quarta-feira, 16 de maio de 2007

De angústia, Caos e Duplos avessos – E eu invisível!

Acho que somente agora toquei o vazio.

Agora sim caiu um real pingo de angústia em “mim”, justamente nesse “mim” que esmoreceu, que eu sentia ser ‘meu’, originariamente meu, intrínseco e exclusivo.

Pois de tanto ouvir que a essência do sujeito não é proveniente dele mas da realidade externa, cheguei ao momento de identificar-me com essa total realidade e, ao mesmo tempo, me anular com ela, desaparecer. Parece que no instante que nasci, fui um zero, uma tabula rasa, a tal da cera ainda crua para ser moldada, que, aos poucos, vai sendo manipulada, como se fossem inseridas em mim características que não são originariamente minhas, pois primeiramente são do mundo, tornam-se ‘eu’, ou pelo menos a conjunção delas era o que eu considerava que fosse o meu ‘eu’, só meu.

Mas também estas características não estão dispostas concretamente no mundo, não existem, quero dizer, elas estão ‘postas’ na margem invisível que liga as gerações das espécies. Se a espécie findar, esse mundo inventado sucumbe junto.

Então, nós, que passamos a existir, passamos a se apropriar daquilo que também passou a existir... e antes desse existir, encontrei o Tudo e o Nada, a mesma coisa.. eu e a realidade misturada, indistinta... eu sou você, o mundo somos nós, e esse nós é tudo-nada.

É por isso que cada vez mais pesa a sensação do que eu chamo de “duplo-avesso”. Existe uma duplicidade, uma ambivalência em muitas coisas que faz com que elas nasçam da própria coisa, se auto-produzam. Isso me chama a atenção, pois muitas coisas se explicariam assim. Tal compreensão já é antiga, é o tal do Yin-Yang, é o lema enfatizado por Morin da idéia de “morrer de vida e viver de morte” (Só vivemos porque existe a constante morte de nossas células, vivemos através da morte, porque a morte existe, e da mesma forma, só morremos porque vivemos demais, morremos de tanto viver, de tanto nossas células se regenerarem).

E não só a duplicidade morte-vida mas infinitamente outras, ditas paradoxais e contraditórias, como amor-ódio, feminino-masculino, direito-esquerdo, vazio-cheio, etc, são duplicidades que se viram do avesso, uma é a face da contra-face da outra.

E o engraçado também é que esse meu próprio discurso é também sem origem e sem fim, não é possível identificar uma fonte única sua e qual seu alcance. Um pensamento desordenado chegou rasgando, interpondo-se com o que já havia e carregando consigo a confluência do caos e da pré-ordem, metamorfoseando, feito bola de neve, que gruda em si uma parte daquilo com a qual se interconecta, mas também perde, desfaz-se do que é seu, pelo caminho.

A sensação de ser o tudo-nada irrompeu claramente num diálogo em aula, em qual se comentava sobre a nova tendência pedagógica da inclusão social. Não estender-me-ei nesse assunto, só quero pontuar que falávamos lá de duas lógicas: a dominante e homogeneizante que se quer atenuar com uma outra lógica, que prioriza a heterogeneidade, a mutabilidade e a consideração pelas diferenças. No debate, lembrei-me de um outro comentário de um amigo, de que é impossível escapar de uma lógica, sem cair em outra. Então, ousei expor meu raciocínio que estava se elaborando. “Mas ao tentar romper com essa lógica, não se está querendo por outra em seu lugar? Só iremos apresentar a idéia da mutabilidade se quisermos que ela se mantenha e querer isso é estabelecer a mutabilidade como regra, tendência principal a ser seguida. E ai, a longo prazo, o que era para ser heterogêneo, vai se homogeneizar novamente e virar a ordem...”

Não sei se a professora ou alguém mais na sala me entendeu, mas fiquei, literalmente desenhando meus pensamentos. Fiz um esquema visual dinâmico da dialógica ordem/desordem, lembrando-se da concepção sistêmica de umbral e retroalimentações. Ficou evidente para mim um ‘processo’ de como se dá um ‘desenvolvimento’. Pensemos numa ordem instaurada existente. Uma homeostase, um padrão que está ocorrendo. No seu percurso, surge a diferença, uma inovação, um acaso qualquer, uma emergência, um fato aleatório. É A PENETRAÇÃO DO CAOS NA ORDEM. Imagine um dominó e na sua seqüência de evolução, trajetória, algo atinge a ordem. O que vai acontecer? Há duas tendências. Uma é a ordem abarcar essa diferença, se abalar por um tempo com ela, mas seguir levemente alterada e se restabelecer ao padrão ‘normal’ antes da desordem. Nesse caso, a diferença, aos poucos, desaparece e a ordem volta a reinar. É a retroalimentação negativa, na qual a mudança é adaptada ao todo, o desvio é corrigido. O sistema abarca a diferença e consegue manter o seu padrão de funcionamento. No caso do dominó, algo apenas relou em um elemento, mas não foi suficiente para desvirtuar o caminho inteiro da fileira. A outra tendência é o caos tornar-se a nova ordem. O trajeto altera-se totalmente. A mudança, nessa retroalimentação positiva, faz com que todo o sistema se modifique. É a nova lógica que toma espaço e vai tornar-se dominante. Como diz Morin: " Os felizes desviantes transformam em desviantes aqueles de quem se haviam desviado". Entenderam?

Enfim, retornando ao pensamento das duplicidades às avessas, da dialética-dialógica das coisas e fenômenos, a ordem-caos parece ser uma destas duplicidades fundamentais, se não a mais fundamental. Parece que a ordem nasce do próprio caos e o inverso também, o caos advém da ordem como possibilidade de invertê-la.

E eu continuaria minha divagação, falaria mais do caos, da ordem e desordem, das contradições, das complementaridades, das dissonâncias, das integrações, das relações e interdependências, das inovações, do devir, das imprevisibilidades, das indeterminações, das desorganizações e reorganizações... de toda essa bela complexidade que religa o que parece estar desunido e que, enfim, é tudo o que eu quero dizer, ou que o mundo, através de mim, quer manifestar.. Rs, mas é hora de fechar aspas e voltar a ser tudo-nada (mas como voltar, se sempre fui??) Ou melhor dizendo, reconduzir-se para a outra faceta da moeda, perder-se nos infinitos graus que compõem isso aí que há, ou que não há, mas acontece!!!

4 Comentários:

Gigio Gomes disse...

Adoro suas reflexões e como você as desenvolve. Gostei principalmente da parte em que você pontua que o indivíduo e a coletividade são as mesmas coisas. Citando Gil (o Gilberto, rss) "Por isso mesmo é que há de haver mais compaixão".
Tenho esperanças que um dia todos entendamos isso e possamos ser mais que solidários, sejamos fraternos.
Continue escrevendo.

Um grande beijo.

Anônimo disse...

Oi!
Vi seu blog no orkut e achei bastente interessante. Vc escreve muito bem, se expressa muito também. Quero avisar, se não houver problemas é claro, que vou linkar seu blog lá no meu... quero que as pessoas q passam lá vejam, sem compromisso nenhum! Td bem? O meu é Http://celle.manhaes.zip.net Bjks!

Anônimo disse...

menina que amadurece...
apaixonada pela complexidade!
seu mundo cresce...
marcada com sincronicidade!
mulher que nasce...
sedenta por maturidade!

Leandro Salvador disse...
Este comentário foi removido pelo autor.