domingo, 12 de agosto de 2012

O fantástico livro O acaso criador, de Rémy Lestienne (2008)


         Mais do que nos indagar sobre ou sermos marionetes imponentes num mundo mascarado pelo determinismo implacável ou termos um mundo governado pelo acaso e assim estarmos à deriva, Rémy nos presenteia com uma obra que expande nossa compreensão do assunto ‘acaso’ a partir de quatro partes: I – O acaso clássico; II – O acaso na vida; III – O acaso físico; e IV – Uma filosofia do acaso.
            A primeira parte de seu livro já começa nos interrogar de que ‘acaso’ estamos falando. Ao chegar ao fim das páginas percebi que da Antiguidade até hoje houve uma grande revolução em cima do tema. De relegado à categoria inicial de epifenômeno, refletindo uma inabilidade ou ignorância humana do homem em descobrir as causas ocultas dos eventos, o acaso transforma-se em um conceito, tendo sua existência discutida na natureza, na matemática, na mecânica quântica, e na sua relação com a possibilidade de existência do livre-arbítrio e de uma transcedência.
            Poucas foram as vezes que vi tantos teóricos relacionados em torno de uma temática: Platão, Aristóteles, Galileu, Newton, Laplace, Pascal, Cournot, Maxwell, Peirce, Darwin, Poincaré, Emile Borel, Boltzmann, Bérgson, Prigogine, Henri Atlan, De Broglie, Einstein, Penrose, Gödel, Popper, Montaigne, Sartre, Kierkegaard, Camus, Heidegger, Monod, Kant, Heinsenberg, Schorodinger... acreditem, todos estes nomes foram citados ou referenciados tendo alguma influência ou co-participação direta nas reflexões a respeito do acaso. Eis porque o livro ensina bastante e não é fácil resumi-lo, sendo densa e ampla suas informações.
Creio ser válido destacar alguns pontos essenciais, que solidificaram a forma como eu penso e pode ser convidativo para outras pessoas lerem o livro por completo:
            Da breve pré-história do acaso, é importante saber que já na época de Platão se cogitava uma noção de contingência, ou seja, eventualidades que tem a mesma possibilidade de realizar-se num dado momento (como se o acaso fosse uma coincidência). Os romanos, por sua vez, chamavam as eventualidades desconhecidas de ‘destino’, baseada na crença de que era a deusa fortuna que dava azar ou sorte às pessoas.
Mas é no decorrer do século XVIII que se iniciaram os estudos das estatísticas e probabilidades, porque queriam se calcular e diminuir os riscos de morte. Os ‘seguros de vida’ não podiam ser vendidos pautados num ‘acaso cego’. Até na França o acaso desempenhou um papel na vida prática: o serviço militar era resultado de sorteio.
Contudo, a verdadeira carreira científica do acaso inicia-se em 1859. Rompendo com a antiga ordem, o acaso irrompe como elemento explicativo dos fenômenos. Nesta época, uma nova ciência, a termodinâmica, desapontou propondo novas maneiras de pensar as transformações e a irreversibilidade. Os estudos de Laplace também estavam sendo conhecidos e discutidos.
É Claude Bernard que aparece pondo fim à interpretação platônica de acaso. “O acaso, por definição, recusa todo recurso a um antecedente: só podem ser chamados casuais, no sentido estrito, os eventos que não são determinados por causa alguma”. Ele definiu o acaso como o encontro de duas séries causais independentes. Por exemplo, o fato de uma telha cair do telhado e uma pessoa passar na rua não tem conexão alguma, nenhuma dependência entre suas causas; o encontro é acidental, fortuito.
Em seguida vem James C. Maxwell, fundando a física estatística e lançando as bases da teoria cinética dos gases. Ele é o primeiro a associar atribuição de probabilidade à explicação de um fenômeno físico. Não é possível prever as colisões elásticas das moléculas, devido sua imprecisa distribuição de energia e uma limitação do homem em manipular tantos dados. Ele vincula a complexidade de um fenômeno à suas fontes de variação que tornam os métodos estatísticos pertinentes e inevitáveis. Posteriormente, Boltzmann dá continuidade à obra de Maxwell associando acaso e irreversibilidade.  E depois segue Charles S. Peirce, defendendo ainda mais a questão do indeterminismo ligada à propriedade de irreversibilidade temporal, impelindo-o a conceber uma doutrina da necessidade num universo de acaso.
Por fim, não podemos deixar de mencionar a grande contribuição de Charles Darwin ao acaso.



