domingo, 5 de dezembro de 2010

A filosofia moderna fundada no humanismo: um pouco de Descartes, Rousseau, e Kant

Com o capitulo 04 do livro Aprender a Viver, Luc Ferry apresenta o surgimento da filosofia moderna com alguns princípios revolucionários, os quais fizeram desmoronar a cosmologia e a reavaliar a doutrina cristã. Em suma, ele traz à tona o humanismo e o legado intelectual de quatro grandes nomes: Descartes, Rousseau, Sartre e Kant. E já anuncia Nietzsche.


A partir da época das Luzes, que convida ao espírito crítico e a levar em consideração a hipótese de que o mundo não é fechado, hierarquizado e ordenado, ao contrário, o universo é indefinido, uma nova concepção das relações entre os homens passa a surgir.

Descartes é o primeiro que colabora apontando inicialmente os olhos para a subjetividade. Muito mais do que ter aberto as bases para o método científico, é ele que começa a evidenciar a verdade como aquilo que o sujeito está absolutamente seguro, sublinhando o sujeito como o critério subjetivo que estabelece a certeza. Segundo Descartes, todas as crenças devem ser postas em dúvida e examinadas como toda a liberdade por um sujeito (cogito) que se posiciona sobre o que é verdadeiro ou não. Então o homem torna-se o fundamento de todos os pensamentos e projetos. Não convém acreditar, dar crédito, senão àquilo de que podemos estar absolutamente certos por nós mesmos. Não é mais, portanto, a confiança, a fé que permite alcançar, como vimos no cristianismo, a verdade última, mas a consciência de si. Descartes abre as alas para o espírito crítico, a liberdade de pensamento e com isso funda a filosofia moderna.

A filosofia moderna surge então como a filosofia do sujeito, um humanismo, e até mesmo um antropocentrismo pois é uma visão do mundo que coloca o homem – e não o cosmos ou a divindade – no centro de tudo.

Com as portas abertas para a análise do homem, é Rousseau quem despontou com uma nova definição do humano, através do exame da diferença entre o homem e o animal.


Para ele, não são a razão, a afetividade nem mesmo a linguagem que distinguem, em última instância, os seres humanos dos animais. O critério de diferenciação para Rousseau reside na liberdade. O animal não é capaz de se libertar de seus instintos infalíveis, de seu programa natural. Já o homem é livre e pode se ‘aperfeiçoar’ ao longo da vida, tendo uma história cuja evolução é indefinida. Todos os animais são e serão, em vida e em espécie, o que eram desde os primeiros mil anos. O animal está limitado a uma natureza quase eterna. Por sua vez, no homem domina certa indeterminação. A natureza está presente, mas o homem pode afastar-se das regras naturais, cometer excessos e transgredir a própria ‘vontade’ natural. Há exemplos. Um deles é a diferença de que se um animal matar outro, só o fará por sua tendência para caçar e o homem pode ir além, matar não só por instinto como também o pode por sua livre vontade, por maldade, porque escolheu conscientemente esta ação. Os animais podem devorar cruelmente suas presas mas não é o mal enquanto mal que visarão. Não existe nada no mundo animal que se pareça com a tortura, algo que só os humanos conseguem, no sentido de alcançar um prazer em transgredir um outro da mesma espécie sem outro fim senão pelo seu bel prazer. Com a liberdade podemos atingir o pior mas também o melhor: o mal absoluto mas também a mais espantosa generosidade.
  

No cerne desse panorama ideário, outros esclarecimentos somam-se. Os homens são percebidos também como os únicos seres portadores de dupla historicidade. Eles possuem uma história pessoal, individual – uma história de aprendizados através da Educação – e pertencem a uma história da espécie, das sociedades humanas – uma história desenvolvida através da Cultura e da Política. É mais um reforço para a afirmativa de que o humano evolui indefinidamente, educa-se e transforma-se, entrando numa história da qual ninguém pode dizer quando e onde acabará. Os homens e as sociedades humanas não param de mudar. Tanto se voltássemos a 10 mil anos atrás ou avançássemos 10 mil anos a frente, ficaríamos surpresos.

Outro grande gênio contribuinte foi Sartre. Este pensador disse que a ‘existência precede a essência’, ou seja, que nenhuma essência pré-determina o homem. Se o humano é livre, então não existe natureza humana, essência do homem, definição de humanidade pré-dada. O homem está ‘em situação’. Não nasce naturalmente homem, torna-se.

Na seqüência, os filósofos modernos concluíram: “É porque é livre, porque não é prisioneiro de nenhum código natural ou histórico determinante, que o ser humano é um ser moral”.

Ora, eis a herança de Rousseau: a definição de que o homem é um ser desnaturado, uma animal anti-natural, que não se identifica na Natureza, pois a extrapola, é o seu excesso. Já o animal e a natureza são um só; o animal é um ser da natureza totalmente confundido com ela. Os homens são os únicos que se colocam fora da natureza, do mundo, para interrogá-la, julgar o universo, transformá-lo e inventar idéias, como a distinção entre o bem e o mal. É a nova antropologia, do homem ético, que traz espaço para a moral nascida com Immanuel Kant.

