Entre as ‘veredas e bifurcações’ transpostas no
Colóquio realizado na Cidade do Sol, e como Ciça (Maria da Conceição de
Almeida, coordenadora do Grecom) bem colocou, o encontro acontecido em Natal
não foi realizado para ser uma festa de comemoração narcísica, embora foi
perceptível o sentimento mútuo e genuíno de gratidão e orgulho pelo trabalho
desenvolvido durante mais de 20 anos por alguns dos participantes / pesquisadores.
“O saldo é positivo; faria tudo outra vez”, foram as palavras da sessão de
abertura. Vejo que muito mais com a intenção de compartilhar “as constelações
de saberes”, o evento transcorreu como um reforço de algumas idéias pilares do
pensamento complexo, um diálogo permanente com as leituras multiculturais, e um
transbordar vivo de experiências artísticas e musicais, depoimentos autênticos
de humanidade e algumas homenagens ao Edgar Morin.
Sentindo-me à
vontade para abraçar tudo aquilo, como se quisesse dizer “eu também posso
agregar algo aqui”, fiquei com a janela dos olhos abertas e fui eu a permeada
pelo ressoar das palestras, pensando em silêncio simultaneamente enquanto ouvia
e me emocionava.
“Exercitar mais e melhor”. O
conhecimento, a vida, a práxis, a ética. Eis o lema que permanecerá comigo. Fui
tocada no coração e fiquei literalmente com os pelos eriçados, à flor da pele,
em alguns minutos, pois vinha de um momento de dificuldade em me reinserir
neste campo híbrido da complexidade, e eis que justamente ouço Wani Fernandes
Pereira retomando o quinto princípio posto por Ciça: “Toda transformação, mudança
de caminho e projeção de futuro começa
pelo hoje; começa
pelo sujeito ao mesmo tempo insatisfeito, visionário e mobilizador;
começa no nível microscópico, local, e no fragmento, para depois se
expandir. Da mudança de percepção dos sujeitos depende a mudança do mundo”
Não há
como não mencionar a presença marcante e simples do Professor Ubiratan D’Ambrósio, que eu ainda não conhecia. Foi muito elucidativa sua exposição sobre “As
ressonâncias do Pensamento do Sul”, apresentando as conotações já enraizadas
dos termos Norte / Sul, através de um pensamento dominante desde 1500. Nós
somos herdeiros de um pensamento que impôs ao longo do tempo que o Norte é onde
está o desenvolvimento, é o Norte ‘Norteador’, enquanto o Sul é o lugar da
marginalização, do inconformismo, da reinvidicação, dos protestos. Interessante
foi ver que até em alguns mapas o Norte é representado como ‘cheio’, e o Sul
como ‘vazio’, e juntamente com as religiões, surgiu o conceito de que o paraíso
está no teto, acima de nós, e o inferno, abaixo; logo o Norte é o certo, o bom,
e o Sul é o errado, o mau. Ubiratan falou também das ciências ‘matematizadas’,
e da Ciência como “UMA das linguagens
capaz não só de explicar mas de compreender os fenômenos do mundo, a vida na
terra, as dores do corpo e da alma, os processos sociais, o ecossistema, a
origem do Universo”. Além desta linguagem há outras formas de sabedoria,
captadas nas narrativas da tradição, nas metáforas, na ficção distribuída na
Arte, na História, na Filosofia. O professor fechou essa palestra com um
provérbio chinês que diz: “Não ande na minha frente, pois posso não te seguir;
Não ande atrás de mim, pois posso não te guiar. Ande simplesmente ao meu lado
para que possamos caminhar juntos”. Ou seja, a educação é uma via de mão-dupla,
na qual não há um ser que somente ensina e outro que somente aprende, ambos
ensinam e aprendem conjuntamente.
Posteriormente,
é Maria Cândida Moraes quem brilha,
remontando-se a temas que fazem total sentido para mim. Adorei a sua palestra
pois ela comentou sobre a condição
humana atual, referenciando-se a Morin, que nos informa que estamos em um período ou de desintegração, ou de
metamorfose. Podemos e devemos ter o foco no bem estar comum à civilização.
Ela citou Alan Touraine, falou da Crise
do Estar / do Ser, do vazio de
sensibilidade de hoje, da Cultura da
Normalidade em que nada nos surpreende, da Educação como Política de
Civilização, de uma Revolução Ética Mundial, da Fraternidade e da necessidade
de gestar a vida em um sentido mais amplo, e da integração entre pensamento, sentimento e ação.
Para
complementar a roda da manhã do dia 31/10, tivemos a impressionante fala/depoimento
de Daniel Munduruku. Como indígena,
contou sua história, revelando que desde jovem também possuía suas inquietações
como ser humano e que seu avô pode lhe ofertar lições de vida. Quando pequeno,
ele tinha vergonha de ser índio, sofrendo o preconceito do rótulo de que índio
é sujo e selvagem. Não conseguindo uma namorada, tinha decidido que não seria
mais índio. Seu avô, percebendo que algo ocorria, orientou a Daniel que fosse
observar o rio, que o rio lhe contaria uma verdade. Mas Daniel não conseguia
ouvir o rio. O Rio não falou com ele. Somente mais tarde ele pode compreender que
“O grande desejo do Rio, é ser Rio”.
É correr, ser correnteza, ser ele mesmo. E em sua segunda história,
relacionada, Daniel observou que permanecer um pouco na sombra faz parte,
porque “o fruto inteiro do conhecimento não nos é possível engolir”. Enfim, ele
pode se assumir como índio, valorizando-se, e compreender que não podemos
chegar a todas as respostas que queremos de nossos porquê’s pela racionalidade.
