou ele. – Tu sabes que eu te amo.
- Sim, sei que me amas. Elinor sorriu e acariciou-lhe o rosto. – Quando tens tempo e mesmo assim... Do outro lado do Atlântico, pelo rádio.
- Não, isso não é verdade.
Mas secretamente Philip sabia que era. Toda sua vida ele tinha andado dentro da solidão, num vácuo pessoal em que nem a sua mãe, nem os seus amigos, nem as suas amantes tinham tido permissão de entrar. Mesmo quando sentia a esposa assim junto de si, era pelo rádio como dissera Elinor, e falando do outro lado do Atlântico, que se comunicava com ela.
- Não é verdade – repetiu ela, ternamente brincalhona. – Mas, meu pobre Phil, tu não seria nem mesmo capaz de enganar uma criança. Não sabes mentir de maneira convincente. És demasiadamente honesto. Eis uma das razões porque eu te amo. Se soubesse como és transparente!

Philip calou-se. Aquelas discussões sobre relações pessoais causavam-lhe sempre mal estar. Ameaçavam a sua solidão – aquela solidão que, em parte, ele deplorava (porque se sentia estranho a muitas coisas que gostaria de conhecer), mas na qual, entretanto, seu espírito podia viver à vontade, na qual se sentia livre. De ordinário considerava aquela solidão interior como uma coisa aceitável, como a gente aceita a atmosfera em que vive. Mas uma vez que ela fosse ameaçada, Philip sentia dolorosamente a importância que ela tinha para ele; lutava por ela como um asfixiado luta pelo ar. Mas era uma luta sem violência, uma luta negativa, feita de retirada e de defesa. Foi assim que ele se entrincheirou agora no silêncio, naquele silêncio calmo, longínquo e frio, fora do qual estava certo que Elinor não tentaria tirá-lo, convencida da inutilidade de tal tentativa. E tinha razão. Elinor fitou os olhos dele ainda um instante, depois, voltando a cabeça, contemplou a paisagem iluminada pelo luar. Os silêncios paralelos de ambos prosseguiram o seu curso através do tempo, sem se encontrarem.
- E no entanto, - disse de súbito Elinor, incapaz de reter por mais tempo o seu ressentimento – tu não podias passar sem mim. Que seria de ti se eu te deixasse, se eu fosse para alguém que estivesse disposto a me dar algo em troca do que eu dou? Que seria de ti?

A pergunta caiu dentro do silêncio. Philip não deu resposta. Mas, realmente que seria dele? Também fazia mentalmente a mesma pergunta. Porque, no mundo ordinário e cotidiano dos contatos humanos ele semelhava curiosamente um estranho que se sentisse mal entre os seus semelhantes, que achasse difícil ou impossível entrar em comunicação com quem quer que não falasse a sua linguagem nativa de idéias. Emocionalmente era um estrangeiro. Elinor, a sua intérprete, o seu dragomano. Como o pai, Elinor Bidlake tinha, de nascença, o dom da compreensão intuitiva e do desembaraço mundano. Sabia pôr-se rapidamente à vontade com qualquer pessoa. Sabia por instinto o que era preciso dizer a cada espécie de gente – a cada tipo, exceto, talvez a espécie de gente que pertencia seu marido. É difícil saber que dizer a alguém que nada diz em resposta, que responde à palavra pessoal com a palavra impessoal, à palavra individual e carregada de sentimento com uma generalização intelectual. Entretanto, como Elinor amava, persistia em seus esforços para atrair Philip ao contato direto; e se bem que aquilo fosse um tanto desanimador – como cantar a surdos mudos ou declamar versos num salão vazio, - ela continuava a dar lhe a intimidade de seu pensamento e de suas emoções. Havia ocasiões em que, mercê de um grande esforço, ele fazia o possível, em troca, para admiti-la em suas intimidades mais pessoais. Mas – o fato era que Elinor ficava sempre decepcionada por aqueles raros momentos de intimidade.

A razão de Elinor lhe dizia que o marido era assim, mas os seus sentimentos se recusavam a aceitar na prática aquilo de que ela estava certa na teoria.  O que nela havia de vivo, de sensível, de irracional, sofria diante da indiferença dele, como se aquilo fosse uma frieza pessoal dirigida somente contra ela. E entretanto, apesar de tudo quanto ela pudesse sentir, Elinor sabia perfeitamente que a indiferença de Philip não tinha nada de pessoal, que ele era assim com toda a gente, que ele a amava tanto quanto lhe era possível amar, que o seu amor por ela não tinha diminuído, porque nunca fora realmente maior; - mais apaixonado, outrora, talvez; mas nunca mais emocionalmente rico em intimidade e abandono involuntário, mesmo no auge da paixão, do que era agora. Mas apesar de tudo ,Elinor se sentia ferida em seus sentimentos; ele não devia ser assim. Não devia ser; mas era... eis a verdade. Depois duma explosão, ela se acalmava e procurava amá-lo tão razoavelmente quanto lhe fosse possível, contentando-se com a gentileza do marido, com a sua paixão física um tanto quanto alheia ao resto, com as esporádicas e penosas tentativas de conseguir uma intimidade emocional, e finalmente com sua inteligência – aquela inteligência rápida, cheia de compreensão, ubíqua, que podia entender tudo inclusive as emoções que não era capaz de sentir, e os instintos pelos quais tinha o cuidado de se não deixar levar.

