Georg
Simmel é referência na análise da vida na cidade grande e suas decorrências, em
como a personalidade se acomoda nos ajustamentos às forças externas. Para ele,
o caráter blasé advém da intensificação de estímulos nervosos, intensificação
provocada pela superposição contínua de choques recorrentes nas metrópoles. Vejamos:
“Não há talvez fenômeno psíquico que tenha sido tão incondicionalmente reservado à metrópole quanto à atitude blasé. A atitude blasé resulta em primeiro lugar dos estímulos contrastantes que, em rápidas mudanças e compressão concentrada, são impostos aos nervos (...) Surge assim a incapacidade de reagir a novas sensações com a energia apropriada. Isto constitui aquela atitude blasé (...) A essência da atitude blasé consiste no embotamento do poder de discriminar. Isto não significa que os objetos não sejam percebidos, mas antes que o significado e valores diferenciais das coisas, e daí as próprias coisas, são experimentados como destituídos de substância. Elas aparecem à pessoa blasé num tom uniformemente plano e fosco; objeto algum merece preferência sobre outro” (SIMMEL, 1973, p.16).
Então
o individuo blasé é aquele que apresenta uma incapacidade de reagir
adequadamente com a energia que possui, para essa vida moderna intensa, na qual
o ritmo de vida e o conjunto de imagens mentais flui mais rapidamente do que
nos ambientes rurais. Ele é sensível aos choques, às confusões e desordens, e
se distancia dos mesmos como medida de precaução. Simmel acrescenta que esse
fenômeno é a ultima possibilidade do individuo acomodar-se ao conteúdo e forma
da vida metropolitana. Toda a antipatia, indiferença, que inclui uma leve
aversão, estranheza e repulsão aos outros, “que redunda em ódio e luta no
momento de um contato mais próximo” (p.17) faz parte do estilo metropolitano de
vida porque o modo de vida na cidade grande não poderia absolutamente ser
mantido de outra forma. Ele ainda liga essa atitude e a anonimidade das
relações pessoais em função de que a vida prática está relacionada a essa
impessoalidade, advinda da economia de mercado e do dinheiro, visto que este
tornou as relações sociais mais objetivas e impessoais, portanto, mais
superficiais.
O dinheiro é, para Simmel, a força que une e afasta. Ao se tornar meio de troca universal, o dinheiro permite uma aproximação entre diversas pessoas. Todos podem se comunicar pela linguagem universal do dinheiro. Por via do comércio – que com a modernidade é comércio global – o dinheiro aproxima pessoas que nunca estariam próximas de outro modo. Por outro lado, ele afasta. Afasta porque a relação social estabelecida por meio do dinheiro é meramente instrumental. (MOCELLIM 2007, p.110).
Mas
retornando ao foco do ‘blasé’ em si, outros autores nos ajudam a esclarecer
ainda mais o conceito, como é o caso de Leopoldo Waizbort (2007), e Angelo
Silva (2009), respectivamente:
Blasé: fatigado, indiferente, insensível, saturado, lasso. (...) O caráter blasé, a indiferença diante de tudo e todos, reverte em uma desvalorização de tudo e todos, e, por fim, no sentimento de depreciação da própria individualidade. Viver na cidade grande supõe sempre estratégias de sobrevivência em meio à concentração – estratégias que são, o mais das vezes, comportamentos estilizados. (WAIZBORT, 2007, p.328-329)
O que entende o autor por Blasé? Tentando responder por ele poderíamos dizer que a atitude blasé é aquela expressão de enfado e tédio de quem está dormitando com os olhos abertos, não importa diante do que. Podemos agregar a isso a idéia de falta de compromisso com os assuntos em pauta. O blasé nos impede de avaliarmos seus desejos, emoções ou projetos, assim como o bom jogador de cartas, que, ao controlar suas expressões e sentimentos, não permite que seus oponentes percebam quais cartas ele dispõe em suas mãos. A sutil diferença é que o jogador assume essa atitude conscientemente, já o blasé nem se dá conta de sua própria situação. (SILVA, 2009, p.49).