É preciso estar a caminho. Fiquei sensibilizada devido isto ter funcionado para
mim como uma espécie de convite, para eu também aceitar e não negar o que eu
posso ainda vir a ser nessa minha história com a complexidade, para fluir como
o rio, e deixar ‘ser’.
Além disso, a
fala deste indígena comprova que a aprendizagem pode realmente acontecer por essas
inúmeras outras vias. É uma experiência
viva e que não precisa ser descartada. O pensamento complexo é atento à isso.
Neste sentido, o Professor José
Willington Germano da UFRN também colaborou. Seu tema é o pós-colonialismo
e o pensamento do Sul por uma justiça dos atores
sociais denigridos. Palestrou muito bem sobre a Invisibilidade Social e ilustrou com o trecho da música Brejo da
Cruz, de Chico Buarque: “Mas há milhões
desses seres Que se disfarçam tão bem Que ninguém pergunta De onde essa gente vem...”. Ele reconhece a necessidade de desconstrução
do paradigma hegemônico e aponta para “a
busca de um mundo melhor e não o melhor dos mundos”. Tal frase para mim engendra efeito porque
quebra um pouco da idolatrização pela melhoria, e me deixa com esperança porque
acreditar que algo pode ser feito não é acreditar na ideologia de que tudo será
perfeito. Mas é preciso lutar para ir contra a destruição e desintegração já
avançada. Outro provérbio é citado para somar: “A lua anda devagar mas
atravessa o mundo”. Enfim, é com
pequenos esforços e muitas vezes à longo prazo que as coisas acontecem.
No gancho
dessa idéia, Edgard de Assis Carvalho
fez menção à frase de Einstein de que boas idéias demoram para se concretizar.
Na contramão da hipertrofia dos poderes, Edgard ressaltou a questão do
contemporâneo perceber e às vezes não perceber que a obscuridade do nosso tempo nos afeta. Não devemos nos deixar
cegar pelas luzes do século considerando-nos á frente de tudo. Há modos de ignorância e conhecimentos
recalcados que são tão importantes para
o progresso quanto à zona de conhecimento a que já temos acesso. É a partir do não-saber que vamos
conquistar. (Aqui, como tudo na complexidade é interligado, dá pra fazer um
paralelo com o que ficou das palavras de Ciça, de que é a insatisfação que nos
move, e com a história de Munduruku, de que não temos acesso ao fruto inteiro
do conhecimento).
Outra questão
posta por Edgard e também por Ana
Cecília Espinosa Martinez é que mesmo assim temos que apostar em vôos mais
altos, fazer a reforma da vida e do pensamento, porque tudo isso serve para
pensar os problemas na prática. O conhecimento tem a finalidade de auxiliar o
homem em sua adaptação à Terra, à vida.
Ana Cecília fez referência à fenomenologia e a Paul Ricouer.
No outro dia
do evento, 01/11, houve mais uma palestra do Professor Ubiratan D’Ambrósio, e que, tão importante quanto às
outras, refrescou idéias essenciais. Mencionando o reconhecimento da
insuficiência das disciplinas separadas, mostra o enfoque transdiciplinar
através da metáfora das gaiolas
epistemológicas. O conhecimento não pode ser subordinado, fechado, como se
estivesse preso em gaiolas. Não adianta também destruir as gaiolas ou abrir
suas portinhas para que o conhecimento saia de uma porta e entre por outra,
prendendo-se novamente. Retira-se a arrogância do saber absoluto e propõe-se a Transdisciplinariedade, a qual não
compartimenta o conhecimento, pois entender e apreender a vida no mundo se faz
na comunicação com a realidade, percebendo a natureza, a sociedade, o planeta,
para que possamos nos defrontar com os problemas maiores da humanidade. Os
slides da apresentação explanaram também sobre os conceitos de Glocalização, Indivíduo, Sociedade, Educação, Vida, e
Evolução. Apreciei muito porque como psicóloga, pude contemplar que ali
estavam inseridas idéias como a incessante busca da sobrevivência e da
transcedência, a procura de satisfação do ser humano, a questão da subordinação
dos instintos ir além das leis, etc. Foi fabuloso fechar a tarde tendo visto
que alguém mais fala da vida como realização da sobrevivência do indivíduo e da
espécie e que a energia no final se direciona para fins socialmente
construtivos em prol de evitar a extinção!
Dançando em
poesia e música, o evento também nos agraciou com lindas apresentações músicas,
como a do Grupo de Violoncelos da Escola de Música da UFRN.
Com o lançamento
de livros, a exposição de banners, e o material nos entregue no credenciamento,
deu para ampliar muito mais de como o pensamento complexo vêm se fazendo
presente e forte nesse país! Anotei diversos nomes para pesquisar, e embora eu
não tenha conseguido fazer muitos contatos diretos por lá, ganhei o impulso
para o fazer a partir de agora!
E preciso ainda
dizer que perceber Edgar Morin tão perto, passando por entre nós, ali do meu
lado, me fez diluir a impressão do ídolo
intocável. Realizei um sonho de ter ouvido a Conferência Magna de um gênio,
ainda em vida! Eu e Liliam Martinelli, professora a quem agradeço a companhia
nestes dias inesquecíveis, gostaríamos que ele soubesse o quanto tem sido
importante em nossas vidas, e cremos, na vida de muita gente que esteve
presente neste evento. Ele não sabe de nossos nomes, mas estampa a gratidão e a
humildade em sua maneira de ser, o que nos conforta, acreditando intuitivamente
que a emoção vivida por todos ali (por ele, por nós, por todos os
pesquisadores, e pessoas que ali estiveram) deu conta de se encarregar do nosso
recado de gratidão.
Vida longa ao Grecom! Coragem a nós para sermos o que somos
e conseguirmos compartilhar a complexidade e a transdisciplinariedade, e
reformar o pensamento!
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