“Não posso mais contemplar o sol,
estrelas e paisagens sem que o maravilhoso fluxo da corrente de seus tempos
envolva meus olhos e meu corpo. Sim, o saber nutre e confunde o sentido da
percepção visual do mundo exterior” (Michel Serres)
Ao ler o
capítulo “A Grande Narrativa” do livro Incandescente, de Michel Serres,
encontrei expressada em palavras algumas idéias que eu, antes de ler tal texto,
estivera pensando recentemente e pude refletir.
Tudo vem
girando em minha cabeça, no fluxo da complexidade da vida, dos fatos, da
história, na ‘narrativa do mundo’. É a brevidade das existências individuais,
dos seres amnésicos e agoniados caminhando na racionalidade cotidiana, contraposta
ao movimento incessante de tudo e à longevidade das coisas e do tempo. Olho
para qualquer algo e vejo o eterno retorno e o novo imprevisto deflagrando-se
nos instantes, recuperando a história ‘bilhenar’ desde a sopa pré-biótica, o
vínculo do homem (pensado enquanto fenômeno, condição e moderno) com a natureza
e realidade – a coisa em si e a artificialidade construída -, resgatando a pura
beleza do infinito e o ranço carniçal das mitologias e crenças em toda a sua
vastidão. Essência x Aparência.
Michel Serres
nos ajuda a meditar sobre o quanto somos tão velhos, isto é, o quanto
carregamos a velhice do mundo incrustada em nosso DNA’s, em nossa própria
constituição bio-física, o quanto todos os seres vivos possuem uma igualdade,
ao menos estatística, em relação ao tempo. Enquanto uns já descreveram e
comentam sobre a brevidade da vida ou lamentam o curto tempo que possuem,
preocupados em projetar um futuro sustentável, poucos são os que conseguem
retroceder ao passado e a partir dele compreender as origens de um tronco comum
nessa grande narrativa que é a vida, Comédia Natural e Universal. E ao olhar
para esse tempo interminável, dar-se conta que nossas pequenas vidas
particulares e histórias singulares quase não têm importância comparadas à essa
fascinante amplitude. “Nossa existência
individual e nossas histórias culturais têm o peso de um floco de neve em
comparação com as toneladas dessa Grande Narrativa”. Veja bem, não se trata
de menosprezar a utilidade do esquecer-se e do não lembrar de si mesmo na nossa
constituição enquanto espécie – pois somos programados a perder a memória para
nos condicionar à aprendizagem, à adaptação rápida, à invenção – mas de
ressaltar os esclarecimentos que traz fazer uma incursão na idade da carne, da
Terra, do Universo.
Assim como
Serres, “não enxergo mais a fronteira
que separa e opõe os homens e o mundo”. Desde as leituras de Edgar Morin,
enxergo um somatório progressivo de nascimentos, superpostos e reconfigurantes,
num emaranhado onde tudo se interliga. E “uma
bifurcação emerge a cada ruptura”. Mudanças
de escala. Enquanto escrevo agora penso em mil situações acontecendo
simultaneamente. Células estão se multiplicando e infinitas partículas
percorrem o sangue das pessoas e em seus corpos, fazendo os órgãos se
comunicarem via códigos. As marés podem estar subindo ou descendo. No Amazonas, o desflorestamento está aumentando.
Do outro lado deste país, no Oriente, culturas estão sendo alargadas ou
exterminadas. Um cão está distinguindo os odores de uma cadela no cio. Um
determinado álcool está reagindo a um certo ácido. A dor e a violência urrando
em lugares inóspitos. Um vulcão entrou em erupção. Uma folha morta pelo outono
despregou-se de seu galho. Um sistema político foi derrubado. Um copo trincou.
Um alguém mentiu e um outro foi perdoado. Um cientista descobriu a cura de uma
doença. Um trovador inventou um tipo diferente de amor cortês. Ali estão os
ruídos de fundo, os gritos contidos nas paisagens. E assim continua o ciclo
interminável. As poeiras e as partículas de ar caindo todos os anos. O
movimento das seivas das árvores invisíveis aos nossos olhos. Desde fatos
pontuais, instantâneos, aos que só podem ser diagnosticados a longo prazo, como
a ruptura das placas tectônicas, é o movimento que persiste, e a gente continua
imerso, fazendo parte disso tudo.
“Mas quem quer que ainda proclame que as
ciências desencantam o mundo, basta retroceder”. Como Ulisses ou Dante em
seu Inferno, podemos fazer escavações subterrâneas e ir rumo ao fundo das
raízes arcaicas. Se fossemos datar nosso cérebro reptiliano, desceríamos camada
por camada, assim como se faz com as falésias geológicas. Tudo pode ser
visto de um ângulo construído como um castelo de cartas. É olhar para a
água do mar batendo nos pés e cogitar que os átomos de hidrogênio que estão ali
são os mesmos que remontam à fabricação da energia galáctica do Universo. Sim, este é o mesmo mar e o mesmo rio de
séculos e séculos. Porque não estamos habituados a ver as coisas assim?
Avalio a
extraordinária dificuldade de combinação de eventos para que algo que ocorre
agora, acontecesse. Uma obra prima contingente, com bilhões de anos e
tentativas, erros e mortes, antecedem um acerto. Serres acrescenta que ao
lado de uma velocidade incrível que nos faz delirar, existe uma lentidão multimilenar que pouca gente
enxerga. “A história muda de
velocidade, embora jamais se acelere plenamente”.
Segue alguns
trechos do autor:
“As diferenças com as quais assamos o pão de
nossos ódios cotidianos, de nossos desafetos carnais e de nossos pequenos
saberes reduzem-se a uma duração imperceptível; as influências histórias pesam
pouco ao lado das causas imensamente grandes que constituem este ou aquele
neurônio cuja excitação colabora para a percepção ou a emoção. (...) Aqui
estamos todos, imersos em uma mesma areia movediça”.
“Minha cabeça que há muito tempo contempla
essa exuberância de pixels. Melhor ainda, meu corpo banqueteia-se com tudo
isso; mais do que nutrido, repleto”
“Fascinado até a vertigem devido esse
mergulho vertical, meu prazer me conduz a centenas de milhões de anos atrás.
Costuma-se dizer que os sentidos abrem o corpo para o mundo; não, eles fazem
com que penetremos na duração imemorial de espaços há muito tempo perdidos”.
“De onde viemos? De um subconjunto de ramos
de uma grande Narrativa, de uma série finita de suas emergências contingentes.
Quem somos nós? O resultado temporário desse subconjunto”.
“Além do detalhe delicado e precioso da
película refinada que recobre uma simples célula, da pluralidade de cores das
estrelas, do vôo dos colibris e dos choques galácticos, encanta-nos
principalmente o conjunto dessa interminável e ardente narrativa artisticamente
conduzida por uma composição refinada de movimentos e de patamares de
equilíbrios, de incertezas e de rupturas, de caminhos e bifurcações, que
conduzem do big bang ou de seu equivalente quântico ao surgimento do homem, sem
nenhuma finalidade, ocorrido há milhões de anos na savana africana”
“Sempre nos esquecemos de como, há muito
tempo, o sentido aparece no mundo, mesmo que estejamos mergulhados nele”
Enfim, esqueçam seus ódios, suas amarguras e mudem de escala. É deslumbrante e
satisfatório. Uma vez tendo experimentado isso, você nunca mais esquecerá e
nunca mais pensará como antes. Não posso mais contemplar sem me emocionar.
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