sexta-feira, 23 de agosto de 2013

A PELE QUE HABITO E...

Sobre o submeter-se: O ARQUITETO DAS CAVERNAS DE EMIL CIORAN




“A teologia, a moral, a história, e a experiência de cada dia nos ensinam que para alcançar o equilíbrio não há uma infinidade de segredos; há apenas um: submeter-se: “aceitem um jugo, nos repetem, e serão felizes; sejam algo, e estarão livres de suas penas”. Realmente, tudo é ofício neste mundo: profissionais do tempo, funcionários da respiração, dignitários da esperança, um posto nos espera deste antes de nascer: nossas carreiras são preparadas nas entranhas de nossas mães. Membros de um universo oficial, devemos ocupar um lugar nele pelo mecanismo de um destino rígido, que só se relaxa a favor dos loucos; estes, pelo menos, não se vêem obrigados a ter uma crença, a filiar-se a uma instituição, a sustentar uma idéia, a pretender uma empresa. Desde que a sociedade se constituiu, os que pretendem subtrair-se a ela foram perseguidos ou achincalhados. Perdoa-se tudo, contanto que você tenha uma profissão, um subtítulo sob seu nome, um selo sobre seu nada. Ninguém tem a audácida de gritar: Não quero fazer nada!; se é mais indulgente com um assassino do que com um espírito liberado dos atos. Multiplicando as possibilidades de submeter-se, abdicando de sua liberdade, matando em si mesmo o vagabundo, foi assim que o homem refinou sua escravidão e submeteu-se aos fantasmas. Mesmo seus desprezos e rebeliões, só os cultivou para ser dominado por eles, servo que é de suas atitudes, de seus gestos e de seus humores. Saído das cavernas, guardou delas a superstição; era seu prisioneiro, tornou-se seu arquiteto. Perpetua sua condição primitiva com maior invenção e sutileza; mas, no fundo, aumentando ou diminuindo sua caricatura, plagia-se descaradamente. Charlatão movido por barbantes, suas contorções, suas caretas, ainda enganam. 



Almodovar e Cioran talvez, em certa medida, falam a mesma coisa... Sobre o processo de submeter-se, em condições de não se ter outra saída. 
Porque esse querer tanto em cima de nós, nos esgota... 

"Por toda parte, pessoas que querem...; mascarada de passos precipitados na direção de fins mesquinhos ou misteriosos; vontades que se cruzam; cada qual quer, a multidão quer, milhares de pessoas tensas rumo a não sei o quê. Não poderia segui-las, ainda menos desafiá-las; detenho-me estupefato: que prodígio insulflou-lhes tanto ânimo? Mobilidade alucinante: em tão pouca carne, tanto vigor e histeria! Estas bactérias que nenhum escrúpulo acalma, nenhuma sabedoria apazigua, nenhuma amargura desconcerta... Desafiam os perigos com maior facilidade que os heróis: são apóstolos inconscientes do eficaz, santos do Imediato..., deuses nas feiras do tempo... 
Afasto-me deles e deixo as calçadas do mundo... 
- Entretanto, teve um tempo que eu admirava os conquistadores e as abelhas, em que estive prestes a esperar; mas agora, o movimento me aterroriza e a energia me entristece. Há mais sabedoria em deixar-se levar pelas ondas do que em debater-se contra elas. Póstumo a mim mesmo, lembro-me do tempo, como de uma criancice ou uma grosseria. Sem desejos, sem horas nas quais fazê-los surgir, só tenho a certeza de haver sobrevivido desde sempre, feto corroído por uma idiotia onisciente antes mesmo que suas pálpebras se abrissem, e aborto de clarividência..." 
EMIL CIORAN

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