“Queremo-nos necessários, inevitáveis, ordenados desde sempre. Todas as religiões, quase todas as filosofias, inclusive uma parte da ciência, testemunham o incansável e heróico esforço da humanidade em negar desesperadamente sua própria contingência” (pg.56)
Qual é a tese central de Monod
neste seu livro? De uma leitura truncada, e reconhecendo ser difícil assimilar
qual é sua linha de raciocínio central, chega-se aos seus argumentos principais
somente após uma solidificação de seus pensamentos.
Começando a distinguir todos os
seres vivos de todas as outras estruturas de todos os sistemas presentes no
universo pela propriedade da teleonomia,
segue afirmando que duas de suas outras propriedades são a morfogênese autônoma e a invariância
reprodutiva. Nomes difíceis até de lembrar não é mesmo?
Monod nos diz que todo ser vivo
possui suas estruturas macroscópicas construídas por processos morfogenéticos
que se caracterizam pela autonomia e
espontaneidade. Por isso nos diferenciamos de artefatos e objetos naturais
resultantes grande parte da ação de agentes externos. Em suma, somos máquinas que se constroem a si mesma.
Além disso, nos reproduzimos invariantemente, ou seja, com invariância, o autor
nos recorda que, de uma geração a seguinte, tais objetos vivos replicam,
transmitem e conservam sua própria estrutura, de alto grau de ordem, com
diversas unidades de informação.
Todas as estruturas, performances
e atividades que contribuem para o sucesso do projeto da natureza de conservar
e reproduzir essa norma estrutural é considerado para Monod ‘teleonômicas’. A noção de teleonomia
implica a idéia de uma atividade orientada, coerente, construtiva.
Posteriormente, surge a questâo:
Com a evolução, não haveria um refinamento progressivo das estruturas? Não
seria um dilema existir uma teleonomia (manutenção de resultados regidos por
princípios) levando em consideração as idéias Darwinianas de seleção natural e
perturbações / mutações (modificações, movimento de mudança)?
Antes de responder isso Monod dá um passeio sobre teorias
vitalistas e concepções animistas, citando os pensamentos de Bérgson, Teilhard
de Chardin, e até Marx e Engels. Com elas, ele expõe que o antigo desejo de reencontrar uma antiga aliança com a natureza foi o que fez com que
muitos transformassem o principio teleonômico inicial no motor da evolução,
abandonando o postulado de objetividade. Com tais teorias, o homem encontraria no universo seu lugar eminente e necessário,
partindo da hipótese de que o homem advêm de uma evolução da biosfera contínua,
sem rupturas, e esta, por sua vez, da evolução cósmica.
“Para dar um sentido à natureza, para que o homem dela não fosse separado por um abismo insondável, para torná-la enfim indecifrável e intelegível, era preciso proporcionar-lhe um projeto. Na falta de uma alma que nutrisse tal projeto, inseriu-se então na natureza uma força evolutiva, ascendente”.
Mas todas as concepções
vitalistas e animistas estão erradas, aos olhos da moderna teoria científica. E
na raiz dos erros está a ilusão
antropocentrista. A teoria da evolução confere uma nova realidade para a
antiga miragem do homem estar no
centro do universo (heliocentrismo): apenas desloca o humano para ser o herdeiro desde sempre esperado, natural,
do universo todo. “Deus enfim podia
morrer, substituído por essa nova e grandiosa miragem. Doravante, o esforço
último da ciência será o de reformular uma
teoria unificada, que fundada num pequeno número de princípios, dará conta da realidade toda, inclusive da
biosfera e do homem. Era nessa certeza exaltante que se alimentava o
progressismo cientificista do século XIX”.
E só assim, Monod expõe a sua
tese:
“A biosfera não contém uma classe previsível de objetos ou de fenômenos, mas constitui um acontecimento particular, de certo compatível com os primeiros princípios, mas não deduzível desses princípios. Portanto, essencialmente imprevisível. Que me compreendam bem. Dizendo que os seres vivos enquanto classe são não previsíveis a partir dos primeiros princípios, de modo algum pretendo sugerir que não sejam explicáveis segundo esses princípios...”.
