segunda-feira, 14 de abril de 2014

O roubo da madrugada

E ela surgiu de repente no sonho dele, com a maquiagem esplendorosa como nunca fizera. Usava o cabelo preso escondido em um chapéu preto. Seus olhos azuis reluziam fogo em chamas através dos cílios encurvados e pretos pelo uso do forte rímel. Fez questão de usar um batom vermelho e vestir uma camisa de seda também vermelha, por baixo de um colete, pela qual podia se perceber a protuberância dos seus seios e o vinco entre os dois. Também um cachecol adornava seu pescoço elegantemente. O cenário era o balcão de um bar, com fotos do Ramones e do Elvis penduradas nas paredes. Na mão dela, um copo de vinho branco. O encontro era definitivo. Então, ela lhe disse adeus, mas não em palavras. Quis lhe ofender com a sua beleza já que não sabia usar palavras rudes. Foi assim que terminou seu affair com F. E se sentiu novamente leve pra reiniciar sua vida na outra manhã. Ele não sabe, mas perdera aquela mulher nesta madrugada. Talvez ele pense apenas que dormiu com ela algumas vezes. Mas pra S sua intimidade foi intocada. Voltaria a ser para ele imaculada e tão distante no grau o quanto ele vai demorar pra descobrir que existem afinidades que tornam as pessoas mais próximas do que outras mesmo não estando ao lado físicamente. S. foi embora sem que ele percebesse. Ela saiu levando uma sensação dúbia. Não sabia se aquela despedida da parte dela teria ocorrido naturalmente ou foi ocasionada pelo olhar de um homem que a furtou, sequestrou sua mente há alguns instantes anteriores. Titubeou se iria embora para o bairro de nome Santa Felicidade ou se pegaria um táxi para o Paraíso, em São Paulo. 

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