Sinceramente o que podemos
perceber com a manifestação em coro de ódio “Ei, Dilma, vai tomar no cú” direcionada
à presidenta são três coisas. Primeiro, é a expressão mais clara das lamúrias
com pouca consistência. Segundo, é a evidência plena da divisão de classes. Terceiro, é que o desrespeito nessa instância
está maior do que se imaginava, e isso é a reflexão de algo maior.
Vamos lá. Se estamos descontentes com o governo, de fato
estamos, e ainda bem que isso cada vez mais tem se tornado público. Opa, espera
aí. Essa crítica aí no estádio foi
cantada aos ventos por quem? Como já anunciaram (não sou eu que afirmo), pelos
brancos que puderam pagar para assistir a um jogo da Copa. Por uma mínima
parcela. Então, a zombaria nos representa, é legítima? Não, e também porque a
vaia significa a repetição do ‘choro’ de um bebê que viu o outro chorar. Sem
saber porque o bebê chora, eu também vou me doer por ele. Na hora de gritar, um
contagia o outro e na psicologia das massas freudiana, o berro ecoa. Por isso foi uma lamúria sem consistência. Se
antes de todos gritarem, tivéssemos como parar o tempo e indagar cada um qual é
a razão de estarem ofendendo a presidenta, muitos não saberiam se explicar com
argumentos porque é contra à política atual. Os que gritaram e os que se orgulham pelos gemidos
fervorosos continuam todos sendo massa de manobra ‘Bourdieuana’ de uma
ideologia non sense.
E justamente assim é agora que
podemos ver o que de fato acontece: que estamos todos divididos em classes. Não
é só a existência da classe média que passa a clamar por mudanças, que retrata
uma mistura de ricos de esquerda e ricos de direita. Não estamos divididos só
entre os que de fato querem um Brasil melhor e igualitário e os que preferem
que o poder e a riqueza continue nas mãos de quem está. Os próprios brasileiros
que sentem que poderiam lutar estão divididos em classes: entre os que reclamam
pois não sabem fazer outra coisa a não ser expor suas insatisfações na
algazarra e na violência e os poucos que procuram conhecer qual seria o modo
eficaz e civilizado de chegar à uma virada no poder político.
Ironicamente, parece que xingar a
Dilma foi como malhar o Judas. Ela se
torna assim o estigma para o mundo de que a nação um dia a escolheu e agora a
humilha como a traidora dos apóstolos não pecadores. E ela vira o bode expiatório da vez. Tudo é
culpa dela e nenhuma da população. Não está se dizendo aqui para reprimir a vontade
de expor toda a indignação que temos pela corrupção e pela má administração da
verba pública. Uma coisa é protestar e outra, é insultar. O ultraje, o afronte
está se tornando enorme, de proporções descabidas. E isso reflete a dificuldade
do ser humano em construir a ética. A dificuldade em separar o lado pessoal de
todo o resto. Isso assusta. Ao invés de caminharmos para a construção do
diálogo pela civilidade e consideração ao humano, estamos embrenhando-se num
mar de lama que diz que é bonito injuriar as autoridades. O superego dos homens
está em decadência. Estamos retrocedendo, pois no grito infame, não vamos
chegar a lugar algum.

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