Os próximos capítulos vão muito
além da conversa. Na parte ‘Os demônios de Maxwell’ inicia-se um discurso sobre
as proteínas e suas propriedades funcionais. Baseando-se na idéia da biologia
de que todo organismo constitui uma unidade funcional coerente e integrada,
mostrando os seres vivos como uma máquina química, discorre-se sobre como as
enzimas catalisam reações e fazem ligações covalentes e não covalentes.
Compartativamente à maneira da experiência de Maxwell em que fenômenos parecem ser guiados pelo
exercício de funções de algum modo ‘cognitivas’ (e por isso demoníacas,
porque tinham o poder extranatural de violar o segundo princípio da
termodinâmica, criando ordem e baixando a entropia do sistema), as proteínas
exercem sua função demoníaca. “As enzimas
exercem precisamente, em escala microscópica, uma função criadora de ordem. Mas
esta criação de ordem não é gratuita, ela ocorre na dependência de consumo de
potencial químico”.
Os dois outros capítulos
subseqüentes, ‘Cibernética Microscópica’ e ‘Ontogênese molecular’, elucidam
ainda mais a respeito da coerência funcional intracelular, sobre regulações,
mecanismos e interações indiretas, algumas arbitrárias, e sistemas com
propriedades de reconhecimento, bem como sobre a estruturação espontânea de
partículas complexas. Monod frisa o
caráter espontâneo do processo de epigênese molecular (aparição de
estruturas e de propriedades novas no curso do desenvolvimento embrionário). O
que se salienta é que individualmente as moléculas são desprovidas de suas
atividades e propriedades funcionais, mas quando se organizam, elas se revelam.
A informação estava presente, em potencial, apenas inexpremida. “A construção epigenética de uma estrutura
não é uma criação, é uma revelação”.
Creio eu que a excelente observação
aqui e que passa quase despercebida é não só o esclarecimento de que
“em cada uma dessas estruturas aparecem estruturas de ordem superior e funções
novas que, resultando das interações espontâneas entre produtos da etapa
precedente, revelam, como num fogo de artifício com vários estágios, as
potencialidades latentes dos níveis anteriores” mas principalmente como o acaso se encaixa nessa história. Toda a estrutura primária de proteína nos aparece como o puro produto de uma
escolha feita ao acaso, e num outro sentido, a sequência de cada proteína de forma alguma foi sintetizada ao acaso,
pois a mesma ordem é reproduzida, praticamente sem erro, em todas as moléculas
da proteína considerada, milhões de vezes, em cada organismo e a cada geração. “O acaso é captado, conservado, reproduzido
pela maquinaria da invariância e assim convertido em ordem , regra, necessidade”.
O espanto indecifrável é como o projeto de todo ser vivo é mantido à risca (a
teleonomia) saindo do acaso, de um jogo totalmente cego.
Continuando o assunto, e
reforçando que da Bactéria ao Homem, a maquinaria química é essencialmente a
mesma, o sub-tema que surge são os invariantes
químicos: “Todos os seres vivos, sem exceção, são constituídos por
proteínas e ácidos nucléicos. Além disso, essas macromoléculas são formadas
pela reunião dos mesmos radicais, em número finito: 20 aminoácidos para as
proteínas, quatro tipos de nucleotídeos para os ácidos nucléicos”. E também, em
todos os organismos vivos são utilizadas as mesmas reações de mobilização e
reserva de potencial químico, e biossíntese dos constituintes celulares.
E aí entra a questão: “Se quimicamente os constituintes são os
mesmos, e sintetizados pelas mesmas vias em todos os seres vivos, qual é a
fonte de sua prodigiosa diversidade morfológica e fisiológica? Mais ainda, como
cada espécie, utilizando os mesmos materiais e as mesmas transformações
químicas que todas as outras, mantém invariante, através das gerações, a norma
estrutural que a caracteriza e a diferencia de qualquer outra?” A resposta
é que os constituintes universais equivalem
a um alfabeto, e que a partir dele pode ser escrita toda a diversidade. E é
a reprodução do texto sob forma de sequência no invariante fundamental do DNA que garante a invariância da
espécie.
Entrando na explicação dos
mecanismos de replicação e tradução do DNA, Monod adverte para a conclusão que
o código, universal na biosfera, parece quimicamente
arbitrário, no sentido em que a transferência de informação poderia muito
bem ocorrer segundo uma outra convenção e que o sistema todo, apesar de ser
conservador e fechado em si mesmo, absolutamente incapaz de receber
intervenções do mundo exterior, é alterado acidentalmente por perturbações
microscópicas de ordem quântica.
