sábado, 10 de novembro de 2012

O Colóquio da Cidade do Sol


Entre as ‘veredas e bifurcações’ transpostas no Colóquio realizado na Cidade do Sol, e como Ciça (Maria da Conceição de Almeida, coordenadora do Grecom) bem colocou, o encontro acontecido em Natal não foi realizado para ser uma festa de comemoração narcísica, embora foi perceptível o sentimento mútuo e genuíno de gratidão e orgulho pelo trabalho desenvolvido durante mais de 20 anos por alguns dos participantes / pesquisadores. “O saldo é positivo; faria tudo outra vez”, foram as palavras da sessão de abertura. Vejo que muito mais com a intenção de compartilhar “as constelações de saberes”, o evento transcorreu como um reforço de algumas idéias pilares do pensamento complexo, um diálogo permanente com as leituras multiculturais, e um transbordar vivo de experiências artísticas e musicais, depoimentos autênticos de humanidade e algumas homenagens ao Edgar Morin.



Sentindo-me à vontade para abraçar tudo aquilo, como se quisesse dizer “eu também posso agregar algo aqui”, fiquei com a janela dos olhos abertas e fui eu a permeada pelo ressoar das palestras, pensando em silêncio simultaneamente enquanto ouvia e me emocionava.
Exercitar mais e melhor”. O conhecimento, a vida, a práxis, a ética. Eis o lema que permanecerá comigo. Fui tocada no coração e fiquei literalmente com os pelos eriçados, à flor da pele, em alguns minutos, pois vinha de um momento de dificuldade em me reinserir neste campo híbrido da complexidade, e eis que justamente ouço Wani Fernandes Pereira retomando o quinto princípio posto por Ciça: “Toda transformação, mudança de caminho e projeção de futuro começa pelo hoje; começa pelo sujeito ao mesmo tempo insatisfeito, visionário e mobilizador; começa no nível microscópico, local, e no fragmento, para depois se expandir. Da mudança de percepção dos sujeitos depende a mudança do mundo”
Não há como não mencionar a presença marcante e simples do Professor Ubiratan D’Ambrósio, que eu ainda não conhecia.  Foi muito elucidativa sua exposição sobre “As ressonâncias do Pensamento do Sul”, apresentando as conotações já enraizadas dos termos Norte / Sul, através de um pensamento dominante desde 1500. Nós somos herdeiros de um pensamento que impôs ao longo do tempo que o Norte é onde está o desenvolvimento, é o Norte ‘Norteador’, enquanto o Sul é o lugar da marginalização, do inconformismo, da reinvidicação, dos protestos. Interessante foi ver que até em alguns mapas o Norte é representado como ‘cheio’, e o Sul como ‘vazio’, e juntamente com as religiões, surgiu o conceito de que o paraíso está no teto, acima de nós, e o inferno, abaixo; logo o Norte é o certo, o bom, e o Sul é o errado, o mau. Ubiratan falou também das ciências ‘matematizadas’, e da Ciência como “UMA das linguagens capaz não só de explicar mas de compreender os fenômenos do mundo, a vida na terra, as dores do corpo e da alma, os processos sociais, o ecossistema, a origem do Universo”. Além desta linguagem há outras formas de sabedoria, captadas nas narrativas da tradição, nas metáforas, na ficção distribuída na Arte, na História, na Filosofia. O professor fechou essa palestra com um provérbio chinês que diz: “Não ande na minha frente, pois posso não te seguir; Não ande atrás de mim, pois posso não te guiar. Ande simplesmente ao meu lado para que possamos caminhar juntos”. Ou seja, a educação é uma via de mão-dupla, na qual não há um ser que somente ensina e outro que somente aprende, ambos ensinam e aprendem conjuntamente.
Posteriormente, é Maria Cândida Moraes quem brilha, remontando-se a temas que fazem total sentido para mim. Adorei a sua palestra pois ela comentou sobre a condição humana atual, referenciando-se a Morin, que nos informa que estamos em um período ou de desintegração, ou de metamorfose. Podemos e devemos ter o foco no bem estar comum à civilização. Ela citou Alan Touraine, falou da Crise do Estar / do Ser, do vazio de sensibilidade de hoje, da Cultura da Normalidade em que nada nos surpreende, da Educação como Política de Civilização, de uma Revolução Ética Mundial, da Fraternidade e da necessidade de gestar a vida em um sentido mais amplo, e da integração entre pensamento, sentimento e ação.
Para complementar a roda da manhã do dia 31/10, tivemos a impressionante fala/depoimento de Daniel Munduruku. Como indígena, contou sua história, revelando que desde jovem também possuía suas inquietações como ser humano e que seu avô pode lhe ofertar lições de vida. Quando pequeno, ele tinha vergonha de ser índio, sofrendo o preconceito do rótulo de que índio é sujo e selvagem. Não conseguindo uma namorada, tinha decidido que não seria mais índio. Seu avô, percebendo que algo ocorria, orientou a Daniel que fosse observar o rio, que o rio lhe contaria uma verdade. Mas Daniel não conseguia ouvir o rio. O Rio não falou com ele. Somente mais tarde ele pode compreender que “O grande desejo do Rio, é ser Rio”. É correr, ser correnteza, ser ele mesmo. E em sua segunda história, relacionada, Daniel observou que permanecer um pouco na sombra faz parte, porque “o fruto inteiro do conhecimento não nos é possível engolir”. Enfim, ele pode se assumir como índio, valorizando-se, e compreender que não podemos chegar a todas as respostas que queremos de nossos porquê’s pela racionalidade. É preciso estar a caminho. Fiquei sensibilizada devido isto ter funcionado para mim como uma espécie de convite, para eu também aceitar e não negar o que eu posso ainda vir a ser nessa minha história com a complexidade, para fluir como o rio, e deixar ‘ser’.
Além disso, a fala deste indígena comprova que a aprendizagem pode realmente acontecer por essas inúmeras outras vias.  É uma experiência viva e que não precisa ser descartada. O pensamento complexo é atento à isso. Neste sentido, o Professor José Willington Germano da UFRN também colaborou. Seu tema é o pós-colonialismo e o pensamento do Sul por uma justiça dos atores sociais denigridos. Palestrou muito bem sobre a Invisibilidade Social e ilustrou com o trecho da música Brejo da Cruz, de Chico Buarque: “Mas há milhões desses seres Que se disfarçam tão bem Que ninguém pergunta De onde essa gente vem...”.  Ele reconhece a necessidade de desconstrução do paradigma hegemônico e aponta para “a busca de um mundo melhor e não o melhor dos mundos”.  Tal frase para mim engendra efeito porque quebra um pouco da idolatrização pela melhoria, e me deixa com esperança porque acreditar que algo pode ser feito não é acreditar na ideologia de que tudo será perfeito. Mas é preciso lutar para ir contra a destruição e desintegração já avançada. Outro provérbio é citado para somar: “A lua anda devagar mas atravessa o mundo”.  Enfim, é com pequenos esforços e muitas vezes à longo prazo que as coisas acontecem.
No gancho dessa idéia, Edgard de Assis Carvalho fez menção à frase de Einstein de que boas idéias demoram para se concretizar. Na contramão da hipertrofia dos poderes, Edgard ressaltou a questão do contemporâneo perceber e às vezes não perceber que a obscuridade do nosso tempo nos afeta. Não devemos nos deixar cegar pelas luzes do século considerando-nos á frente de tudo. Há modos de ignorância e conhecimentos recalcados que são tão importantes para o progresso quanto à zona de conhecimento a que já temos acesso. É a partir do não-saber que vamos conquistar. (Aqui, como tudo na complexidade é interligado, dá pra fazer um paralelo com o que ficou das palavras de Ciça, de que é a insatisfação que nos move, e com a história de Munduruku, de que não temos acesso ao fruto inteiro do conhecimento).
Outra questão posta por Edgard e também por Ana Cecília Espinosa Martinez é que mesmo assim temos que apostar em vôos mais altos, fazer a reforma da vida e do pensamento, porque tudo isso serve para pensar os problemas na prática. O conhecimento tem a finalidade de auxiliar o homem em sua adaptação à Terra, à vida.  Ana Cecília fez referência à fenomenologia e a Paul Ricouer.
No outro dia do evento, 01/11, houve mais uma palestra do Professor Ubiratan D’Ambrósio, e que, tão importante quanto às outras, refrescou idéias essenciais. Mencionando o reconhecimento da insuficiência das disciplinas separadas, mostra o enfoque transdiciplinar através da metáfora das gaiolas epistemológicas. O conhecimento não pode ser subordinado, fechado, como se estivesse preso em gaiolas. Não adianta também destruir as gaiolas ou abrir suas portinhas para que o conhecimento saia de uma porta e entre por outra, prendendo-se novamente. Retira-se a arrogância do saber absoluto e propõe-se a Transdisciplinariedade, a qual não compartimenta o conhecimento, pois entender e apreender a vida no mundo se faz na comunicação com a realidade, percebendo a natureza, a sociedade, o planeta, para que possamos nos defrontar com os problemas maiores da humanidade. Os slides da apresentação explanaram também sobre os conceitos de Glocalização, Indivíduo, Sociedade, Educação, Vida, e Evolução. Apreciei muito porque como psicóloga, pude contemplar que ali estavam inseridas idéias como a incessante busca da sobrevivência e da transcedência, a procura de satisfação do ser humano, a questão da subordinação dos instintos ir além das leis, etc. Foi fabuloso fechar a tarde tendo visto que alguém mais fala da vida como realização da sobrevivência do indivíduo e da espécie e que a energia no final se direciona para fins socialmente construtivos em prol de evitar a extinção!
Dançando em poesia e música, o evento também nos agraciou com lindas apresentações músicas, como a do Grupo de Violoncelos da Escola de Música da UFRN. 

