Mais do que nos indagar sobre ou
sermos marionetes imponentes num mundo mascarado pelo determinismo implacável ou
termos um mundo governado pelo acaso e assim estarmos à deriva, Rémy nos presenteia
com uma obra que expande nossa compreensão do assunto ‘acaso’ a partir de
quatro partes: I – O acaso clássico; II – O acaso na vida; III – O acaso
físico; e IV – Uma filosofia do acaso.
A
primeira parte de seu livro já começa nos interrogar de que ‘acaso’ estamos
falando. Ao chegar ao fim das páginas percebi que da Antiguidade até hoje houve
uma grande revolução em cima do tema. De relegado à categoria inicial de
epifenômeno, refletindo uma
inabilidade ou ignorância humana do homem em descobrir as causas ocultas dos
eventos, o acaso transforma-se em um conceito, tendo sua existência
discutida na natureza, na matemática, na mecânica quântica, e na sua relação
com a possibilidade de existência do livre-arbítrio e de uma transcedência.
Poucas
foram as vezes que vi tantos teóricos relacionados em torno de uma temática:
Platão, Aristóteles, Galileu, Newton, Laplace, Pascal, Cournot, Maxwell,
Peirce, Darwin, Poincaré, Emile Borel, Boltzmann, Bérgson, Prigogine, Henri
Atlan, De Broglie, Einstein, Penrose, Gödel, Popper, Montaigne, Sartre,
Kierkegaard, Camus, Heidegger, Monod, Kant, Heinsenberg, Schorodinger...
acreditem, todos estes nomes foram citados ou referenciados tendo alguma
influência ou co-participação direta nas reflexões a respeito do acaso. Eis
porque o livro ensina bastante e não é fácil resumi-lo, sendo densa e ampla
suas informações.
Creio ser
válido destacar alguns pontos essenciais, que solidificaram a forma como eu
penso e pode ser convidativo para outras pessoas lerem o livro por completo:
Da
breve pré-história do acaso, é importante saber que já na época de Platão se
cogitava uma noção de ‘contingência’,
ou seja, eventualidades que tem a mesma possibilidade de realizar-se num dado
momento (como se o acaso fosse uma coincidência). Os romanos, por sua vez,
chamavam as eventualidades desconhecidas de ‘destino’, baseada na crença de que
era a deusa fortuna que dava azar ou sorte às pessoas.
Mas é no
decorrer do século XVIII que se iniciaram os estudos das estatísticas e
probabilidades, porque queriam se calcular e diminuir os riscos de morte. Os ‘seguros
de vida’ não podiam ser vendidos pautados num ‘acaso cego’. Até na França o
acaso desempenhou um papel na vida prática: o serviço militar era resultado de
sorteio.
Contudo, a verdadeira
carreira científica do acaso inicia-se em 1859. Rompendo com a antiga
ordem, o acaso irrompe como elemento explicativo dos fenômenos. Nesta
época, uma nova ciência, a termodinâmica, desapontou propondo novas maneiras de
pensar as transformações e a irreversibilidade. Os estudos de Laplace também
estavam sendo conhecidos e discutidos.
É Claude Bernard que aparece pondo fim à
interpretação platônica de acaso. “O acaso, por definição, recusa todo recurso
a um antecedente: só podem ser chamados casuais, no sentido estrito, os eventos
que não são determinados por causa alguma”. Ele definiu o acaso como o encontro de duas séries causais
independentes. Por exemplo, o fato de uma telha cair do telhado e uma
pessoa passar na rua não tem conexão alguma, nenhuma dependência entre suas
causas; o encontro é acidental, fortuito.
Em seguida vem
James C. Maxwell, fundando a física
estatística e lançando as bases da teoria cinética dos gases. Ele é o primeiro
a associar atribuição de probabilidade à explicação de um fenômeno físico. Não
é possível prever as colisões elásticas das moléculas, devido sua imprecisa
distribuição de energia e uma limitação do homem em manipular tantos dados. Ele
vincula a complexidade de um fenômeno à suas fontes de variação que tornam os
métodos estatísticos pertinentes e inevitáveis. Posteriormente, Boltzmann dá
continuidade à obra de Maxwell associando
acaso e irreversibilidade. E depois segue
Charles S. Peirce, defendendo ainda
mais a questão do indeterminismo ligada à propriedade de irreversibilidade temporal, impelindo-o a conceber uma doutrina da
necessidade num universo de acaso.
Por fim, não
podemos deixar de mencionar a grande contribuição de Charles Darwin ao acaso.