“Dizemos que essas alterações são acidentais, que ocorrem ao acaso. E
porque elas constituem a única fonte possível de modificações do texto
genético, segue-se necessariamente que apenas
o acaso está na fonte de toda novidade, de toda criação na biosfera. O
acaso puro, o só acaso, liberdade absoluta, mas cega, na raiz mesma do
prodigioso edifício da evolução: hoje essa noção central da biologia moderna
não é mais uma hipótese entre outras possíveis, mais ou menos concebíveis. É a
única hipótese concebível, como também a única compatível com os fatos de
observação e de experiência. Essa noção também é, de todas aquelas de todas as
ciências, a mais destrutiva de todo
antropocentrismo, a mais intuitivamente inaceitável para os seres
intensamente teleonômicos que somos”.
Fechando o capítulo, afirma-se
que a evolução de forma alguma é uma
propriedade dos seres vivos (contrariando Begson que vê na evolução o
princípio da vida), pois para a teoria moderna, a evolução tem sua raiz nas
imperfeições do mecanismo conservador.
Ademais, temos ainda dois
capítulos finais, que para um psicólogo, considero que devem ser lidos e
relidos algumas vezes e com calma. Primeiro, apresentam-se argumentos para defender
a aquisição da linguagem como programada
no desenvolvimento epigenético do cérebro. “A capacidade linguística que se revela no curso do desenvolvimento
epigenético do cérebro faz parte hoje da própria ‘natureza humana’ definida no
interior do genoma. Milagre? Sem dúvida, pois trata-se, em última análise, de um produto do acaso”. Depois, temos
ainda discussões sobre o inatismo e o
empirismo (“tudo no ser humano vem da experiência, mas da experiência
acumulada no curso da evolução”), sobre as pressões
de seleção na evolução do homem (“todo
ser vivo é também um fóssil, traz em si e até nas estruturas macroscópicas de
suas proteínas, os traços, senão os estigmas, de sua ascendência”), e até
sobre a seleção das idéias.
Por tudo isso é que o livro ‘O
acaso e a necessidade’ de Jacques Monod é uma grande referência. A riqueza
maior, a meu ver, são as descrições que desmontam
a miraculosidade de nossa origem. Por isso, fecho o post com as
epígrafes abaixo:
“Muitos espíritos eminentes ainda
hoje parecem não poder aceitar nem mesmo compreender que, de uma fonte de
ruído, a seleção tenha podido por si mesma tirar todas as músicas da biosfera”
“A vida apareceu sobre a terra:
qual era, antes do acontecimento, a probabilidade de que fosse assim? Não se
exclui a hipótese de que o acontecimento decisivo só se tenha produzido uma
única vez. Isso significa que a probabilidade a priori era quase nula. Essa
idéia repugna a maioria dos homens de ciência. Essa idéia se choca contra nossa
tendência humana a crer que toda coisa real no universo atual era necessária, e
isso, desde sempre. A ciência moderna ignora toda imanência. O destino se
inscreve na medida em se que cumpre, não antes. O universo não estava grávido
da vida, nem a biosfera, do homem. Nosso número saiu no jogo de Monte Carlo. O
que há de espantoso em que, tal como aquele que acaba de ganhar um bilhão,
experimentemos a estranheza de nossa condição?”
“É preciso que o homem enfim
desperte de seu sonho milenar, para descobrir sua solidão total, sua estranheza
radical. Agora sabe que, como um cigano, está à margem do universo onde deve
viver. Universo surdo a sua música, indiferente às suas esperanças, como a seus
sofrimentos ou a seus crimes”
“Rompeu-se a antiga aliança.
Enfim, o homem sabe que está sozinho na imensidão indiferente do universo, de
onde emergiu por acaso. Não mais do que seu destino, seu dever não está escrito
em lugar algum. Cabe-lhe escolher entre o Reino e as trevas”.
“Renunciar à ilusão que vê na
alma uma “substância” imaterial não é negar sua existência, mas começar a
reconhecer a complexidade, a riqueza, a insondável profundidade não só da
herança genética, como também da experiência pessoal, consciente ou não, que
juntas constituem o ser que somos, única e irrecusável testemunho de si mesmo”.

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