quarta-feira, 7 de setembro de 2011

“Da nova casta hipócrita do mundo” / Da ética que brota do pântano / e da atenção aos estereótipos


Louvor e Crítica ao livro Contra Um Mundo Melhor – Ensaios do Afeto, de Luiz Felipe Pondé


Quando sai da livraria com o livro do Pondé na sacola, pensei: o quanto será que esse autor vai me influenciar? Pois a princípio, eu estava gostando de quase tudo que ele tem escrito em sua coluna na Folha de São Paulo. Surpreendi-me quando cheguei até a página 39 e percebi que ele é muito extremista e eu facilmente discordo da opinião dele pra ‘alguns’ de seus temas. Por outro lado, caminhando nas leituras até a página 143, voltei a sorrir ironicamente. E encerrando as 216 páginas, eu concluí que o livro que eu esperava dar nota 10 é nota 07. Melhor assim, quando você consegue não concordar com tudo e analisar que o cara não é tão capaz de ser seu mestre. Risos.

Logicamente, vamos pontuar aquilo que eu assino em baixo e o que repudio. Não haveria como opinar sobre todos os 32 ensaios, seja por falta de tempo, seja por não querer creditar mérito a isso. Acho válido mencionar as categorias que mais me aproximo e aquelas a que mais se destoam da minha visão. E deixar o restante como provocação: vá lá e leia o livro também, para podermos discutir.

Primeiramente, me aproximo de Pondé e bato palmas quando ele expõe idéias que costumo repetir por aí, mas que muita gente não consegue verdadeiramente cogitar, como a vida não ter sentido e qualquer coisa pode produzir esse sentido (o pecado, a miséria, a guerra, etc.) e a vida ser um nada que despenca do abismo; de que não a controlamos e de que não há garantias nenhuma pós-morte. Ele também apresenta o progresso como existente sim, mas não como aquilo que guia o mundo. 



Ponde é sensacional em tirar as máscaras e desnudar o humano. Um dos poucos que consegue criticar a busca (fetiche) desmedida pela perfeição e felicidade, e outras afirmativas banais ou segundo ele, “tudo aquilo que os idiotas contemporâneos cultuam em seu grande cotidiano”.  Não precisava ter chamado a gente de idiota, mas no fundo, esse termo e algumas de suas outras formas de nomear os intitulados pós-modernos é propositalmente sua maneira de chocar nossos hábitos instituídos. Caso contrário, também ele estaria enquadrado na sua própria critica ao ‘politicamente correto’, uma delas a de sermos a todo tempo polido e manso com os demais, ou manter outras besteiras que se enquadram no ‘puro marketing de comportamento’. Ou seja, ele consegue ser genial ao detonar os falsamente bem resolvidos, os pseudo e pretensamente inteligentes que “vendem a imagem de que resolveram os dramas básicos que tornam as pessoas risíveis”.

Assim Pondé desmonta o movimento de rebanho, fala da mediocridade, e expõe o que pensa da condição humana: o homem é um ser trágico, e ter consciência do fracasso não significa ser um pessimista (ou só isso), mas assumir que todos nós sentimos o peso do vazio do mundo e enchemos nossa vida de fantasias, temos sim ódio, ciúme, inveja; somos inseguros, covardes e temos medo; a sociedade vem nos esmagando ao nos fazer engolir valores sem escolhas... Queremos ser tão melhores mas nem sequer aceitamos a nós mesmos, com nossas falhas, e nossas crenças em tantas bobagens. Claro que o ceticismo pode nos arruinar porque não é humano saber que a vida é sustentada numa ilusão contínua. Mas ceder ao oposto, às utopias, é entrar numa prisão maior ainda. A aposta moderna no caráter humanista já era. O ser humano padece da obsessão, das manias pelas mentiras elegantes. E que sempre existiram, só que hoje estão bem maquiadas.
No fundo, não há retorno e salvação para nós... Para Ponde, nossa natureza humana é o tormento, somos seres agoniados, escravos de nossos vícios. Ele é contra a todas essas mentiras chiques que circulam por aí: afirmar (fingir) que amamos completamente nossos pais; fazer as crianças escolherem jogos de computador não violentos e sim aqueles que discutem a caça às baleias no Japão; ser sustentável e reciclar o lixo como forma de se indignar com toda forma de injustiça social; sentir-se menos preconceituoso ao achar que consegue desprezar todas as formas de intolerância com os mais pobres, menos capazes; assumir-se participante de uma religião ocidental inteligente, que te faz sentir menos egoísta ou narcisista; proibir o tabaco e o álcool ou evitar outros alimentos considerados perigosos em prol do discurso de saúde total, etc.