Seja como “a
propriedade de não se deixar impressionar pelas diferenças abismais que a
cidade proporciona” (Bastos, 2007), seja como a incapacidade física-mental de
administrar as exigências externas da modernidade (Simmel, 1973), seja como
característica de individualismo, indiferença, impessoalidade, insensibilidade,
seja como enfado, tédio, apatia, e todas as outras descrições que aqui
levantamos, temos esse fenômeno, essa atitude como representativa de uma diferença
de comportamento em alguém na sociedade.
E por ser tratado no
senso comum como ‘o diferente’, o blasé tende a entrar nestes mecanismos de
interpretação que a Antropologia aponta como absolutistas, que colocam o termo em
posições particulares, marcando-o e assinalando-o como a exceção do
comportamento e pouco tendo a chance de ser visto como uma atitude pertencente
à diversidade e variedade de condutas no mundo. Estas diversas conotações do
conceito não são plenamente conhecidas por todos, e geralmente o blasé, numa
primeira impressão, é taxado de inconveniente, condenado por não ser o
‘normal’, sendo arremessado à escanteio, tendo seu lugar na sociedade marginalizado.
Todavia, pelo viés das ciências antropológicas,
não há como se compreender essa atitude tomada como diferença - a atitude blasé
- fora da sociedade, excluindo e isolando o sujeito da sua relação com os
outros e com a cultura que lhe é constituidora e fundante. Desse modo, isso
significa não só que o homem blasé é tão resultado/produto da cultura quanto o
homem não blasé - e aqui já estamos legitimando que o conceito do blasé implica-advém
do/no ‘não-blasé’ por ser uma definição circular de auto-referência – mas que
há uma lógica a partir do olhar de quem se é blasé que fica em detrimento do
olhar geral, dos não-blasés. Essa crença na diferença como estigma de alguém desviante
do normal, por vezes interpretado como inferior por não possuir ‘algo’ que lhe
falta, é sempre na lógica de quem tem esse ‘algo’. Então podemos concluir que a
atitude blasé é um grande exemplo da tendência universal etnocentrista, aquele
costume primário de rechaçar e rejeitar aqueles que não se enquadram nas nossas
lentes naturais. Pois aqueles que hostilizam os blasés estão os ponderando e os
julgando e rotulando através de uma perspectiva que valoriza tudo aquilo que se enquadra no
comportamento ‘politicamente correto’: ser “comprometido com os assuntos em
pauta”; ser atento e sensível a seu redor, acima de tudo; ser constantemente simpático e nunca tedioso
com a realidade (pelo menos aparentemente), etc.
A compreensão que a
antropologia fornece de poder entender o homem blasé como o fruto da cultura
tanto quanto o homem não blasé é importante para desmistificar o conceito. Se Roque
de Barros Laraia (2001) diz que é a própria cultura que condiciona, fabrica
este tipo de hábito, não podemos imputar no sujeito blasé uma culpa por ser do
jeito que é. Pensando com Simmel que se trata de uma incapacidade física-mental
de reagir adequadamente, então não se torna uma escolha ser ou não ser blasé; é
algo que ocorre dentre uma infinita gama de possibilidades de se posicionar no
mundo, perante a realidade. Hoje ao nos depararmos com um grande volume de
pessoas que estão frente à uma luta prática por uma vida melhor (como nos casos
dos manifestantes dos protestos de junho de 2013), é difícil aceitar o blasé,
justamente porque pensa-se que ele decidiu ignorar os fatos, à vida que lhe é
apresentada. Mas bem lembrado por Angelo Silva o verdadeiro blasé não se dá
conta de como reage, não é consciente de sua atitude como algo que está fora
dos padrões esperados pelos outros. Ele vai vislumbrar o mundo de acordo com a
sua visão, à sua maneira, e nesta visão há uma coerência para se agir assim. A
lógica para ‘dormitar de olhos abertos’, para ‘ser indiferente à tudo e a
todos’, com certeza é ampla e complexa, e sua extensa apreciação não caberá neste
post.