É a vez de Kant. Primeiramente, com a “Critica da Razão Pura” (1781), ele vem revelar que se a ordem cósmica desmorona, não há mais nada a ser visto e contemplado como divino no universo. Conceitos como ordem, harmonia, beleza e bondade não se inscrevem a priori no real. É o homem que introduz a ordem nesse universo para que ele tenha sentido. O universo não é um espetáculo passivo, é uma atividade do espírito.

Ademais, no debate sobre a liberdade, Kant anuncia que a ação verdadeiramente humana é a ação desinteressada, aquela que o humano faz sem a expectativa de obter uma vantagem qualquer, em que coloca de lado seu ‘querido eu’. A ação desinteressada é a virtude, a ‘boa vontade’ como ele chama, que, juntamente com a liberdade e a preocupação com o interesse comum são um combate contra a naturalidade humana. Para Kant, não somos naturalmente bons, orientados para o bem, pois se assim fossemos não haveria necessidade de fazermos um grande esforço para preferimos os outros à nós mesmos.

Com tudo isso, nasce a segunda natureza artificial, o novo ‘mundo da vontade’, o reino dos fins, com o homem por excelência digno de respeito. Ocorre a inversão da noção de virtude. A virtude não é mais um sucesso de uma disposição natural de um ser; é, ao contrário, como uma luta da liberdade contra a naturalidade em nós:

“Nossa natureza é naturalmente inclinada ao egoísmo, e se quero dar espaço para os outros, se quero limitar minha liberdade às condições de sua integração com a de outrem, então é preciso que eu faça um esforço, é preciso mesmo que eu me violente. E é somente com essa condição que uma nova ordem de coexistência pacifica dos seres humanos é possível. Aí está a virtude, e não mais, de modo algum, na realização de uma natureza bem dotada. É por ela, e apenas por ela, que um novo cosmos, uma nova ordem no mundo, fundada no homem e não mais no Cosmos ou num Deus, se torna possível” (Luc Ferry, p.123-124).

Consequentemente, se situa-se a virtude não mais na natureza, mas na liberdade, então todos os seres se equivalem e a democracia se impõe. Surge o individualismo, que não designa o egoísmo, mas quase o oposto, pois reflete o nascimento de um mundo moral no seio da qual indivíduos, pessoas, são valorizados na medida de suas capacidades de se desprenderem da lógica do egoísmo natural para construírem o universo ético artificial.

Para finalizar, e acredito que é a melhor parte do capítulo, o autor acrescenta que as regras morais constituem a condição necessária da vida comum pacificada mas não são a condição suficiente para viver bem. Os princípios éticos não determinam em absoluto as questões existenciais. Ou seja, o problema da finitude e da salvação continua existindo. A mais sublime moral não nos impede de envelhecer, de adoecer, de viver separações dolorosas, de nos entediar eventualmente, de ser traído ou abandonado, de saber que vamos morrer e ver outros morrerem, enfim, de enfrentar as diversas finitudes da vida humana.

Já está havendo a derrocada de alguns tipos de salvações, mas que estão sendo substituídas por outras. São as religiões de salvação terrestre, quer dizer, ideologias capazes de dar um sentido à vida. Como o cientificismo, o patriotismo e o comunismo, que foram e são ainda alguns destes sacrifícios que fazem a pena viver em benefício de uma causa superior: a revolução, a pátria, a ciência. Estes são como os ídolos de Nietzsche, que preservam uma certeza de se salvar.

Mas será necessário mesmo ter uma causa externa á vida para ter acesso a uma dimensão de existência humana que a justifique e dê-nos sentido, significação e direção? Thã-ram! É a pergunta que Ferry vai responder nos outros de seus dois capítulos...


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‘Caramba’, eu fiquei mais uma vez pensando uma ‘porrada’ de coisas. Desculpem-me os termos chulos... só que fiquei estupenda com a facilidade de Ferry conectar os assuntos da modernidade pelo ângulo das superações à premissas anteriores no que tange à questão de seu livro, da salvação humana. Muitas vezes passamos batido sobre os grandes nomes da literatura e claro que Ferry não quis reduzir o humanismo e as próprias contribuições dos filósofos modernos às que ele evidenciou.  Mas que ele esclareceu pra mim um monte de informações, o fez e com maestria! (Parece até que estou pagando pau pro cara né, eu sei, estou ficando chata com essa adulação...).

Enfim, só pra reforçar, acho de suma importância estar atento hoje às diferenças entre os humanos e os animais. Na graduação esse assunto é visto na Psicologia, mas não lembrava do nome do Rousseau envolvido com isso...  Agora não vou mais esquecer! E juntando a questão da liberdade, acho que depois deste capítulo o que muda em mim é a consideração do homem como um ser moral. Digamos que eu já estava prestes a fazer essa constatação, mas o livro me concatenou por completo! E como Ferry diz, não que isso seja suficiente para vivermos bem... mas provavelmente é a base para a minha nova visão de mundo! Rumando para uma visão humanista... Vamos lá!

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