domingo, 20 de maio de 2012

Reportagem "No Labirinto de Mr. Nobody"


“Até onde será que vai essa história?”, pensei quando entrei em contato com as pri­meiras cenas de Mr. Nobody. As inquietações que eram despertadas a cada minuto constitu­íram o principal argumento do filme: que des­dobramentos a vida pode ter se fizermos esta ou aquela escolha? E se fosse possível voltar no tempo e decidir por outra coisa, que mudanças acarretaria?

Identifico a dúvida como o principal ele­mento do filme. Quem não se questiona se é ou não a melhor decisão a ser tomada esta que estamos optando no momento? No entanto, este questionamento, que é a linha que guia o enredo de Mr. Nobody, não é, nem de longe, o grande trunfo do filme.

A direção e roteiro de Jaco Van Dormael é algo realmente impressionante. A ideia inicial do enredo pode até não ser tão original – visto a quantidade de filmes que partem do mesmo ponto –, mas a maneira como o filme é conduzi­do, a narrativa cinematográfica escrita e dirigi­da por Van Dormael surpreende.

Nada é linear. Não tem começo, nem meio, nem fim. O Nemo de 118 anos que termi­na o filme está presente desde o começo, como se fosse uma peça necessária para compor a confusão que o filme traz. As histórias de Nemo são contadas: todas partem de uma decisão de um menino de 09 anos no momento da separa­ção dos pais; todas são desenvolvidas por um Nemo de 34 anos que aparentemente morre. Mas há sempre o velho Nemo, rindo da cara de confusos que a gente faz durante o filme.

A linha que separa o real e a imagina­ção é uma abordagem de diversos produtos cul­turais, entre eles vários filmes. Às vezes essa abordagem traz uma percepção simplista, com um enfoque batido, deixa de ser uma grande idéia para desenvolver um filme e torna-se mais do mesmo. O argumento no qual as persona­gens se deparam com ações e pensamentos que não passam de ilusões criadas por sua mente - seja por algum tipo de “loucura”, como em Mulholland Drive (David Linch, 2005) e em Shut­ter Island (Martin Scorsese, 2010), seja pela in­serção em algum tipo de tecnologia, como em eXistenZ (David Cronenberg, 1999) e Matrix (irmãos Wachowiski, 1999). No entanto, tanto estes filmes citados, quanto o filme de Jaco VanDormael possuem características instigantes, que não deixam que o enredo e o argumento caiam na discussão simplista entre o que é real e o que é imaginação/jogo/ficção. 




Mas a linha tênue entre o que é ou não realidade, o que foi ou não vivido por Mr. No­body é apenas um dos aspectos levantados pelo filme. O argumento é baseado fortemente na Teoria do Caos ou ”efeito borboleta”, que diz que um simples bater de asas de uma borbole­ta em algum lugar do planeta pode causar uma tempestade há quilômetros de distância – Teo­ria também presente no filme O Som do Trovão.  Por essa teoria, a escolha tomada aos 09 anos – apenas uma das inúmeras tomadas ao longo da vida de Nemo – tem desdobramen­tos dos mais inimagináveis.

É nos desdobramentos das escolhas de Nemo que são conhecidas outras personagens, como uma das suas possíveis esposas, Elise, uma mulher deprimida muito bem interpretada por Sarah Polley. Jared Leto também fez um bom trabalho interpretando o protagonista – mas nada comparável à sua atuação em Requiem for a dream (Darren Aronofsky, 2000). Os elementos visuais do filme são mui­to importantes: o trilho de trem é o principal deles, abrindo os caminhos possíveis da vida de Nemo. Além disso, a construção das cenas também merece aplausos: a inserção de efei­tos especiais, o filtro que transforma algumas cenas em sonhos... Tudo feito na medida. Este­ticamente falando, a parte visual do filme - a fotografia - é linda. Perceptível também é o cuidado com a simbologia, por exemplo, o trilho e a Estação de Trem chamada Chance (acaso); as cores que representam cada uma das esposas de Nemo (Anna-vermelho, Elise-azul) e remetem auto­maticamente à paixão de Nemo por Anna e a tristeza vivida ao lado de Elise (blue). A inquietação em frente à tela é cons­tante: o que virá a seguir? Isso é real? A ficção científica por trás do drama da vida de Nemo é um grande trunfo para o filme, mostra a ori­ginalidade do diretor e a genialidade em cons­truir uma narrativa no estilo de um labirinto. 

Mas também é preciso voltar para o ve­lho Nemo, de 118 anos, que vive numa socie­dade no ano de 2092. É possível para qualquer um imaginar como estaria o mundo daqui a 82 anos - essa visão futurista também é retrata­da em diversos filmes, sempre da mesma ma­neira, tecnologicamente falando. No entanto, a vida de Nemo transformada em um reallity show, com câmeras por todos os lados é, mais uma vez, um desdobramento da sociedade atu­al. A sociedade do consumo – de produtos e da vida alheia -, o assédio ao último ser humano mortal, a adoção de porcos como animais de estimação são representações, talvez um pouco exageradas, do que hoje é aceito como modo de vida em sociedade.

O velho Nemo é notícia. Seu médico, ao perguntar “Você não se lembra da primeira vez em que esteve aqui?” abre uma porta dentro do labirinto de acontecimentos que envolvem Nemo. O protagonista acorda em um quarto xa­drez, vestido com a mesma estampa, encontra outras pessoas vestidas da mesma forma; na rua, carros, casas e ruas desertas, compondo um cenário que parece ter sido construído por sua mente - ou imposto por uma possível ex­periência psiquiátrica? -, mas no qual Nemo se encontra completamente perdido.

Nas lembranças de Nemo durante o sono, enquanto conversa com um repórter que o entrevista às escondidas, ou durante a hipno­se, outro elemento é inserido constantemente: o tempo. Com inserções de um “apresentador” - Nemo jovem – a origem do tempo, como so­mos guiados por ele e a impossibilidade de não se poder voltar atrás nas escolhas são apresen­tados de forma didática, em uma tela 3D, como se fosse um parêntese à história que está sendo contada. A teoria do Big Bang (expansão do Uni­verso), Teoria do Caos, teoria das cordas, entro­pia e também teoria inversa do Big Bang, o Big Chunch, são inseridos na narrativa do filme.

São duas horas e 34 minutos de filme. Fica muito difícil, devido às quebras constantes na narrativa, perceber quando e como o filme termina. Apesar da dinamicidade das imagens, a inserção de elementos da ficção científica e de um “futuro possível”, a abertura de “parên­teses didáticos em 3D, a construção do drama da vida utilizando de passagens bem humora­das, fica a impressão de cansaço, de que o filme poderia ser tão bom quanto é, mas mais curto. 



Toda a reflexão sobre o tempo, sobre as teorias do Caos e do Big Crunch – contração do Universo/reversão dos acontecimentos – trans­forma a narrativa em um imenso de possibilida­des que talvez não passem de artifícios da ima­ginação de um menino de 09 anos. A frequente dúvida do “E se...” é a linha de desenvolvimen­to de um filme que vale cada minuto por sua originalidade e beleza.

REPORTAGEM DE MORGANI GUZZO – ÁGORA EM REVISTA –CRÍTICA DE CINEMA - ANO 6 – 5 EDIÇÃO

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