sábado, 14 de junho de 2014

Dilma Roussef Iscariotes



Sinceramente o que podemos perceber com a manifestação em coro de ódio “Ei, Dilma, vai tomar no cú” direcionada à presidenta são três coisas. Primeiro, é a expressão mais clara das lamúrias com pouca consistência. Segundo, é a evidência plena da divisão de classes.  Terceiro, é que o desrespeito nessa instância está maior do que se imaginava, e isso é a reflexão de algo maior. 

Vamos lá.  Se estamos descontentes com o governo, de fato estamos, e ainda bem que isso cada vez mais tem se tornado público. Opa, espera aí.  Essa crítica aí no estádio foi cantada aos ventos por quem? Como já anunciaram (não sou eu que afirmo), pelos brancos que puderam pagar para assistir a um jogo da Copa. Por uma mínima parcela. Então, a zombaria nos representa, é legítima? Não, e também porque a vaia significa a repetição do ‘choro’ de um bebê que viu o outro chorar. Sem saber porque o bebê chora, eu também vou me doer por ele. Na hora de gritar, um contagia o outro e na psicologia das massas freudiana, o berro ecoa.  Por isso foi uma lamúria sem consistência. Se antes de todos gritarem, tivéssemos como parar o tempo e indagar cada um qual é a razão de estarem ofendendo a presidenta, muitos não saberiam se explicar com argumentos porque é contra à política atual.  Os que gritaram e os que se orgulham pelos gemidos fervorosos continuam todos sendo massa de manobra ‘Bourdieuana’ de uma ideologia non sense. 

E justamente assim é agora que podemos ver o que de fato acontece: que estamos todos divididos em classes. Não é só a existência da classe média que passa a clamar por mudanças, que retrata uma mistura de ricos de esquerda e ricos de direita. Não estamos divididos só entre os que de fato querem um Brasil melhor e igualitário e os que preferem que o poder e a riqueza continue nas mãos de quem está. Os próprios brasileiros que sentem que poderiam lutar estão divididos em classes: entre os que reclamam pois não sabem fazer outra coisa a não ser expor suas insatisfações na algazarra e na violência e os poucos que procuram conhecer qual seria o modo eficaz e civilizado de chegar à uma virada no poder político. 


Ironicamente, parece que xingar a Dilma foi como malhar o Judas.  Ela se torna assim o estigma para o mundo de que a nação um dia a escolheu e agora a humilha como a traidora dos apóstolos não pecadores.  E ela vira o bode expiatório da vez. Tudo é culpa dela e nenhuma da população. Não está se dizendo aqui para reprimir a vontade de expor toda a indignação que temos pela corrupção e pela má administração da verba pública. Uma coisa é protestar e outra, é insultar. O ultraje, o afronte está se tornando enorme, de proporções descabidas. E isso reflete a dificuldade do ser humano em construir a ética. A dificuldade em separar o lado pessoal de todo o resto. Isso assusta. Ao invés de caminharmos para a construção do diálogo pela civilidade e consideração ao humano, estamos embrenhando-se num mar de lama que diz que é bonito injuriar as autoridades. O superego dos homens está em decadência. Estamos retrocedendo, pois no grito infame, não vamos chegar a lugar algum.

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