Com o lançamento de livros, a exposição de banners, e o material nos entregue no credenciamento, deu para ampliar muito mais de como o pensamento complexo vêm se fazendo presente e forte nesse país! Anotei diversos nomes para pesquisar, e embora eu não tenha conseguido fazer muitos contatos diretos por lá, ganhei o impulso para o fazer a partir de agora! 


E preciso ainda dizer que perceber Edgar Morin tão perto, passando por entre nós, ali do meu lado, me fez diluir a impressão do ídolo intocável. Realizei um sonho de ter ouvido a Conferência Magna de um gênio, ainda em vida! Eu e Liliam Martinelli, professora a quem agradeço a companhia nestes dias inesquecíveis, gostaríamos que ele soubesse o quanto tem sido importante em nossas vidas, e cremos, na vida de muita gente que esteve presente neste evento. Ele não sabe de nossos nomes, mas estampa a gratidão e a humildade em sua maneira de ser, o que nos conforta, acreditando intuitivamente que a emoção vivida por todos ali (por ele, por nós, por todos os pesquisadores, e pessoas que ali estiveram) deu conta de se encarregar do nosso recado de gratidão.

Vida longa ao Grecom! Coragem a nós para sermos o que somos e conseguirmos compartilhar a complexidade e a transdisciplinariedade, e reformar o pensamento! 

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