Tenho muito a dizer nos últimos
tempos. Mas de tudo o que mais me sensibiliza e vejo que as pessoas não
conseguem ver atualmente, e precisariam entender, é que a vida não é um
comercial de margarina. É como Eliane Brum se pergunta em seu texto “Nada é só
bom”, quando é que nos enfiaram guela a baixo essa idéia absurda de um estado
de felicidade absoluta? O que muitos não conseguem assimilar é que essa
“espécie de Nirvana a ser alcançado em que nada mais nos perturbaria” é um
desejo latente, inerente ao ser desde que existimos.
Para Brum, uma das grandes causas
atuais da infelicidade é a exigência pela felicidade a qualquer preço. Isso está tão em voga,
que muitos por exemplo, não suportam ler livros que relatam as angústias da
vida, querem sempre os filmes de cinema com os finais felizes. Clamam por
histórias de caronchinha.
Eu acho que estamos tão ávidos
por essa idéia de um prazer sem interferências porque estamos entupidos até a
tampa daquele roteiro pré-fabricado pela sociedade que impõe que para ser feliz
é preciso ter alguém do lado (leia-se estar-se relacionando), depois casar, construir
algo, ter filhos e passar a viver como num comercial de margarinas: em que você
toma café da manhã sorrindo, num jardim florido, ao lado de um cachorro que
pula em cima de você e te lambe, e você tem a profissão que gosta, o celular do
momento, e adora todos à sua volta. E quando constatamos que isto não acontece,
vem aquele sentimento de frustração, as perguntas de onde estão as falhas para
estar tudo errado pois este sentimento de felicidade que o vizinho exibe, a
gente não alcançou ainda. Então passamos mais tempo criando planos e
expectativas sobre o nosso futuro perfeito do que vivendo o presente. Ou tomamos um anti-depressivo achando que vai resolver, que logo isso passa. Mas, Eliane Brum nos recorda que:
“A idéia de felicidade como um fim em si mesma encobre e desbota tanto
a delicadeza quanto a grandeza do que vivemos hoje, faz com que olhemos para
nossas pequenas conquistas, nossos amores nem sempre tão grandiloqüentes, nosso
trabalho às vezes chato, como se fosse pouco. Apenas porque nem a conquista nem
o amor nem o trabalho é só bom. E há uma crença coletiva e alimentada pelo
mundo do consumo afirmando que tudo deveria ser só bom. E se não é bom, é
porque fracassamos.
Deixamos então de enxergar a beleza do nosso amor imperfeito, da nossa
família imperfeita, dos nossos dentes imperfeitos e até das nossas taxas de colesterol
imperfeitas. Dos nossos dias imperfeitos. Escolher como olhamos para nossa vida
é um ato profundo de liberdade que temos descartado em troca de propaganda
enganosa.
Tanta gente esquece de viver o cotidiano, em troca dessa mercadoria
ordinária chamada felicidade. Que, como toda mercadoria, tem essência de
fumaça. Se tiver de escolher entre essa felicidade de plástico que vendem por
aí, e a infelicidade, preferiria ser infeliz. Pelo menos a infelicidade me faz
buscar. E a felicidade absoluta é mortífera, ela mata o tempo presente.
Não tenho nenhum interesse por essa pergunta corriqueira “Você é
feliz?”. Ninguém é feliz, com sorte, a gente é alegre. Prefiro perguntar “Você
deseja?”
Desejar é o contato permanente com o buraco, com a impossibilidade de
ser completo. Desejar é o que une o homem à sua vida. Une pela falta. Tem mais
a ver com um estado permanente de insatisfação. Não é a insatisfação que
paralisa, é ela que nos coloca em movimento, carregando tudo o que somos numa
busca permanente de sentido. Desejar é estar sempre no caminho, conscientes de
que o fim não importa. O fim já está dado, todo o resto é possibilidade”.
Enfim, se você mesmo ou mais
alguém lhe incomodar com alguma cobrança descabida sobre seu jeito de viver,
lembre-se: a vida não é um comercial de margarina! Pare de projetar uma vida
idealizada, e caso tudo não ocorra bem como o esperado, reavalie seu modo de
olhar para as coisas! Nada é só bom. Não podemos nos esquecer que além
dessa felicidade enlatada vendida por aí, esse sentimento de inadequação e
incompletude vai sempre nos acompanhar, pois faz parte do homem. Não precisamos
ser superficiais e mostrar apenas sorrisos, é muito mais honesto e saudável
perceber que ao lado de nossas conquistas, há os fracassos, há as perdas, as
dificuldades e as roupas sujas para lavar. Podemos viver com isso, e só assim
viveremos.

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