quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

Clones Virtuais - By Michel Serres

"(...) No limite extremo, o sujeito se transforma em sujeito indeterminado. Eu me transformo em outro, depois em outros, em todo mundo, e finalmente, num sujeito indeterminado. Um magnífico pronome indeterminado, um verdadeiro sujeito trasnscedental, indiferenciado, branco, identifica-se afirmativamente sob o nome de homem. (...) Por sorte e felicidade, tornei-me um sujeito indeterminado. Um sujeito que pensa, fala e penetra na intimidade de todos. O sujeito indeterminado é a soma do eu, do tu, do nós, do vós e do eles. Os homens são feitos desse somatório.

(...) Da mesma forma que os químicos são incapazes de imaginar um átomo de hidrogênio ou de carbono sem conhecer o número de suas conexões, o sujeito do pensamento permanece impensável sem as relações que o precedem.


(...) Como uma cadeia contingente de decisões infinitesimais, a vida busca o caminho de sua própria verdade quando ela adiciona à totalidade dos fatos que se tornaram manifestos o não vivido que permaneceu como possível, lastimado, por vezes recuperado, graças a um sopro de brisa que, como sempre, traz consigo um germe pleno de promessas. A vida mente para fazer crer que seria possível recomeçar.

(...) Eu gostaria de dar o nome de Meus clones virtuais a uma heterobiografia cujo hipertexto leva em conta as bifurcações possíveis e que não fora fixadas, os ramos adjacentes que foram abandonados e que, por vezes, eram mais importantes que os galhos principais. Esses clones virtuais, que posso reconhecer facilmente dentro e fora de mim, reconciliam a necessidade fatal das metafísicas antigas com a contingência analisada pela teoria contemporânea do caos? Uma após outra, essas bifurcações gigantescas e inesperadas modelam uma vida.  A ramificação é a única coisa que permanece... "

Trecho do livro O Incandescente - Michel Serres
Imagem: Salvador Dali

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