Eis minha oração...
“ Nenhuma dádiva da fortuna nos pertence de fato
Nada, seja público ou privado, é estável.
O destino dos homens assim como os das cidades estão sujeitos a um turbilhão.
Um hora, um átimo, é o bastante para promover a queda dos impérios
Vivemos em meio a coisas que estão, sem qualquer exceção, destinadas a morrer.
Mortal você nasceu, mortais você dá a luz.
Não se surpreenda com nada, espere tudo”. Amém.
“O que é o homem? Um receptáctulo delicado que a mínima sacudidela, a mais leve queda pode quebrá-lo. Um corpo débil e frágil, nu, em seu estado natural indefeso, dependente de ajuda alheia e exposto a todas as afrontas da ‘Fortuna’”.
Qual é o tênue limite que separa aquilo que devemos nos preocupar daquilo que são mesquinharias com as quais tanto nos importunamos? O que te aflige e te causa sofrimento é passível de ser modificado ou é imutável? E se for imutável, como conviver com o sentimento de que isto nos causa?
O otimismo, o desejo de harmonia, a pulsão por continuidade, a idéia humana de que somos sempre capazes de alterar nossos destinos nos convida a crer que amanhã será praticamente igual a hoje... ou que nada do que acontecerá nos será realmente surpreendente, para quem ousou prever suas alternativas de futuro. Por que então ainda nos abatemos, esbravejamos, e ficamos tão propensos a manifestações incontroláveis da emoção? Porque há um choque constante entre nossos desejos e a realidade. Ira, fúria, irritação florescem quando algo não ocorreu conforme imaginávamos. Frustrados, vosciferamos alto porque alguma coisa (seja mínima ou estrondosa) escapou do nosso domínio da realidade, nos dizendo que nada será com antes... E agora?
Não estou falando novidades, qualquer um já pode ter se percebido nesse embate. Nada de novo no fronte. Alain de Botton, em seu capítulo ‘consolações para a frustração’, no livro ‘As consolações da Filosofia’ nos ajuda a pensar de volta sobre isso. Segundo um amigo meu, trata-se de conselhos de auto-ajuda que funcionam apenas por um determinado tempo. Eu prefiro considerar que se tratam apenas de afirmações de certa maneira verídicas as quais sempre esquecemos e que nos movimentam em prol de algo melhor que o senso comum. E se já for senso comum, nos reforça a não padecer por falta de razão. Um mínimo de alivio para o sofrimento, mesmo que ilusório por ser temporário, é melhor do que querer morrer agonizando!
O texto traz alternativas de pensamentos para justamente equilibrar a tensão do fato angustiante, como estes: “É um engano acreditar que em alguma parte do mundo estaremos livre do perigo. Quem pode garantir que algum solo é mais seguro que outro?” “Podem nos acorrentar a uma prisão. Mas desde quando estivemos livres de grilhões?”
Vai além, expondo que se o que se teme é a pobreza, deveríamos experimentar viver em três dias de miséria e nos perguntar em seguida: ‘esta é a realmente a situação que eu temia tanto?’. Claro que pode ser desolador, mas com certeza a experiência da situação será diferente da convicção aterrorizadora que possuíamos a respeito. O que o autor tenta elucidar não é o trágico do fato em si, mas como se portamos emocionalmente de frente a estes fatos perturbadores. Muitas vezes o que nos dilacera mais é os nossos próprios medos vãos. Podemos nos salvar da loucura pela maneira de como pensamos as coisas.
Adiante diz que o sábio não ficará feliz em perder um olho, mas saberá que é possível viver se isso acontecer. “Não significa contentar-se, porque ele não desejou tal fato”. Ele reconhece que o que lhe diferencia em abandonar uma casa ou não ter qualquer coisa que possuía antes era poder deixar isto sem ódio ou desespero. Tem certas coisas que nos serão arrancadas pelo mesmo motivo de nos foram concedidas ou até mesmo se as tivermos conquistado: porque a Deusa ‘Fortuna’ é cega... Ou seja, a tragédia pode atingir a você bem como a qualquer outro. Acaso. Simplesmente porque é passível que aconteça.
Mas como lembrar disso num momento de choque e não manifestar um mínimo de frustração? No fundo acho até saudável, até certo ponto, exprimir as emoções dessas agruras e dissabores... e é óbvio que depende do tamanho dessa decepção... Mas nada a ver ficar remoendo lamúrias sadicamente num circulo vicioso. É necessário (e talvez melhor) ‘aprender a seguir o andar da carruagem’. Quando um cão atrelado a uma carroça decide não se mexer, ele pode exaurir suas forças e protestar o quanto for, contudo, será obrigado a seguir do mesmo jeito se não quiser se machucar ou ser esmagado. O mesmo acontece com os homens. Podemos escolher em aceitar o que o destino nos reserva escolhendo a atitude que temos em relação a isso. O que não pode ser modificado, precisa ser suportado. O quanto e como suportar pode sim ser atenuado, compreendendo de que ‘nada adianta lamentar as ciladas da vida, toda ela é feita de aflições’. O sofrimento sempre existirá... mas pode ser atenuado. Estou tapando o sol com a peneira porque não é assim que acontece e os problemas, minimos que sejam, tomam conta de nós? Pode ser, mas é preferível ousar fazer algo (mesmo que seja só pensar em como lidar com isso) do que ser apenas expectador!
Conseguir não sentir tanta revolta ou amargura e se submeter de bom grado ao que nos faz sentir impotentes é um desafio. Muitas das realizações humanas foram alcançadas porque as pessoas não se resignaram à suas frustrações e mesmo quando não existiam esperanças, foram alterar a realidade. A questão que nos põe na dança é: “É necessário que seja assim?” Podemos responder que muitas vezes nada é necessário, mas é o que aconteceu. Tem coisas que acontecem. Culpa não da nossa falta de responsabilidade e sim obra do Acaso. Ponto.
Continuo sendo muito séria né? Sorria!!!!!!!!! E viva a vida de modo mais leve, é simplesmente o que quero dizer!!!