 “Em Darwin o acaso torna-se, pela primeira vez, não mais um epifenômeno, mas um elemento constitutivo essencial da teoria do ser vivo e de sua evolução no decorrer das idades. O acaso, aliado à seleção natural, é o motor da evolução”. O verdadeiro mérito de Darwin é demonstrar o aspecto irredutível do acaso: a soberba, a absoluta indiferença dos eventos elementares que dão fundamentos à aparição dos eventos casuais sem considerar os julgamentos dos homens e as decisões do destino. Eis o acaso natural: nem todas as variações na evolução tem uma causa concreta, podendo elas serem acidentais. As variações são cegas, as flutuações não tem nenhum sentido em si mesma de ocorrerem. A chance de uma mutação ocorrer não é afetada pelo fato de poder ser útil à sobrevivência da espécie. Darwin é o precursor da idéia que é o acaso que cria a ordem. Enfim, a partir daqui é que ficou claro que nem tudo está escrito, que não há destino pronto, e que o que há são incertezas, muitas coisas simplesmente acontecem, dentro de suas oportunidades de acontecerem ou não.
Henri Poincaré fecha a história dessa época corroborando a idéia de que o acaso pode ser outra coisa que não nossa ‘ignorância’. Passa-se então a nascer e ser construído um novo pensamento filosófico sobre o homem. 
Adiante, o livro começa a abordar outra vertente do estudo do acaso. Surge a lei dos grandes números e a questão das probabilidades desprezíveis, ou seja, o reconhecimento de acontecimentos únicos, com pouquíssimas chances de ocorrer ou recorrer e por isso são desprezíveis. Émile Borel dita que devemos tratar essas possibilidades como se não existissem. Por exemplo, devemos dormir tranqüilos e desconsiderar a hipótese de que um grande meteorito vá devastar a superfície da Terra, como o evento da extinção dos dinossauros, nos próximos 10 anos. Nas questões de predição do que vai acontecer e retrodição, o conhecimento das probabilidades a priori, ressalta-se o termo ‘inferência’. Encerra-se a abordagem desta parte lembrando que o acaso, longe de conduzir à anarquia, produz suas próprias leis.
E a outra metade do livro, mais surpreendente e inesquecível ainda, vai nos contar por várias maneiras porque que somos FILHOS DO ACASO. Você já pensou como nascem as espécies, como nascem os anticorpos, como nascem as redes de neurônios? Sim, inicialmente, esses processos nascem por mecanismos aleatórios. O acaso está na vida. A natureza não utiliza plano algum. Ela vai acontecendo.
Cada indivíduo tem sua genética definida ao acaso, entre milhares de combinações possíveis dos genes (o número de associações diferentes é da ordem de 70 trilhões de possibilidades). E antes disso ocorrer, podemos pensar que populações formam-se ao acaso, e nossos pais podem se encontrar por acaso. Então somos realmente frutos de uma loteria, nossa hereditariedade é uma herança fortuita.
Já no desenvolvimento das redes neuronais, ocorrem intervalos mais ou menos regulares de descargas elétricas, mas há uma grande flutuação dos sinais liberados em cada sinapse. As informações percorrem um feixe de fibras maiormente definidos; contudo o número de vesículas sinápticas liberadas por um potencial de ação produzido pelo primeiro neurônio da corrente varia ao acaso, obedecendo a lei binomial dos eventos independentes. Há uma avalanche de íons, e nesse emaranhado, alguns se movimentam sem nenhuma ordem aparente, independente do uso ou não uso das vias nervosas. Muitas correntes elétricas não têm uma célula-alvo, elas se excitam espontaneamente, sem estímulo exterior, simplesmente porque o cérebro continua em constante atividade (é o denominado ‘ruído’ necessário ao funcionamento correto de sistemas inteligentes). Somando a isso, outros circuitos mudam totalmente de configuração em função de sinais emitidos ao acaso pelos neurônios excitados. Vale ainda esclarecer que nessa grande corrida de comunicação entre bilhões e bilhões de neurônios, as conexões nervosas do cérebro que são formadas desde seu nascimento apresentam um desenvolvimento ramificado variável de um indivíduo a outro.
Concluindo, para Rémy Lestienne, não resta dúvida alguma que o acaso tem um papel fundamental em nossas vidas e no universo.

Pensa que acabou?
Num próximo post falarei um pouco do que o livro aborda sobre o acaso físico e microscópico, e o que alguns filósofos tem a ver com este tema!

E ainda, o tema do evolucionismo de Darwin é ainda muito polêmico. Há muitos críticos que consideram que a aleatoriedade da evolução não poderia proporcionar a variabilidade da vida, ou mesmo a evolução das espécies.
Eu consigo enxergar que sim, mas ainda quero ler essas críticas, livros como “A caixa preta de Darwin’ e outras hipóteses que encontrei na net, como ‘complexidade irredutível’.
Voá-lá, estou de volta feliz neste mundo de conhecimentos a captar e refletir!!!

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