sexta-feira, 16 de novembro de 2012

A extraordinária beleza que vê o pesquisador

Um indivíduo em direção à pesquisa é como uma criança diante do mundo das fábulas


[Trechos de Mauro Maldonato, em seu livro “Passagens do Tempo”, no capítulo ‘Intuição e Revelação’]

       “Os poetas dizem que a ciência estraga a beleza das estrelas, reduzindo-as a simples amontoado de átomos de gás. Somente? Eu também me comovo ao ver as estrelas à noite no deserto, mas vejo menos ou mais? A vastidão dos céus desafia a minha imaginação; pendurado nesse pequeno carrosel o meu olho consegue captar a luz velha de um milhão de anos. Vejo um grande esquema do qual sou parte, e talvez minha essência tenha sido expelida por alguma estrela esquecida, como uma agora, está explodindo lá em cima. (...) Qual é o esquema, qual é o seu significado, o porquê? Saber alguma coisa sobre isso não destrói o mistério, porque a realidade é  tão mais maravilhosa do quanto algum artista do passado poderia imaginar!” (RICHARD FEYNMAN)

“A racionalidade científica parece hoje envolvida por um cone de sombra, que se projeta sobre a própria certeza de que se possa conhecer a estrutura do mundo e a natureza humana.
A constatação dos limites de nosso conhecimento, todavia, não arranhou o fascínio e a maravilha que a natureza evoca ao pesquisador. Como um explorador do desconhecido, ele concentra sua mente em questões extremas que geram surpresa, arrebatamento, exaltação: os mesmos sentimentos experimentados, talvez, há milhões de anos, por nossos progenitores diante de fenômenos aos quais não sabiam dar um nome. (...) A necessidade de conhecimento está inscrita na própria natureza humana. Hoje como ontem é o mistério do conhecimento a alimentar a necessidade de indagação do homem: na arte, na filosofia, na ciência. A pesquisa científica é uma luta sem fim com o mistério, com o enigma da beleza e de suas leis...
Anos atrás, Marie Curie pronunciou essas palavras inspiradas:
           “Pertenço às fileiras daqueles que apreenderam a beleza que é própria da pesquisa científica. Um cientista no laboratório não é apenas um técnico: encontra-se diante das leis da natureza como uma criança diante do mundo das fábulas. Não deveriam fazer as pessoas acreditarem que o progresso científico pode ser reduzido a um mecanismo, a uma máquina, a uma engrenagem: coisa que, aliás, tem lá sua beleza. Não acredito sequer que o espírito do empreendimento científico ameace desaparecer de nosso mundo. Se nisso tudo que eu percebo há alguma coisa vital, é precisamente o espírito de aventura que parece inextirpável e que se liga à curiosidade”

Com efeito, não é uma curiositas momentânea ou a propensão a medir e decompor o que impulsiona um indivíduo em direção à pesquisa, mas o fascínio exercido pela realidade, o espanto que deriva do reconhecimento, simples e ao mesmo tempo vertiginoso, de que as coisas existem. É o maravilhar-se pela existência das coisas, precisamente como uma criança que olha o mundo, a abrir o caminho do conhecimento e a fazer com que exclamemos “como tudo isso é extraordinário!”. É o mistério a fazer que olhemos além da superfície das coisas e interroguemos o mundo.
Nasce no mistério e no assombro o movimento de nossa busca... o que nos leva a ficarmos curvados dias a fio investigando.. É o rigor analítico, junto com a capacidade de apreender a complexidade, a ordem, a regularidade, a beleza do objeto de estudo, a levar um cientista a tentar penetrar a realidade em toda sua dimensão... O entusiasmo de sondar todos os mais íntimos mistérios da natureza é irresistível. Se estudamos um objeto, se desejamos conquistar seus segredos mais recônditos é porque, de algum modo, ele já nos conquistou. ... A verdade está além do princípio do prazer e de qualquer reflexo narcisista.... Nunca será uma meta que encerra a busca. A meta está na própria busca. Nela vive o amor pelo que é buscado.
(...) Sem uma emoção, um arrepio de inteligência, seria impensável qualquer criação. Numa descoberta científica está em jogo uma apercepção repentina, um impulso intuitivo além das rígidas demarcações do pensamento racional. Não há conhecimento sem intuição.
(...) Uma criação sempre nasce nas franjas de interferência entre consciência e inconsciente, no perturbador encontro entre uma pesquisa consciente, a ativação das fontes imaginário-oníricas e a emergência de energias arcaicas da mente”. [MAURO MALDONATO]

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É assim que este escritor, médico, psiquiatra e filósofo apresenta o pesquisador, como aquele que indaga sua mente e abre-se para outras conexões e encontros inéditos. Existe uma estranheza perdida, uma falta de imaginação e emoção nos dias de hoje, que me faz lembrar “A História sem Fim” de Wolfgang Petersen. Nos transportar para mundos mágicos e voar nas costas de Falcor, o dragão que mais parece um cachorro, não permite apenas nos confortar com uma brincadeira, mas mostrar o quanto temos sido pessoas vazias, sem esperanças, sem sonhos.


O aviltamento do conhecimento, a banalização do saber por outras vias que não as tradicionais. Eis o que tem acontecido. Precisamos de um resgate, à estilo também do “O pequeno príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry, que provocava os outros querendo que percebessem que o elefante engolido pela cobra não era um chapéu. Que admirava sua rosa com espinhos. Que foi viajar além das suas redomas e que permitia ser picado por uma cobra para retornar a um ponto de origem, transformado.



Mais emoção, imaginação, amor, surpresa, arrebatamento, espanto, surpresa, e fascínio, por favor! 

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