Um indivíduo em
direção à pesquisa é como uma criança diante do mundo das fábulas
[Trechos de Mauro Maldonato, em seu livro “Passagens do
Tempo”, no capítulo ‘Intuição e Revelação’]
“Os poetas dizem que a ciência
estraga a beleza das estrelas, reduzindo-as a simples amontoado de átomos de
gás. Somente? Eu também me comovo ao ver as estrelas à noite no deserto, mas
vejo menos ou mais? A vastidão dos céus desafia a minha imaginação; pendurado
nesse pequeno carrosel o meu olho consegue captar a luz velha de um milhão de
anos. Vejo um grande esquema do qual sou parte, e talvez minha essência tenha
sido expelida por alguma estrela esquecida, como uma agora, está explodindo lá
em cima. (...) Qual é o esquema, qual é o seu significado, o porquê? Saber alguma coisa sobre isso não destrói o
mistério, porque a realidade é tão
mais maravilhosa do quanto algum artista do passado poderia imaginar!” (RICHARD
FEYNMAN)
“A
racionalidade científica parece hoje envolvida por um cone de sombra, que se
projeta sobre a própria certeza de que se possa conhecer a estrutura do mundo e
a natureza humana.
A constatação
dos limites de nosso conhecimento, todavia, não arranhou o fascínio e a maravilha que a natureza evoca ao pesquisador. Como
um explorador do desconhecido, ele concentra sua mente em questões extremas que
geram surpresa, arrebatamento, exaltação:
os mesmos sentimentos experimentados, talvez, há milhões de anos, por nossos
progenitores diante de fenômenos aos quais não sabiam dar um nome. (...) A
necessidade de conhecimento está inscrita na própria natureza humana. Hoje como
ontem é o mistério do conhecimento a alimentar a necessidade de indagação do
homem: na arte, na filosofia, na ciência. A pesquisa científica é uma luta sem
fim com o mistério, com o enigma da beleza e de suas leis...
Anos atrás,
Marie Curie pronunciou essas palavras inspiradas:
“Pertenço às
fileiras daqueles que apreenderam a beleza que é própria da pesquisa
científica. Um cientista no laboratório não é apenas um técnico: encontra-se
diante das leis da natureza como uma criança diante do mundo das fábulas. Não
deveriam fazer as pessoas acreditarem que o progresso científico pode ser
reduzido a um mecanismo, a uma máquina, a uma engrenagem: coisa que, aliás, tem
lá sua beleza. Não acredito sequer que o espírito do empreendimento científico
ameace desaparecer de nosso mundo. Se nisso tudo que eu percebo há alguma coisa
vital, é precisamente o espírito de aventura que parece inextirpável e que se
liga à curiosidade”
Com efeito,
não é uma curiositas momentânea ou a propensão a medir e decompor o que
impulsiona um indivíduo em direção à pesquisa, mas o fascínio exercido pela realidade, o espanto que deriva do
reconhecimento, simples e ao mesmo tempo vertiginoso, de que as coisas existem.
É o maravilhar-se pela existência das coisas, precisamente como uma criança que
olha o mundo, a abrir o caminho do conhecimento e a fazer com que exclamemos
“como tudo isso é extraordinário!”. É o mistério a fazer que olhemos além da
superfície das coisas e interroguemos o mundo.
Nasce no
mistério e no assombro o movimento de nossa busca... o que nos leva a ficarmos
curvados dias a fio investigando.. É o rigor analítico, junto com a capacidade
de apreender a complexidade, a ordem, a regularidade, a beleza do objeto de estudo,
a levar um cientista a tentar penetrar a realidade em toda sua dimensão... O entusiasmo de sondar todos os mais
íntimos mistérios da natureza é irresistível. Se estudamos um objeto, se
desejamos conquistar seus segredos mais recônditos é porque, de algum modo, ele
já nos conquistou. ... A verdade está além do princípio do prazer e de qualquer
reflexo narcisista.... Nunca será uma meta que encerra a busca. A meta está na
própria busca. Nela vive o amor pelo que
é buscado.
(...) Sem uma
emoção, um arrepio de inteligência, seria impensável qualquer criação. Numa
descoberta científica está em jogo uma apercepção repentina, um impulso
intuitivo além das rígidas demarcações do pensamento racional. Não há
conhecimento sem intuição.
(...) Uma
criação sempre nasce nas franjas de interferência entre consciência e
inconsciente, no perturbador encontro entre uma pesquisa consciente, a ativação
das fontes imaginário-oníricas e a emergência de energias arcaicas da
mente”. [MAURO MALDONATO]
--**--
É assim que este
escritor, médico, psiquiatra e filósofo apresenta o pesquisador, como aquele
que indaga sua mente e abre-se para outras conexões e encontros inéditos. Existe
uma estranheza perdida, uma falta de imaginação e emoção nos dias de hoje, que
me faz lembrar “A História sem Fim” de Wolfgang Petersen. Nos transportar para
mundos mágicos e voar nas costas de Falcor, o dragão que mais parece um
cachorro, não permite apenas nos confortar com uma brincadeira, mas mostrar o
quanto temos sido pessoas vazias, sem esperanças, sem sonhos.
O aviltamento
do conhecimento, a banalização do saber por outras vias que não as
tradicionais. Eis o que tem acontecido. Precisamos de um resgate, à estilo também do “O
pequeno príncipe” de Antoine de Saint-Exupéry, que provocava os outros querendo
que percebessem que o elefante engolido pela cobra não era um chapéu. Que
admirava sua rosa com espinhos. Que foi viajar além das suas redomas e que
permitia ser picado por uma cobra para retornar a um ponto de origem,
transformado.
Mais emoção,
imaginação, amor, surpresa, arrebatamento, espanto, surpresa, e fascínio, por
favor!


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