Emil Cioran, filósofo romeno, através do seu Breviário de Decomposição, esbanja sua visão de mundo niilista e lúcida. Antes de eu expor toda minha crítica à obra, o que pretendo em um próximo post, quero anteceder algumas citações interessantes, que vieram a calhar diante de tamanha banalização das notícias e das idéias que vem acontecendo no Facebook, ultimamente.
Para Emil Cioran, o homem possui “uma necessidade de ficção, de mitologia, que triunfa sobre a evidência e o ridículo”. Essa necessidade de crer ‘infestou o espírito para sempre’. “O fanatismo é uma lepra lírica que contamina as almas, as submete, as tritura ou as exalta”. Adiante, o autor afirma:
“O espírito sente-se mais à vontade na companhia de um fanfarrão do que na de um mártir; e nada o repugna tanto como este espetáculo onde se morre por uma idéia”
“A loucura de pregar está tão enraizada em nós que emerge de profundidades desconhecidas ao instinto de conservação. Cada um espera seu momento para propor algo: não importa o quê. Tem uma voz: isto basta. Pagamos caro por não ser surdos nem mudos...”
“Graças a frivolidade iludimos o mundo e dissimulamos a inconveniência de nossas profundidades. Sem seus artifícios, como não envergonhar-se por ter uma alma? Nossas solidões à flor da pele, que inferno para os outros! Mas é sempre para eles, e às vezes para nós mesmos, que inventamos nossas aparências...”
E ainda, em outros trechos, o romeno explora a ‘miséria da expressão’, a qual considera a mesma ‘miséria do espírito, manifestada na indigência das palavras, em seus esgotamentos e sua degradação’. Vale a pena acompanhar:
“A história dedica-se unicamente a mudar o rosto de uma quantidade de interrogações e de soluções. O que o espírito inventa não é mais do que uma série de qualificações novas; rebatiza os elementos ou busca em seus léxicos epítetos menos gastos para uma mesma e imutável dor. Sempre se sofreu, mas o sofrimento tem sido ou ‘sublime’, ou ‘justo’, ou ‘absurdo’, segundo a visão de conjunto que o momento filosófico cultiva. A desgraça constitui a trama de tudo o que respira; mas suas modalidades evoluíram; compuseram essa sucessão de aparências irredutíveis que induzem cada indivíduo a crer que é o primeiro a sofrer assim. O orgulho desta unicidade incita-o a apaixonar-se por seu próprio mal e suportá-lo. Em um mundo de sofrimentos, cada um deles é solipsista com respeito a todos os outros. A originalidade da desgraça é devida à qualidade verbal que a isola no conjunto das palavras e das sensações...”
“Os grandes sistemas, no fundo, são apenas brilhantes tautologias.... Só se define (algo) por desespero. É preciso uma fórmula, é preciso mesmo muitas, nem que seja para dar uma justificação ao espírito, e uma fachada ao nada... As coisas que tocamos e as que concebemos são tão improváveis quanto nossos sentidos e nossa razão; só estamos seguros em nosso universo verbal, manobrável a nosso bel-prazer, e ineficaz. O ser é mudo e o espírito tagarela... A originalidade dos filósofos se reduz a inventar termos, escolher vocábulos, desprovidos de todo o alcance metafísico. Afundamos em um universo pleonástico, onde as interrogações e as réplicas se equivalem”.
Enfim, parece que todo mundo ultimamente precisa falar um pouco mais do mesmo. Concordo com o que Cioran disse acima porque é isso que vem acontecendo ou aparecendo mais nas redes sociais, na mídia televisiva. Uma frivolidade bestial a qual idiotas batem palmas só porque imita algo novo ou é um fato dissimulado por algumas meias palavras inteligentes, bonitas e bem ajuntadas. O homem é um ser que não se contenta em ficar quieto, e além de querer respostas para todas suas perguntas, ele quer crer e pregar... Sempre se sofreu e se viveu, mas teimamos em ser tagarelas, em sermos seres ridiculamente crédulos e lastimavelmente tediosos com nossas ‘carcaças verbais’!

0 Comentários:
Postar um comentário