Mas nos delimitando a
um pouco do que a antropologia tem a dizer sobre o fenômeno, podemos pensar como
o indivíduo blasé é tomado pela ‘coisa’ incrustada no adquirir dessa
característica. Ele é identificado com o comportamento em si que manifesta, é
confundido com o próprio fenômeno. É como se todas as suas outras
características, principalmente as qualidades, sumissem, e assim o blasé passa
a ser julgado porque quando ele é nominado, ela passa a não pertencer à classe
dos que são expressivos, ativos e manifestantes, que reagem à pressão e aos
estímulos da sociedade. Nisso estão sendo imputados um valor negativo ao blasé
e positivo ao não-blasé.
Para
não ocorrermos em equívoco, temos que recordar que isto é uma imposição
arbitrária. Respeitar o blasé seria deixar que ele possa não ser o que somos,
por exemplo, revolucionário. Que a anonimidade possa existir, e os olhares
descoloridos também. Porque não há nem deve ocorrer um imperialismo cultural,
na qual todos os comportamentos sejam homogeneizados para uma só direção. O multiculturalismo
perseverá e a partir dele, suas diversas formas de manifestação do humano. Vida
longa não só aos revolucionários de inclinação esquerda, mas também aos blasés
da direita (ironicamente, pois nada garante que um seja de posição esquerda e
outro de orientação de direita), pois “temos o direito a ser iguais quando a
diferença nos inferioriza; temos o direito a ser diferentes quando a igualdade
nos descaracteriza” (Boaventura de Souza Santos). Parafraseando a citação,
temos o direito de ser homens quando somos inferiorizados por ser blasé; temos
o direito a ser blasé quando somos descaracterizados nas possibilidades
diversas de reagir à vida.
Enfim, compreendendo a ‘atitude blasé’ nos
moldes da antropologia, foi possível recorrer a autores e argumentos para concluir
que é equivocado manter um olhar absoluto sobre este fenômeno, pois se trata de
um ‘conceito’ adquirido e que precisa ser relativizado, de acordo com o sujeito
que vive e apresenta significações para ser ‘lasso’, ‘insensível’, ou qualquer
adjetivo que acompanhe o termo ‘blasé’. Tal conceito é muito mais uma
abstração, um adjetivo mesmo, e não um substantivo, e por isso a antropologia
foi essencial para esclarecer que o blasé não pode ser visto numa categoria
essencialista, que o identifica à característica. Tem se o direito de ser blasé
por se tratar de um comportamento possível dentre tantos outros.
REFERÊNCIAS:
LARAIA, Roque de Barros. Cultura: um conceito antropológico. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 14
ed., 2001.
LÉVI-STRAUSS,
Claude. Raça e História. In: Antropologia
Estrutural II. Rio de Janeiro: Tempo Brasileiro, 1976. Cap. XVIII,
p.328-366.
MOCELLIM,
Alan. Simmel e Baumann: modernidade e individualização. In: Em Tese, Vol. 4 n.1, ago-dez/2007. p.101-118
SANTOS, Boaventura
de Sousa. Para uma concepção intercultural dos direitos humanos. In: _____. A gramática do tempo: para uma nova
cultura política. São Paulo: Cortez, 2006. p.433-470.
SIMMEL,
Georg. A metrópole e a vida mental. In: VELHO, Otávio Guilherme (Org.). O fenômeno urbano. Rio de Janeiro:
Zahar Editores, 1973. 2 ed.
SILVA, Angelo. George Simmel e a Sociologia.
In: _____ Sociologia Urbana.
Curitiba:IESDE Brasil, 2009. p.45-52.
WAIZBORT, Leopoldo. As aventuras de Georg Simmel. São
Paulo: USP: Ed. 34, 2007.

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