“Até onde será que vai essa
história?”, pensei quando entrei em contato com as primeiras cenas de Mr.
Nobody. As inquietações que eram despertadas a cada minuto constituíram o
principal argumento do filme: que desdobramentos a vida pode ter se fizermos
esta ou aquela escolha? E se fosse possível voltar no tempo e decidir por outra
coisa, que mudanças acarretaria?
Identifico a dúvida como o
principal elemento do filme. Quem não se questiona se é ou não a melhor
decisão a ser tomada esta que estamos optando no momento? No entanto, este
questionamento, que é a linha que guia o enredo de Mr. Nobody, não é, nem de
longe, o grande trunfo do filme.
A direção e roteiro de Jaco Van
Dormael é algo realmente impressionante. A ideia inicial do enredo pode até não
ser tão original – visto a quantidade de filmes que partem do mesmo ponto –,
mas a maneira como o filme é conduzido, a narrativa cinematográfica escrita e
dirigida por Van Dormael surpreende.
Nada é linear. Não tem começo, nem
meio, nem fim. O Nemo de 118 anos que termina o filme está presente desde o
começo, como se fosse uma peça necessária para compor a confusão que o filme
traz. As histórias de Nemo são contadas: todas partem de uma decisão de um
menino de 09 anos no momento da separação dos pais; todas são desenvolvidas
por um Nemo de 34 anos que aparentemente morre. Mas há sempre o velho Nemo,
rindo da cara de confusos que a gente faz durante o filme.
A linha que separa o real e a
imaginação é uma abordagem de diversos produtos culturais, entre eles vários
filmes. Às vezes essa abordagem traz uma percepção simplista, com um enfoque
batido, deixa de ser uma grande idéia para desenvolver um filme e torna-se mais
do mesmo. O argumento no qual as personagens se deparam com ações e
pensamentos que não passam de ilusões criadas por sua mente - seja por algum
tipo de “loucura”, como em
Mulholland Drive (David Linch, 2005) e em Shutter Island
(Martin Scorsese, 2010), seja pela inserção em algum tipo de tecnologia, como
em eXistenZ (David Cronenberg, 1999) e Matrix (irmãos Wachowiski, 1999). No
entanto, tanto estes filmes citados, quanto o filme de Jaco VanDormael possuem
características instigantes, que não deixam que o enredo e o argumento caiam na
discussão simplista entre o que é real e o que é imaginação/jogo/ficção.
Mas a linha tênue entre o que é
ou não realidade, o que foi ou não vivido por Mr. Nobody é apenas um dos
aspectos levantados pelo filme. O argumento é baseado fortemente na Teoria do
Caos ou ”efeito borboleta”, que diz que um simples bater de asas de uma borboleta
em algum lugar do planeta pode causar uma tempestade há quilômetros de
distância – Teoria também presente no filme O Som do Trovão. Por essa teoria, a escolha tomada aos 09 anos
– apenas uma das inúmeras tomadas ao longo da vida de Nemo – tem desdobramentos
dos mais inimagináveis.
É nos desdobramentos das escolhas
de Nemo que são conhecidas outras personagens, como uma das suas possíveis
esposas, Elise, uma mulher deprimida muito bem interpretada por Sarah Polley.
Jared Leto também fez um bom trabalho interpretando o protagonista – mas nada
comparável à sua atuação em Requiem for a dream (Darren Aronofsky, 2000). Os
elementos visuais do filme são muito importantes: o trilho de trem é o principal
deles, abrindo os caminhos possíveis da vida de Nemo. Além disso, a construção
das cenas também merece aplausos: a inserção de efeitos especiais, o filtro
que transforma algumas cenas em sonhos... Tudo feito na medida. Esteticamente
falando, a parte visual do filme - a fotografia - é linda. Perceptível também é
o cuidado com a simbologia, por exemplo, o trilho e a Estação de Trem chamada
Chance (acaso); as cores que representam cada uma das esposas de Nemo
(Anna-vermelho, Elise-azul) e remetem automaticamente à paixão de Nemo por
Anna e a tristeza vivida ao lado de Elise (blue). A inquietação em frente à
tela é constante: o que virá a seguir? Isso é real? A ficção científica por
trás do drama da vida de Nemo é um grande trunfo para o filme, mostra a originalidade
do diretor e a genialidade em construir uma narrativa no estilo de um
labirinto.
Mas também é preciso voltar para
o velho Nemo, de 118 anos, que vive numa sociedade no ano de 2092. É possível
para qualquer um imaginar como estaria o mundo daqui a 82 anos - essa visão
futurista também é retratada em diversos filmes, sempre da mesma maneira,
tecnologicamente falando. No entanto, a vida de Nemo transformada em um
reallity show, com câmeras por todos os lados é, mais uma vez, um desdobramento
da sociedade atual. A sociedade do consumo – de produtos e da vida alheia -, o
assédio ao último ser humano mortal, a adoção de porcos como animais de
estimação são representações, talvez um pouco exageradas, do que hoje é aceito
como modo de vida em sociedade.
O velho Nemo é notícia. Seu
médico, ao perguntar “Você não se lembra da primeira vez em que esteve aqui?”
abre uma porta dentro do labirinto de acontecimentos que envolvem Nemo. O
protagonista acorda em um quarto xadrez, vestido com a mesma estampa, encontra
outras pessoas vestidas da mesma forma; na rua, carros, casas e ruas desertas,
compondo um cenário que parece ter sido construído por sua mente - ou imposto
por uma possível experiência psiquiátrica? -, mas no qual Nemo se encontra completamente
perdido.
Nas lembranças de Nemo durante o
sono, enquanto conversa com um repórter que o entrevista às escondidas, ou
durante a hipnose, outro elemento é inserido constantemente: o tempo. Com
inserções de um “apresentador” - Nemo jovem – a origem do tempo, como somos
guiados por ele e a impossibilidade de não se poder voltar atrás nas escolhas
são apresentados de forma didática, em uma tela 3D, como se fosse um parêntese
à história que está sendo contada. A teoria do Big Bang (expansão do Universo),
Teoria do Caos, teoria das cordas, entropia e também teoria inversa do Big
Bang, o Big Chunch, são inseridos na narrativa do filme.
São duas horas e 34 minutos de
filme. Fica muito difícil, devido às quebras constantes na narrativa, perceber
quando e como o filme termina. Apesar da dinamicidade das imagens, a inserção
de elementos da ficção científica e de um “futuro possível”, a abertura de
“parênteses didáticos em 3D, a construção do drama da vida utilizando de
passagens bem humoradas, fica a impressão de cansaço, de que o filme poderia
ser tão bom quanto é, mas mais curto.
Toda a reflexão sobre o tempo,
sobre as teorias do Caos e do Big Crunch – contração do Universo/reversão dos
acontecimentos – transforma a narrativa em um imenso de possibilidades que
talvez não passem de artifícios da imaginação de um menino de 09 anos. A
frequente dúvida do “E se...” é a linha de desenvolvimento de um filme que
vale cada minuto por sua originalidade e beleza.
REPORTAGEM DE MORGANI GUZZO – ÁGORA EM REVISTA
–CRÍTICA DE CINEMA - ANO 6 – 5 EDIÇÃO



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