Todos esses modismos e outros ‘ismos’ “valem para fazer você parecer raro, especial, diferenciado, quando na realidade, todos vivem cercados pelo mesmo halo de mesmice que todo mundo tem ao seu redor”. Mas quem descobriu o modo saudável de amar? Todos são miseráveis de amor, tem insônia, lêem pouco, assistem novela escondido, afundam-se em contas todo mês, e julgam-se herdeiros da fúria jovem, mas não passam “da nova casta hipócrita do mundo”.

É por isso que Pondé tem sono em jantares inteligentes. É isso que ele quer dizer com ser ‘contra um mundo melhor’. Existe uma cegueira, uma grande farsa. Atenção, ele não está desacreditando na capacidade humana de organizar a vida, “mas essa capacidade por si só não diminui o inferno em que vivemos”. Ele até mesmo admite que hábitos religiosos são válidos em alguma medida. E no final revela que passou da condição de ateu para não ateu, sinalizando que apesar de tudo, é possível contemplar a beleza da misericórdia, que “é a força da graça que transforma o nada em matéria e espírito”. 

Confesso que ultimamente ando muito perturbada com essas questões da moral.. do quanto você se assume ético por escolha ou por ser condicionado a isso através de um discurso que te faz acreditar que é melhor se preocupar com o futuro do planeta sendo que pra isso sua própria vida está limitada pra que isso aconteça. “Não dá pra desfrutar de tudo, porque serei culpado por não ser altruísta”. 



Prefiro compactuar do que Pondé traz como alternativa: é essa infelicidade, esse fracasso, nossa dignidade, aquilo que torna o homem confiável.   Não se trata de parar de acreditar que vai melhorar. Trata-se de parar de mentir um pouco pra si mesmo. Trata-se de sermos mais autênticos, contestadores, desconfiados. Hoje os idiotas têm diplomas. São os pretensamente mas falsamente belos de caráter. Mas nem eles nem nós sairemos do pântano, da agonia. Não mudamos um milímetro desde a experiência nazista. Não sejam hipócritas! Os babelianos, com a ganância de chegar ao paraíso, invadem a torre e a desabam, fazendo todos morrerem soterrados, quando poderiam ter sido felizes no chão!  Desde que Freud disse, sabemos que continuaremos com o mal-estar na civilização... Seremos feras banais, sobreviventes à deriva, e órfãos, num universo em que ninguém cuida de nós a não ser nós mesmos. “O fato de a vida ser vã não invalida essa máxima infame. É justamente porque a vida é vã que a infâmia dessa máxima é verdadeira”. Sabemos que não iremos para de dizermos mentiras construtivas para tornar a vida mais leve. Contudo, “Os minutos de beleza são fruto da coragem de resistir ao mundo que é mais afeito às baratas do que aos humanos. Uma beleza restrita aos desgraçados. Encanta-se uma ética que brote dessa desgraça”.

 
Pra finalizar, faço questão de apontar o cheiro que exala da própria ferida.  Princípio número 11: Não preciso tomar as coisas como estereótipos para agir. É o cuidado que as pessoas têm que ter ao ler esse livro do Pondé. Vejo algumas expressões do autor, principalmente no tópico 03 “medos masculinos e mulheres obsoletas”, como extremistas e generalistas. Acho que ele opõe demais o homem e a mulher, pintando figuras de que os homens estão de saco cheio das mulheres emancipadas, e estas não suportam os homens fracos, ou não estão preparadas para o que os homens esperam delas (ser uma mulher-objeto, o que lá no seu intimo é o jeito que ela quer ser tratada).  Não deixam de existir meias verdades nisso tudo, porém uma mulher não quer ser desrespeitada não, Pondé. Ou eu e algumas mulheres não fazemos parte dessa massa pela qual se parece agir em função.  Acho que esse tato em não julgar o gênero pelas partes e tratar as coisas ‘caso a caso’ seja coisa de psicólogo, e Pondé é psicanalista, mas veio da Medicina.

Enfim, pra ilustrar o que quero dizer, finalizo com uma citação do que é estereótipo:
“Um estereótipo é uma visão supersimplificada e usualmente carregada de valores sobre as atitudes, comportamentos e expectativas de um grupo ou de um individuo. Tais visões, que podem ser profundamente baseadas em culturas sexistas, racistas ou preconceituosas, são altamente resistentes a mudanças e tem um papel significativo na modelagem das atitudes dos membros da cultura para com os outros. Dentre os estudos culturais, o papel do estereótipo é possivelmente mais marcante nos produtos da mídia de massa, embora também sejam significativos na educação, no trabalho e nos esportes”.

(obs: AS IMAGENS DE ILUSTRAÇÃO SÃO DO ARTISTA MC. ESCHER)