domingo, 26 de junho de 2011

Capítulo I de Contraponto - Aldous Huxley



"Mas então não compreendes" era o que ele tinha vontade de dizer, o que realmente diria se não lhe faltasse coragem, "não compreendes que as coisas não são nem podem ser mais como eram? E mesmo, para falar a verdade, elas nunca chegaram a ser o que acreditavas que fossem - refiro-me ao nosso amor -, nunca foram o que eu procurei fingir que fossem. Sejamos amigos, sejamos companheiros. Gosto de ti, tenho-te muito afeto. Mas, pelo amor de Deus, não me envolvas em amor como fazes agora; não me queiras impingir o amor à força. Se soubesses que coisa terrível é o amor para quem não quer amar, que violação, que ultraje...

Mas ela estava chorando. Por entre as suas pálpebras cerradas as lágrimas brotavam, gota a gota. Tremia-lhe o rosto no esgar da angústia. E o verdugo era ele. Walter se odiou. "Mas por que hei de me deixar levar pela chantagem dessas lágrimas?", perguntava ele; e, perguntando, odiava-a também. Uma lágrima rolou ao longo do comprido nariz de Marjorie.

"Ela não tem o direito de fazer isso, não tem o direito de ser tão pouco razoável. E porque não pode ser razoável?"
"Porque me ama."
"Mas eu não quero o amor dela, não quero."

.... E ficou sensibilizado – pelo menos até o momento em que começou o aborrecimento e a exasperação - pela devoção daquela criatura; sentia-se lisonjeado pela admiração que lhe inspirava.

.... Confusa e simultaneamente, Walter odiava Marjorie por causa de sua frieza paciente de mártir e acusava-se de sensualidade bestial. Seu amor por Lucy era uma coisa louca e vergonhosa, mas Marjorie não tinha sangue, era um ser semimorto.

... E agora, os dois anos de convívio com Marjorie tinham-no enchido de repugnância pela virtude fria. Walter lhe tinha um horror consciente, se bem que ao mesmo tempo sentisse vergonha desse horror, vergonha daquilo que ele chamava os seus desejos bestiais, vergonha de seu amor por Lucy. Mas se ao menos Marjorie o deixasse em paz! Se ao menos se abstivesse de reclamar a volta ao amor indesejável que ela insistia em lhe impor à força! Se ao menos cessasse de ser tão terrivelmente dedicada! Ele lhe podia dar amizade - porque gostava dela sinceramente; tinha tão bom coração, era tão boa, tão leal e devotada... Walter seria feliz por ter em troca a amizade da companheira. Mas amor... - isso era sufocante.” 


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