“Não se constrói alguma coisa sem desconstruir outra; não se produz paradigmas inéditos, mas paradigmas existentes são criticados, repensados, bricolados e se complementam no deciframento lógico sobre o real; não se produz uma sinfonia antropológica melódica ou harmônica, mas ruídos e barulhos entre velhas formulações de problemas e alternativas ditas pós-modernas” (Cornélia Ecker)
Reaproximei-me
da Antropologia pela vontade de reler e debater algumas idéias de psicologia,
refrescando os conhecimentos. Eis que ela reaparece brilhante, mas ainda assim,
não me seduz.
O texto lido
de Cornélia Eckert, “A antropologia na Atualidade” já me foi suficiente para
recordar-me do quanto eu, já naquela época em que era estudante do primeiro ano
da faculdade, em 2004, apreciava qualquer forma de abordagem sobre o ser
humano, mas ficava com um pé atrás quando se tratava de ‘encaixá-lo’ num
formato ora explicativo ou ora interpretativo.
Há de se
concordar que a Antropologia é um prato cheio, deveras rico e essencial para
destrinchar e repensar conceitos como ‘cultura’, e afirmações sobre construção
do sujeito e das subjetividades, imaginário e consciência de grupos étnicos,
diversidade, etc. Creio que a teoria da complexidade compartilha de algumas
idéias que se sobressaíram no texto de Eckert e que faz com que a Psicologia (a
qual concebo) só tenha a ganhar com estas conjecturas.
A primeira
asseveração válida para mim é a consideração de que a visão do homem universal
carece sempre de auto-crítica. Não queremos mais uma teoria estruturalista
definida da unidade psíquica da humanidade. Aí vem, em segundo lugar, a
importância dada à visão histórica pela Antropologia mais moderna e menos
tradicional. Para não prender-se
justamente a uma visão estruturalista Levi-straussiana, pela qual o rigorismo
pode levar a omitir o particularismo e as multidimensionalidades, é Clifford
Geertz quem colabora, acentuando a necessidade de se olhar para qualquer
cenário como momentâneo e contextual, tratando-se de interpretar a cultura, e
não decodificá-la, verificando e apreendendo os sentidos que são construídos.
Por isto é
dito que Geertz propõe uma antropologia hermenêutica, que não busca as
estruturas profundas e permanentes do pensamento humano, e sim busca
interpretar como nós pensamos atualmente. As etnografias feitas estão mais para
um diálogo, uma compreensão dos eventos do que uma explicação dos mesmos. Enfim,
mais semântico do que semiótico.
Portanto,
reconheço o avanço da Antropologia quando pondera que “não se trata mais de
falar de mentalidades, mas de pensamentos e de lógicas diversas, de visões de
mundo e de estilos de vida diferentes, de representações simbólicas e práticas
sociais múltiplas”. Hoje o que a Antropologia faz é descrever a diversidade do
mundo, a singularidade de cotidianos vividos, das práticas típicas ou
tradicionais e seus sentidos. Através do ‘relativismo cultural’, ouvem-se as
vozes e captam-se as perspectivas.
Muito bonito,
pois já rompemos com o reducionismo e abandonamos um empirismo ingênuo,
assumindo o caráter provisório e parcial de toda análise cultural – E é aqui
que mais vejo a relação com o pensamento complexo, pela possibilidade de se
manter diversas maneiras do fazer antropológico, não se radicalizando em um
método único ou teoria, conversando os temas a partir da transdisciplinaridade,
com a sociologia, a psicanálise, a história e a política, além de expor um
pouco da dinâmica da vida humana vinculada às estruturas de poder.
Reforço, é muito bonito, contudo, todavia e
entretanto, retomando a questão que fica transbordando, até que ponto pode-se
ouvir e interpretar algo ou alguém sem influenciar com suas próprias e
internalizadas pré-categorias de pensamento aquilo que se pensa a respeito
desse outrem?
Dizem que
Hermenêutica e Empirismo se confundem na Antropologia. Se enquanto Lévi-Strauss
ganha o mérito por propor observar os outros pela tentativa de por a lente dos
outros e descarregarmos de nosso etnocentrismo, por sua vez, Geertz é criticado
por ser demasiado ‘artesanal’. Parece que um prioriza o caminho de despir a
análise dos fatos de qualquer interferência subjetiva, tornando a Antropologia
uma generalização oca, e o outro, ao contrário, afirmar que só é possível se
aproximar dessas especulações por um olhar particular, ficando tudo muito
abstrato, quase impossível de ser ‘generalizado’.
Ou seja, isso
respinga no velho debate de onde está o limite entre a coisa em si, o ‘ente’, e
o que podemos saber, conhecer, interpretar dessa ‘coisa’ em análise.
E porque tanta
dicotomia ??
Em resumo,
vejo que a Antropologia é um braço das ciências humanas muito favorável
atualmente pois traz à tona os paradigmas e as leituras possíveis do ‘social’.
Ela é enaltecida por ver além do circunstancial, e ampliando horizontes,
enxergar muitas vezes as forças que colocam as pessoas em relação. Hoje já se
reconhece que as etnografias continuam sendo inferências mas, (mesmo seguindo
uma metolodogia), são também um exercício reflexivo, melhor do que se não
existissem.
Acho que o
cuidado que se deve sempre levar consigo é não esquecer que ‘Em uma ciência que
o observado é da mesma natureza que seu objeto, o observador, é ele mesmo parte
de sua observação’. Em outras palavras, o pensamento do antropólogo não é
exterior a ele, são ‘eles falando deles mesmos’, sendo influenciado e
influenciando. Uma neutralidade, a maior que existir, poderá ter resquícios de
ilusão, auto-engano.
E por fim,
mesmo que todas essas ressalvas já aconteçam na Antropologia, tenho comigo que
esses estudos etnográficos, mesmo que de partes para se somarem ao todo, ainda
sofrem do desejo e fraude de se querer chegar a uma teoria macro ou universal.
Prefiro me esquivar de muitas histórias que se prendem a narrar detalhes da
diversidade mas que indiretamente podem estar armando uma armadilha para uma
teoria planetária. É por esse cheiro camuflado (talvez ate já dissipado mas a
meu ver ainda presente) de ‘essência’ do homem que a Antropologia não me seduz.


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