segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

A pós-modernidade e o caso Nietzsche: sobre algumas doutrinas e a suposta morte do idealismo

No post anterior, foram ressaltadas duas convicções que romperam com a Cosmologia Antiga e inauguraram a crítica à religião. Foram elas: a crença do ser humano como o centro do mundo e o principio de todos os valores morais e políticos e da razão aliada ao progresso das Luzes como fontes de liberdade e de felicidade aos homens. 

Em seu Capítulo 5, Luc Ferry traz à tona uma nova ‘descontrução’ acontecida. Apresenta a temática da filosofia pós-moderna justamente como a crítica ao humanismo e ao racionalismo exacerbado e Friedrich Nietzsche como ponto culminante desta contestação.

Fica esclarecido que a nova ‘destituição’ foi vítima de seus próprios princípios: “O humanismo das Luzes, sem perceber, permanece prisioneiro das estruturas essenciais da religião que ela rechaçou, no ponto mesmo em que supõe tê-las ultrapassado”. Ou seja, as novas ‘verdades’(mentiras) postas são em si substituições por nada menos que um outro tipo de ideologia, pois continuam sendo crenças, utopias, de que a humanidade será um dia mais respeitosa em relação à si mesma, de que os humanos finalmente se enxergariam como iguais e conquistariam a enfim democracia.

Os ‘ídolos’, como afirma o anti-democrata Nietzsche, são invenções de um além melhor do que este mundo, uma imaginação de valores transcendentes, pretensamente superiores e exteriores à vida, que condenam a própria vida, negam o real em nome de falsas realidades. Isso é o que Nietzsche chama de niilismo e é a tese central de seu pensamento: não existe nada fora da realidade da vida, nem acima nem abaixo, nem no céu nem no inferno, e todos os celébres ideais da política, da moral e da religião são apenas ídolos, inchaços metafísicos, ficções, que não visam nada a não ser fugir da vida, antes de se voltar contra ela.

A partir do momento que a filosofia revisa os seus princípios pelo próprio espírito critico inventado, pela dúvida e pela razão lúcida, os filósofos pós-modernos definem-se então como os ‘filósofos da suspeita’, e são aqueles que, como em parte Marx e Freud, questionam os velhos e bons valores, e enojados dos bons sentimentos, não se curvam diante das verdades bem-estabelecidas, e por trás das crenças tradicionais, investigam os interesses e escolhas ocultas, inconscientes, mais profundas.


Entre todos, Nietzsche é o mais radical, o vanguardista que faz tabula rasa do passado e é o maior representante porque o mais irreverente e inovador em quebrar tudo audaciosamente. O pensamento deste gênio pode ser por vezes insuportável e podemos não partilhar de suas idéias ou até detestá-las, mas depois dele, não podemos mais pensar como antes.  Será que há uma ‘theoria’ no espancador por excelência do racionalismo? Os nietzscheanos ortodoxos dizem que não há como procurar uma moral no imoralista e Ferry acrescenta que o diferencial do genealogista é não colocar no lugar da desconstrução nenhuma nova doutrina da salvação. Não encontramos em sua obra um pensamento que possa ocupar o lugar das idéias antigas. Ele não desconstrói para negar, mas para abrir pensamentos novos.

Com sua genealogia, Nietzsche acentuou algumas afirmativas. Expôs que os juízos sobre a existência não tem o menor sentido, são ilusões; todos os nossos enunciados não são entidades concretas e nem abstratas e os nossos pontos de vista, quaisquer que sejam, não abstraem o fundamento do real ou a intima essência do ser. Não existem fatos, apenas interpretações; e por trás das avaliações não existe fundo, e sim um abismo, cada vez maior e inacessível. Para ele, o próprio real é um caos que não se parece em nada com o sistema harmonioso dos Antigos nem mesmo com o universo mais ou menos racionalizável dos Modernos.  Kant e outros filósofos continuam ainda procurando encontrar unidade, coerência e ordem no mundo, injetando racionalidade e lógica. Para Nietzsche, tal empreitada é perda de tempo: continuamos vítimas de projeções humanas. É sempre um simulacro de poder sobre uma matéria que nos escapa totalmente. Mas, mesmo o real sendo em parte incompreensível, temos que aprender a nos situar diante dele.