Um dia, quando Philip lhe falara do livro de Koehler sobre os macacos, Elinor lhe dissera:
- Tu és como um macaco do lado super-homem da humanidade. És quase humano, como os pobres chimpanzés. A única diferença está em que eles procuram elevar-se ao pensamento com suas sensações e seus instintos, ao passo que tu procuras descer com o teu intelecto. Quase humano. Estás em equilíbrio instável, bem no limite, meu pobre Phil.

Ele compreendia tudo duma maneira tão perfeita! Eis porque era tão divertido servir-lhe de dragornano e interpretar para ele as outras pessoas. (Era menos divertido quando ela tinha de se interpretar a si mesma.) Tudo quanto a inteligência podia apanhar, ele apanhava.e Philip compreendia imediatamente, generalizava para Elinor o que ela sentia, ligava-o a outras experiências, classificava-o, descobria analogias e paralelos. O simples e o individual se tornavam nas mãos dele parte de um sistema. Elinor se admirava de ver que ela própria e suas amigas tinham, inconscientemente, confirmado uma teoria ou servido de exemplo a alguma generalização interessante. Elinor fazia-lhe o relatório de seu convívio com os naturais do domínio da emoção;

(...)
Sim, era divertido servir de dragornano, no domínio dos sentimentos, a um turista de inteligência tão excepcional. Mas era algo mais do que divertido; era também, aos olhos de Elinor, um dever. Havia os livros dele a considerar.

- Ali! Phil - dizia ela -, se tu fosses um pouco menos super-homem, que belos romances havias de escrever!

Philip concordava com Elinor, um tanto pesaroso. Tinha bastante inteligência para conhecer os seus defeitos. Elinor fazia o possível para compensá-los - dava-lhe informações de primeira mão a respeito dos hábitos dos nativos, agia como intermediária quando o marido desejava contato pessoal com algum deles. Não somente por ela, mas pelo romancista que ele podia vir a ser, Elinor quisera que Phil perdesse aquele hábito de impessoalidade e aprendesse a viver pelas intuições, pelas sensações, instintos, da mesma maneira que vivia pela inteligência. Heroicamente, ela o tinha encorajado mesmo em suas histórias de paixão por outras mulheres. Isso lhe poderia fazer bem – ter algumas aventuras sentimentais. Tal era o seu desejo de fazer bem  a ele e a sua qualidade de romancista que, mais de uma vez, vendo-o olhar para alguma mulher moça com admiração, tentara estabelecer para o marido o contato pessoal que ele não teria sido capaz de estabelecer por si mesmo. Era arriscado, sem dúvida. O homem podia apaixonar-se verdadeiramente, podia esquecer-se da sua intelectualidade e corrigir-se, no proveito entretanto, de alguma outra mulher. Elinor aceitou o risco, em parte porque pensava que a função de escritor devia ser posta acima de tudo o mais, mesmo acima de sua própria felicidade, e também porque estava persuadida, em seu foro interior, de que de fato não existia nenhum perigo, de que ele jamais perderia a cabeça completamente, a ponto de fugir com outra mulher. A cura pelas aventuras sentimentais, se é que era eficaz, se operaria docemente; e, nesse caso, Elinor estava certa de saber aproveitar os felizes efeitos que ela havia de produzir em Phifip. Fosse como fosse, até agora não tinha mostrado nenhuma eficácia. As infidelidades de Philip montavam a muito pouco e não tinham tido efeito apreciável sobre ele.

Continuava o mesmo, enlouquecedoramente o mesmo – inteligente até ao ponto de ser quase humano, gentil mas longínquo, apaixonado e sensual duma maneira desprendida, impessoalmente terno. Era de enlouquecer. Por que continuaria ela a amá-lo? Perguntava Elinor a si mesma. Era quase o mesmo que continuar amando uma biblioteca. Um dia ela havia de deixá-lo às deveras. Era impossível levar mais longe o devotamente e o altruísmo. Ás vezes e preciso que a gente pense na própria felicidade. Ser amada, pelo menos uma vez na vida, ao invés de limitar-se apenas a amar; receber ao invés de estar perpetuamente a dar.  Sim, um dia ela o deixaria realmente. Tinha de pensar em si mesma e, depois, seria uma punição para Phil. Uma punição, sim - e -, Elinor estava certa de que, se o deixasse, ele seria sinceramente infeliz, à sua maneira, tanto quanto lhe fosse possível ser infeliz. E talvez a infelicidade pudesse operar o milagre que ela tinha ardentemente desejado e em prol do qual vinha trabalhando havia tantos anos; talvez a infelicidade o tornasse sensível, pessoal. Talvez conseguisse fazer dele um escritor. Talvez fosse seu dever torná-lo infeliz - o mais sagrado de seus deveres ...

(...)

Elinor escutava com interesse e ao mesmo tempo com uma espécie de horror. Assim, pois, o esmagamento trivial de um animal infeliz fora suficiente para por em movimento aquela inteligência rápida e infatigável. Um pobre cão pária, quase morto de fome, quebrava a espinha sob as rodas do carro, e este incidente evocava em Philip uma seleção das estatísticas de natalidade na Sicília, uma especulação sobre a relatividade da moral, uma generalização psicológica brilhante. Era surpreendente, era inesperado, era interessantíssimo, mas -- oh! - quase lhe dava ganas de gritar".

TRECHO DE CAPITULO VI - CONTRAPONTO - ALDOUS HUXLEY