domingo, 25 de maio de 2014

A vida não é um comercial de margarina



Tenho muito a dizer nos últimos tempos. Mas de tudo o que mais me sensibiliza e vejo que as pessoas não conseguem ver atualmente, e precisariam entender, é que a vida não é um comercial de margarina. É como Eliane Brum se pergunta em seu texto “Nada é só bom”, quando é que nos enfiaram guela a baixo essa idéia absurda de um estado de felicidade absoluta? O que muitos não conseguem assimilar é que essa “espécie de Nirvana a ser alcançado em que nada mais nos perturbaria” é um desejo latente, inerente ao ser desde que existimos. 



Para Brum, uma das grandes causas atuais da infelicidade é a exigência pela felicidade a qualquer preço. Isso está tão em voga, que muitos por exemplo, não suportam ler livros que relatam as angústias da vida, querem sempre os filmes de cinema com os finais felizes. Clamam por histórias de caronchinha. 

Eu acho que estamos tão ávidos por essa idéia de um prazer sem interferências porque estamos entupidos até a tampa daquele roteiro pré-fabricado pela sociedade que impõe que para ser feliz é preciso ter alguém do lado (leia-se estar-se relacionando), depois casar, construir algo, ter filhos e passar a viver como num comercial de margarinas: em que você toma café da manhã sorrindo, num jardim florido, ao lado de um cachorro que pula em cima de você e te lambe, e você tem a profissão que gosta, o celular do momento, e adora todos à sua volta. E quando constatamos que isto não acontece, vem aquele sentimento de frustração, as perguntas de onde estão as falhas para estar tudo errado pois este sentimento de felicidade que o vizinho exibe, a gente não alcançou ainda. Então passamos mais tempo criando planos e expectativas sobre o nosso futuro perfeito do que vivendo o presente. Ou tomamos um anti-depressivo achando que vai resolver, que logo isso passa. Mas, Eliane Brum nos recorda que: 

“A idéia de felicidade como um fim em si mesma encobre e desbota tanto a delicadeza quanto a grandeza do que vivemos hoje, faz com que olhemos para nossas pequenas conquistas, nossos amores nem sempre tão grandiloqüentes, nosso trabalho às vezes chato, como se fosse pouco. Apenas porque nem a conquista nem o amor nem o trabalho é só bom. E há uma crença coletiva e alimentada pelo mundo do consumo afirmando que tudo deveria ser só bom. E se não é bom, é porque fracassamos.
Deixamos então de enxergar a beleza do nosso amor imperfeito, da nossa família imperfeita, dos nossos dentes imperfeitos e até das nossas taxas de colesterol imperfeitas. Dos nossos dias imperfeitos. Escolher como olhamos para nossa vida é um ato profundo de liberdade que temos descartado em troca de propaganda enganosa.
Tanta gente esquece de viver o cotidiano, em troca dessa mercadoria ordinária chamada felicidade. Que, como toda mercadoria, tem essência de fumaça. Se tiver de escolher entre essa felicidade de plástico que vendem por aí, e a infelicidade, preferiria ser infeliz. Pelo menos a infelicidade me faz buscar. E a felicidade absoluta é mortífera, ela mata o tempo presente.
Não tenho nenhum interesse por essa pergunta corriqueira “Você é feliz?”. Ninguém é feliz, com sorte, a gente é alegre. Prefiro perguntar “Você deseja?”
Desejar é o contato permanente com o buraco, com a impossibilidade de ser completo. Desejar é o que une o homem à sua vida. Une pela falta. Tem mais a ver com um estado permanente de insatisfação. Não é a insatisfação que paralisa, é ela que nos coloca em movimento, carregando tudo o que somos numa busca permanente de sentido. Desejar é estar sempre no caminho, conscientes de que o fim não importa. O fim já está dado, todo o resto é possibilidade”. 

Enfim, se você mesmo ou mais alguém lhe incomodar com alguma cobrança descabida sobre seu jeito de viver, lembre-se: a vida não é um comercial de margarina! Pare de projetar uma vida idealizada, e caso tudo não ocorra bem como o esperado, reavalie seu modo de olhar para as coisas! Nada é só bom. Não podemos nos esquecer que além dessa felicidade enlatada vendida por aí, esse sentimento de inadequação e incompletude vai sempre nos acompanhar, pois faz parte do homem. Não precisamos ser superficiais e mostrar apenas sorrisos, é muito mais honesto e saudável perceber que ao lado de nossas conquistas, há os fracassos, há as perdas, as dificuldades e as roupas sujas para lavar. Podemos viver com isso, e só assim viveremos.

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