Em seguida o capítulo do livro aborda como Nietzsche visualiza o mundo como um conjunto de forças, ‘As forças reativas’ e ‘As forças ativas’, e como estas culminam, a primeira no ideal democrático, e a segunda na visão aristocrática. Esta parte é densa e complicadinha, mas refere-se a algumas criticas que Nietzsche faz a incansável pretensão da ascensão às verdades (democráticas, pois pretendem valer para todos, em qualquer tempo e em qualquer lugar) e que por trás da ‘reação’ tradicional pode haver outras dimensões além da preocupação com a verdade. As forças ‘ativas’ não rejeitam o mundo sensível em proveito do mundo inteligível, ao contrário, valorizam aquilo que é enunciado sem discutir, e que apresentam um mundo sem necessidade de legitimação. O modelo reativo advém do socrático, que para a busca da verdade é necessário se opor às faces da ignorância, da estupidez ou má-fé e assim se impõe a todos; e o modelo ativo tem a ver com o discurso sofistico, que simplesmente procura produzir efeitos e vale por si mesmo, como a arte e as manifestações do corpo.  Ferry salienta que Nietzsche não quer rejeitar as forças reativas e conservar apenas as ativas, mas apontar que ambas se entrechocam e que neste conflito a vida pode definhar se uma delas enfraquecer em oposição à outra.

Continuando, abre-se espaço para a discussão do que o pensador do ‘além do bem e do mal’ estipula como culto ao ‘grande estilo’ e ‘vontade de poder’. O que ele propõe se ele é o supremo abominador dos ideais e rejeita todo projeto de melhoramento de mundo, sempre atacando a caridade, a compaixão, o altruísmo, sob todas as suas formas, cristãs ou não? Ele sugere o que chama de grandeza, a conciliação das forças ativas e reativas. O grande estilo é a capacidade de se tornar senhor do caos interior, em forçar seu próprio caos a assumir forma, sendo que a racionalidade não será eliminada, mas pode encontrar seu lugar ao lado das paixões. Não a excluí-la e não escolher uma força em detrimento da outra. É assim que por exemplo, temos que aceitar a inimizade e outras coisas existentes como a continuação do ideal cristão, já que nos oferecem meios de levar uma vida mais intensa, mais rica em diversidade e poderosa. Portanto, a ‘vontade de poder’ de que fala Nietzsche refere-se à vontade de intensidade, que quer evitar os dilaceramentos que nos diminuem, que apequena a vida. É a ‘vontade da vontade’, que quer sua própria força, e não quer ser enfraquecida por aquilo que nos esgota, nos torna pesado e impede de viver a vida com a leveza e a inocência de um ‘dançarino’.

Nietzsche pega no contrapé todos os que gostariam de ver nele um adversário da razão, um apóstolo da emancipação dos sentidos e dos corpos contra o primado da lógica”. Ferry adverte que para Nietzsche todos os desejos violentos e contraditórios devem caminhar juntos com a frieza, a lucidez, a dureza e a lógica.  Nietzsche então prefere o gênio clássico, pois o herói romântico é dilacerado e enfraquecido; assim detesta Wagner e Schopenhauer e gosta de Mozart e música clássica e matemática. Conclui que há valores para Nietzsche, e uma moral para o imoralista: ele não zomba da moral senão em nome de uma outra moral.

O mesmo acontece com a hipótese de um pensamento de salvação em Nietzsche. Ele apresenta uma doutrina de salvação terrestre, sem ídolos e sem Deus: a doutrina do eterno retorno, a doutrina do amor fati, e a inocência do devir.

O eterno retorno propõe que não há mais transcendência e fuga possível num novo além ou ideal. É permanecendo nesta terra e nesta vida que precisamos distinguir o que vale a pena ser vivido e o que vale a pena perecer, quais as formas de vida frustradas e medíocres e quais as intensas e grandiosas, ricas em diversidade. A blasfêmia é ceder às bobagens metafísicas e religiosas e esperar a transformação do mundo. “Nietzsche nos convida a viver de tal modo que nem os arrependimentos nem os remorsos tenham mais nenhum espaço, nenhum sentido. Está é a verdadeira vida”. É estranho porque parece cristão, mas Nietzsche prega a existência de uma eternidade pela qual se tem acesso pela fé e cultivo ao amor. “A vida boa é a que consegue viver o instante sem referência nem ao passado nem ao futuro, sem condenação pessoal, com leveza absoluta, com o sentimento perfeito de que não há mais diferença real entre o passado e a eternidade”.

