Há dias tenho estado mais próxima de percepções internas, a
meu respeito, pensamentos alhures... dimensões nunca dantes imaginadas por mim. E de tão acostumada a ser racional, estranha-me bastante
esse ‘sentir-me’. Pareço recuperar aquele narcisismo infantil exacerbado e
original, ‘centro-me’, como se não sobrasse outra opção.
Um pouco desta situação acontece por influência de alguém
que conheci, me relacionei e convivi por um tempo, tempo o suficiente pra me
marcar, a ferro e fogo. Alguém que se percebe a todo momento, de maneira tão
intensa que se choca com a minha, assim posso chamar ‘falta de olhar-me
verdadeiramente, conhecer-me’.
Começo a fazer confissões particulares a mim, com medo da
minha própria reação.
Sinto-me um daqueles vidros de carro que se quebram, mas não
se descolam, que embora continuem unidos, estão moídos. Mas para mim, que vivi
anos me sentindo uma única pessoa, integrada, agora estou um tanto quanto
desconfortável, estranha. Claro que eu sabia da existência dos meus e diversos
eu’s. Só que então, como nunca ousei pensar, descubro pedaços de mim que não
gosto e é tão difícil dizer e aceitar que não me gosto, ou que momentaneamente
me sinto desconfortável com idéias que me assaltam. Porque eu estava acostumada
a não precisar ‘me ver’.
Por que eu sou tão contraditória?
Porque sinto lados em mim se digladiando?
Perturba-me sentir que penso em algo mas faço o contrário.
Choro por um romantismo que eu quero continuar a acreditar
que é possível, mas que eu já, definitivamente, não creio.Embraveço comigo mesma porque quero fantasiar e me iludir.
Alegro-me só por um instante porque talvez eu pudesse ser
outra Sil, mas assim que espio para ela, ela foge, foge desesperadamente.
Condeno com unhas e dentes a necessidade dos ritos, das
crenças transcendentais. Mas também queria realmente não condenar nenhum tipo
de crença...
É complicado sentir-se uma pessoa que ao mesmo tempo que
preza por uma opinião formada, procura ter seus ponto de vistas, mas não quer
deixar o relativismo de lado e algumas vezes prefere estar no meio do muro do
que assumir qualquer lado drástico, polaridades... Talvez por não conseguir argumentar algumas
idéias suficientemente.
Ás vezes invejo uma felicidade aparente, alienada, mas
felicidade, embora saiba que agora que estou modificada ela nunca mais me fará
feliz.
Me sinto no meio de uma encruzilhada. Pareço que não estou
nada perto do que talvez me faça sentir vitoriosa outra vez. E eu que sempre
estive tão bem com minhas vitórias e numa leve e fluída paz! Alguns olham para
mim e já admiram imediatamente essa minha maneira de levar a vida, essa forma
leve e simples de encarar algumas coisas e rapidamente perdoar e passar para o
que vem adiante, para o que interessa. Poucos percebem como escondo o passado
que eu carrego... E como ele sempre retorna, está a tona. Mantenho meus silêncios... afundo em mim
algumas idéias que não suporto... Vou vivendo e me sinto na maior parte das
vezes bem... A questão é que agora entendo que há uma certa superficialidade em
mim, que se confunde com a leveza, a qual está me incomodando... É minha
armadura.... A defesa contra a realidade... Preciso aos poucos me livrar dela, para me
construir mais forte e poder então ver e sentir as coisas com a profundidade
que almejo, que sei que outros já conseguem...
Quero um dia poder gritar verdadeiramente para vocês tudo
como penso. Mas não tenho ainda essa coragem! Não tenho ainda coragem de ser quem eu sei que serei!
“Aonde foi que deixei minha coragem?
Eu sou um pássaro
Me trancam na gaiola
Mas um dia eu consigo existir e vou voar pelo caminho mais bonito”
(Legião
Urbana)

1 Comentários:
Só o tempo conserta o para-brisa quebrado. (Não sozinho mas sem um tanto dele não rola)
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