“Em Darwin o acaso
torna-se, pela primeira vez, não mais um epifenômeno, mas um elemento constitutivo essencial da teoria do ser vivo e de sua
evolução no decorrer das idades. O acaso, aliado à seleção natural, é o motor da evolução”. O verdadeiro
mérito de Darwin é demonstrar o aspecto irredutível do acaso: a soberba, a absoluta
indiferença dos eventos elementares que dão fundamentos à aparição dos eventos
casuais sem considerar os julgamentos dos homens e as decisões do destino. Eis
o acaso natural: nem todas as variações na evolução tem uma causa concreta,
podendo elas serem acidentais. As variações são cegas, as flutuações não tem
nenhum sentido em si mesma de ocorrerem. A chance de uma mutação ocorrer não é
afetada pelo fato de poder ser útil à sobrevivência da espécie. Darwin é o
precursor da idéia que é o acaso que cria a ordem. Enfim, a partir daqui é que ficou
claro que nem tudo está escrito, que não há destino pronto, e que o que há são
incertezas, muitas coisas simplesmente acontecem, dentro de suas oportunidades
de acontecerem ou não.
Henri Poincaré fecha a história dessa época
corroborando a idéia de que o acaso pode
ser outra coisa que não nossa ‘ignorância’. Passa-se então a nascer e ser
construído um novo pensamento filosófico sobre o homem.
Adiante, o
livro começa a abordar outra vertente do estudo do acaso. Surge a lei dos
grandes números e a questão das probabilidades desprezíveis, ou
seja, o reconhecimento de acontecimentos únicos, com pouquíssimas chances de
ocorrer ou recorrer e por isso são desprezíveis. Émile Borel dita que devemos
tratar essas possibilidades como se não existissem. Por exemplo, devemos dormir
tranqüilos e desconsiderar a hipótese de que um grande meteorito vá devastar a
superfície da Terra, como o evento da extinção dos dinossauros, nos próximos 10
anos. Nas questões de predição do que vai acontecer e retrodição, o
conhecimento das probabilidades a priori, ressalta-se o termo ‘inferência’. Encerra-se a abordagem
desta parte lembrando que o acaso, longe
de conduzir à anarquia, produz suas próprias leis.
E a outra
metade do livro, mais surpreendente e inesquecível ainda, vai nos contar por
várias maneiras porque que somos FILHOS
DO ACASO. Você já pensou como nascem
as espécies, como nascem os anticorpos, como nascem as redes de neurônios?
Sim, inicialmente, esses processos nascem por mecanismos aleatórios. O acaso
está na vida. A natureza não utiliza plano algum. Ela vai acontecendo.
Cada indivíduo
tem sua genética definida ao acaso,
entre milhares de combinações possíveis dos genes (o número de associações
diferentes é da ordem de 70 trilhões de possibilidades). E antes disso ocorrer,
podemos pensar que populações formam-se ao acaso, e nossos pais podem se
encontrar por acaso. Então somos realmente frutos de uma loteria, nossa
hereditariedade é uma herança fortuita.
Já no
desenvolvimento das redes neuronais, ocorrem intervalos mais ou menos regulares
de descargas elétricas, mas há uma grande flutuação dos sinais liberados em
cada sinapse. As informações percorrem um feixe de fibras maiormente definidos;
contudo o número de vesículas sinápticas liberadas por um potencial de ação
produzido pelo primeiro neurônio da corrente varia ao acaso, obedecendo a
lei binomial dos eventos independentes. Há uma avalanche de íons, e nesse
emaranhado, alguns se movimentam sem nenhuma ordem aparente, independente do
uso ou não uso das vias nervosas. Muitas correntes elétricas não têm uma
célula-alvo, elas se excitam espontaneamente, sem estímulo exterior,
simplesmente porque o cérebro continua em constante atividade (é o denominado
‘ruído’ necessário ao funcionamento correto de sistemas inteligentes). Somando
a isso, outros circuitos mudam totalmente de configuração em função de sinais
emitidos ao acaso pelos neurônios excitados. Vale ainda esclarecer que nessa
grande corrida de comunicação entre bilhões e bilhões de neurônios, as conexões
nervosas do cérebro que são formadas desde seu nascimento apresentam um
desenvolvimento ramificado variável de um indivíduo a outro.
Concluindo, para Rémy Lestienne, não resta dúvida alguma
que o acaso tem um papel fundamental em nossas vidas e no universo.
Pensa que
acabou?
Num próximo
post falarei um pouco do que o livro aborda sobre o acaso físico e
microscópico, e o que alguns filósofos tem a ver com este tema!
E ainda, o
tema do evolucionismo de Darwin é ainda muito polêmico. Há muitos críticos que
consideram que a aleatoriedade da evolução não poderia proporcionar a
variabilidade da vida, ou mesmo a evolução das espécies.
Eu consigo
enxergar que sim, mas ainda quero ler essas críticas, livros como “A caixa
preta de Darwin’ e outras hipóteses que encontrei na net, como ‘complexidade
irredutível’.
Voá-lá, estou de volta feliz
neste mundo de conhecimentos a captar e refletir!!!

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