Aliada a essa visão está o ‘amor fati’, ou seja, o desejo pelo que existe no presente e nada além do que é, sem possibilidade de subtração, exceção ou escolha. Os aspectos negados são vistos não apenas necessários, mas como desejáveis. Lamentar um pouco menos e dizer sim com amor à vida presente que se apresenta.

Mas como conciliar as duas testes de Nietzsche? Uma que diz que devemos escolher o que queremos viver e reviver e outra que nos recomenda amar todo o real sem nunca procurar escolher ou fazer exceção?

Ferry responde e eu não pude não copiar quase que integralmente esse trecho: “Se admitirmos que este amor ao destino só vale depois de serem postas em prática as exigências seletivas do eterno retorno; se vivêssemos segundo esse critério de eternidade, se nos  encontrássemos, enfim, no grande estilo, na mais alta das intensidades tudo seria bom. Os infortúnios da sorte não teriam mais lugar, tampouco os acontecimentos felizes. Poderíamos, enfim, viver todo o real, como se a cada instante ele fosse a eternidade mesma (....) e assim, compreendendo o real como reduzido ao presente, o passado e o futuro perdem sua capacidade de nos culpar e de nos persuadir de que poderíamos ter agido de outro modo, evitando as atitudes de remorso que nos dilaceram”.

Enfim, finaliza-se a apresentação sobre a temática nietzschiana pontuando a inocência do devir como aquela serenidade pela qual poderemos ‘ser salvos’ dos medos. “É um grande reconforto não existir nem lugar, nem fim, nem sentido ao qual possamos imputar nosso ser e nossa maneira de ser... nisso consiste a inocência de tudo o que é”.

À parte, no trecho criticas e interpretações de Nietzsche do capitulo, Ferry assume que buscou apresentar a obra do mestre sem criticá-la porque não gosta de denegrir nenhum filósofo. Mas assume que embora goste muito do seu pensamento nunca pode ser nietzschiano. Ele deixa a questão: vamos amar o mundo mesmo nos momentos mais atrozes? Suportar os torturadores? O amor fati parece às vezes não só impossível como obsceno, além de correr o risco de se tornar um novo ideal. “De que adianta pretender acabar com o idealismo, com todos os ideais e todos os ídolos, se esse grandioso programa filosófico permanece ele próprio um ideal? De que adianta zombar de todas as figuras da transcendência e apelar para a sabedoria que ama o real tal como ele é se esse amor permanece, por sua vez, perfeitamente transcendente, se ele permanece um objetivo radicalmente inacessível sempre que as circunstâncias são difíceis de serem vividas?

De qualquer modo, Ferry admite que Nietzsche foi bombasticamente importante porque abre caminho: para o materialismo, para os pensamentos da imanência radical do ser no mundo, para um anti-humanismo e a continuidade à critica a religião, a tradição e aos costumes, para o reforço ao desaparecimento de uma noção de sentido e para a afirmação da noção de vida boa pela intensidade.

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Acho que me restam algumas linhas pra opinar. Antes de tudo, esse capítulo, mais do que me fazer relacionar o assunto ao todo da obra do Ferry, me prendeu na especificidade da abordagem feito aos pensamentos de Nietzsche, os quais tenho apreço. Mesmo eu já tendo lido alguns textos originais, e mesmo que Ferry só tenha pretendido trazer alguma lenha à fogueira, creio eu que visualizei o radical pensador por outro ângulo! Sim, ele é denso e isso ficou mais do que evidente, que não dá pra conhecê-lo em pouco tempo, é preciso ‘ruminar’ suas idéias! Concordo com muitas coisas ditas, que depois dele não dá pra ser indiferente a análise empreendida por ele, e outras questões que já me parecem clichê mas que muita gente ainda não considera, como a afirmativa de sempre existirem substituições de verdades/mentiras por outras verdades/mentiras, e principalmente a versão de que pode não haver sentido algum. Eu teria muitos trechos a comentar de porque concordo com Nietzsche, mas em suma, vale dizer que à idéia que mais me apego é a da valorização das possibilidades da vida em si, bem no sentido nietzscheano mesmo, e a da imanência. e morte desses idealismos baratos! O mundo já está cheio de tanta fuga, pra que mais aléms? A vida vale pelo que ela é: viva!

Se eu acredito totalmente no amor fati como o próprio Ferry acusa sua impossibilidade? Não sei, na verdade não faço questão da necessidade de viver o conteúdo pra me sentir pertencente à estas doutrinas... Prezo apenas para que as discussões existam em prol de alguma lucidez! Isso já é vitória e já é meio caminho andado, afinal, no futuro com certeza estas teorias e a-teorias também serão revistas, analisadas, abandonadas e superadas ou substituídas!!! 

