Eis uma personagem. Nina, singela e frágil. Aparentemente, para sua mãe, ela é um doce, o cisne branco encarnado, vestida de rosa. Até a escolha de seu nome é proposital, ‘Nina’, o diminutivo de menina. E em seu quarto, também cor-de-rosa, o negro desponta entre figura e fundo. Como se refletisse o que a adorável e ingênua garotinha cultiva internamente e quer revelar por baixo de sua pele e suas costas (e que nem ela própria enxerga totalmente, mas sabe que existe): seu lado ousado como mulher, sua possibilidade de ser sombria, dominadora, sublime, proporcionando, deixando advir uma outra face de si mesma.
Há o lago dos cisnes, como o pano de fundo deste espetáculo, que, entre a tênue linha entre a realidade e a ficção, tece o conflito de superação de uma bailarina, promovendo a imersão de sua luta, não apenas para chegar a conquista de um desejo, ser perfeita em sua atuação como a rainha do balé, mas para transbordar-se, passar de um ponto de sua vida ao seu oposto, em conflito permanente, numa proposta desafiadora. Interpretar o cisne negro requer mais que um passo de dança bem ensaiado. É um confronto irrecusável a deixar de ser quem se é para entrar em uma jornada perturbadora de transformação pessoal.
Medo, insegurança, delírios, angústia. E não é assim a vida? Um conflito eterno do que se é com o que se deseja ser? Um balde misto e temperado de emoções. Poucos são os filmes que estão repletos dessa multiplicidade de sentimentos. Cobiça, inveja, glória, sangue, fúria, negação. É por isso que gostei. Fosse somente pela história de uma peça de balé, a trama do filme não me pegaria. Ressalvo a arte, mas não quero ver só fachadas em uma película. Primeiro, vi uma simples personagem. E por ser simples, justamente, louvável. Em seguida, vem a vida, o contexto. E então, a protagonista, a qual magistralmente incorpora sim, uma verdadeira rainha. É certo que Natalie Portman interpreta o papel divinamente desde os primeiros segundos. Cada clique em seu rosto é uma face que interpola entre o suave e espontâneo para a posterior imagem de força, rudez e sagacidade que a história incita. Além disso, aparece a relação do corpo com a psique, mostrado em seus entrelaçamentos. O fato de que a auto-exigência pode levar a um desgaste emocional e físico. Tudo bem, pra mim estes pontos são todos clichês. Um filme para ser aos meus olhos interessante, tem que ter no mínimo essas atuações esplêndidas. É o crivo. O que foi além disso é essa exposição do ‘humano’, que é o que admiro na vida, pois raro de se ver. E essa cutucada que diz que não há nada nem ninguém pra culpar seu destino, é só você que está no seu caminho, é a gente mesmo que se impõe obstáculos e barreiras. A vida, uma mãe obstinada, podem até atrapalhar, mas só se você sucumbir, deixar-se fracassar. E não vai ser fácil se superar, e além disso, muitas vezes o que importa não é chegar ao final, que é o resultado, mas passar pela provação, pelo sofrimento, pela aprendizagem. Outra surpresa do filme é essa jogada da inexistência da perfeição fazendo paralelo com a iminência da queda, a morte. Pulsão de vida e morte. Se jogar e esperar o assombro da platéia. Provocativo. Gostei.
Com essa filmografia, Darren Aronofsky complementa o que entendo como estudo da natureza humana, e é por isso que todos os envolvidos nesse trabalho merecem meus aplausos! Nota 8,0.
OS: não passei alheia ao filme, pois estou numa fase que preciso me sobrepujar! Abandonar algumas facetas e assumir ser um pouco mais de quem posso ser!





