"(...) No
limite extremo, o sujeito se transforma em sujeito indeterminado. Eu me
transformo em outro, depois em outros, em todo mundo, e finalmente, num sujeito
indeterminado. Um magnífico pronome indeterminado, um verdadeiro sujeito
trasnscedental, indiferenciado, branco, identifica-se afirmativamente sob o
nome de homem. (...) Por sorte e felicidade, tornei-me um sujeito
indeterminado. Um sujeito que pensa, fala e penetra na intimidade de todos. O
sujeito indeterminado é a soma do eu, do tu, do nós, do vós e do eles. Os
homens são feitos desse somatório.
(...) Da mesma
forma que os químicos são incapazes de imaginar um átomo de hidrogênio ou de
carbono sem conhecer o número de suas conexões, o sujeito do pensamento
permanece impensável sem as relações que o precedem.
(...) Como uma
cadeia contingente de decisões infinitesimais, a vida busca o caminho de sua própria
verdade quando ela adiciona à totalidade dos fatos que se tornaram manifestos o
não vivido que permaneceu como possível, lastimado, por vezes recuperado,
graças a um sopro de brisa que, como sempre, traz consigo um germe pleno de
promessas. A vida mente para fazer crer que seria possível recomeçar.
(...) Eu
gostaria de dar o nome de Meus clones
virtuais a uma heterobiografia cujo hipertexto leva em conta as bifurcações
possíveis e que não fora fixadas, os ramos adjacentes que foram abandonados e
que, por vezes, eram mais importantes que os galhos principais. Esses clones
virtuais, que posso reconhecer facilmente dentro e fora de mim, reconciliam a
necessidade fatal das metafísicas antigas com a contingência analisada pela
teoria contemporânea do caos? Uma após outra, essas bifurcações gigantescas e
inesperadas modelam uma vida. A
ramificação é a única coisa que permanece... "
Trecho do livro O Incandescente - Michel Serres
Imagem: Salvador Dali
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