Mas que eu tenho minhas dúvidas, eu tenho: Se é o Ferry que primeiro diz que Nietzsche  se diferencia por não propor novas salvações mas depois interpreta que se admitíssemos e vivêssemos ao pé da letra todas a gama complexa de sugestões nietzschianas chegaríamos a uma vida meio que salva (e depois se contradiz  de novo afirmando que o amor fati não é possível) ou o quanto estas hipóteses são mesmo do Nietzsche...  Talvez o Nietzsche deixa no ar, justamente como todo gênio, essa questão de onde o humano pode (ou deva, eis o mistério) chegar! Que mania nossa de chegar ao fundo das respostas, como se solucionadora de todos nossos problemas, não é mesmo?  Prefiro entender como inquietações engendradoras, mas não limitantes!

3 Comentários:

Carlos Pereira jr (merlimkerunnus) disse...

BOA POSTAGEM SOBRE OS DESLOCAMENTOS DO HUMANISMOS E DA METAFISICA DO CONCEITO DE HUMANIDADE...

adv disse...

olá Sil, eu adoro esses dois 'conceitos' do Nit e então deixo aki algumas inquietações ;)

vejo o amor fati e o eterno retorno como dois "pensamentos-carne" (pois há muitos estados emocionais por trás qdo Nit os desenvolveu) que veio como um relâmpago para clarear o céu existencial do Nit, que serviu para ele potencializar ou se estranhar em relação a estados corporais intensos misturados com tais pensamentos; pensamentos-criação, aparência sem exigir transcendência. Acho que são pensamentos bem singulares e que serviram àquela existência, pode ser que sirva para nós também, mas acho difícil captar o pensamento do eterno retorno só pelas vias das ideias, tem se alguma compreensão quando estamos naqueles estados de "êxtase" que nos perdemos de nossas diferenciações sujeito-objeto, enfim, estados bem particulares. Muitas maneiras de ler Nit podem surgir e alterar a leitura quando tomamos algum contato com as cartas que ele trocava, onde descrevia seus estados corporais associados aos pensamentos. Eu diria que foi por desespero que Nit criou o amor fati para "potencializar" sua vida, ora, só vivia em estados de desespero, o que fazer com isso? Fazer disso material necessário, também, para ascender novos céus. São "mentiras" que se usa para potencializar uma vida: a gente sabe que uma paixão não dura para sempre, mas e daí, essa "mentira" não nos transforma de maneira tão positiva se correspondida?
Viajando um pouquinho mais, se a gente compreende que corpo-pensamento se misturam e se afetam intensamente, gosto até de pensar que Nit se quebrou no seu próprio pensamento de eterno retorno; para que horizontes os turbilhões que se passavam debaixo da pele o levaram? aos delírios, alucinações, loucura... ??? Talvez ele não tenha suportado ter que desejar, pelo amor fati, viver tudo novamente seus estados "desgraçados" com a irmã, a mãe, suas doenças, os vários desafetos... enfim, só gosto de pensar isso pois sou aficcionado pelo corpo, os estados corporais, os fluxos de forças que nos atravessam e nos inundam com pensamentos que podem (des)organizar radicais perspectivas e visões de vida/mundo. Deixo-lhe um trechinho que acho que traz muitas outras perspectivas para pensar o amor fati:

Há apenas um mundo e ele é falso, cruel, contraditório, sedutor, sem sentido. (...) Um mundo assim é o verdadeiro mundo (...). Precisamos da mentira para triunfarmos sobre essa realidade, essa “verdade”, i.e., para viver. (...) Que a mentira seja necessária para se viver é parte desse caráter terrível e questionável da existência. - NIETZSCHE. Nachgelassene Fragmente 1887-1889, KSA 13, 11 [415 #93;, p. 193]

Afinal, é gostoso misturar o amor fati com o odium fati, e vice-versa :D
um abraço

SD disse...

Adv! Que bom que apareceu aqui!

A questão corporal em Nit eu ainda preciso apreender muito, rs!
E o trechinho da mentira que adicidou, bem por ai mesmo!! Faz parte da existência humana, e até como costumo sempre dizer, refrisando Renato Russo, Edgar Morin e outros pensadores: a humanidade é desumana! E nunca tinha ouvido 'odium-fati', rs...
=D