quinta-feira, 22 de janeiro de 2009

A respeito d'As Ondas, de Virginia Woolf



É com aprumo e elegância que quero falar de Virgínia Woolf. E tecer comentários acerca de sua - a meu ver - vislumbrosa, substancial mas porosa, belíssima obra-prima As Ondas - seu sexto romance, publicado em 1931. A edição que li, da Nova Fronteira, tem a tradução feita por Lya Luft.

A ocasião tempestiva em que me encontro, férias universitárias e momentaneamente desempregada em período de recolocação profissional, me deixa à deriva, um tanto quanto ociosa. Entretanto favoreceu para eu assimilar aquelas delicadas páginas à maneira mais à vontade e gostosa possível: deixando a própria trama falar comigo, de gole em gole, ela embriagando-me. Levei mais de duas semanas apreciando-a na sofreguidão, entre o intervalo de tardes enchuvaradas ácidas e prévias de noites abafadas, tão costumeiras do verão em Curitiba. E se valeu a pena?! Nossa!

Apressadamente, quem só ler esta minha opinião literária sem sentir a intensidade do livro, poderá facilmente achar que estou exagerando na sua contemplação. Porém, para quem já me conhece um pouco mais, sabe que costumo selecionar bastante o que vou ler, e que, se expresso efusivamente algum juízo de algo, é porque gostei e muito, com probabilidade alta de ser por completo. E de lambuja, faço assim uma indicação e uma contribuição de mais algumas interpretações a uma obra já mesmo considerada interessante por escritores fenomenais e leitores assíduos da boa literatura européia, possivelmente premiada e reconhecida nas Academias de Letras e presente no discurso de outras comunidades de plantão... que versam secretamente e destrincham mil significados e sentidos à parágrafos alheios!

Na sua própria contra-capa, a comentarista define As Ondas como uma narrativa musical, parecida com a Arte da Fuga de Bach e as sinfonias de Mozart: uma meditação sobre a vida, reflexões inusitadas a partir de imensos solilóquios sobre a experiência, a solidão, a maturidade e o isolamento humano. Em suma, Virgínia registrou magistralmente monólogos interiores de seis personagens que se intercruzam: Neville, Jinny, Rhoda, Susan, Louis e Bernard. "Mas o assunto não existe: eles não chegam a viver uma história". E é isso que, de súbito, não me motivou inicialmente - essa falta do fio narrativo que liga o começo, o meio e o fim. Mas apenas precocemente. As vozes parecem ora articuladas, ora incoerentes entre si - bem como a mente humana. É daqueles livros que a pausa inicial após as primeiras 25 páginas, quase intragáveis e prejudiciais à cativação de sua continuação, e mais o desfecho e a síntese do todo são imprescindíveis, vêm carecidas, suplicantes, e fazem toda a diferença. Para compreendê-lo, vale transliterar e estar atento a descrição acanhada da suas orelhas / abas:

Os personagens... "Estão imersos em seus monólogos, no âmago de suas sensações mais íntimas; para eles, o Mundo - descrito de forma verdadeiramente esplendorosa, como nunca Mrs. Woolf fizera - é vivido como o lugar das impossibilidades de serem aquilo que eles gostariam de ser. O Mundo e a sua História, aqui, são a negação objetiva da realização de cada personagem. Às imagens de uma natureza fulgurante corresponde uma história feita de fraude, medo e opressão. Entre uma e outra, as seis vozes emitem sons que não conseguem encontrar seu ponto de repouso: o passado não os consola, o presente os horroriza, e o futuro permanece, por excelência, o desconhecido". Eles estão à procura de si, em meio a ruídos de uma sociedade em decomposição.

E só até aqui, não tendo ainda opinado realmente a respeito, vocês já podem captar a formosura do conteúdo com que eu tanto fiquei polvorosa, apreensiva e curiosíssima para ler.

Voalá, eis-me aqui, para lhes apresentar o impacto e a intepretação de As Ondas a uma quase psicóloga...


Sem capítulos e pausas certas para freiar a descompassada leitura, as cambaleantes palavras de As Ondas, obra primorosa da britânica suicída Virgínia Woolf, correm soltas, vão e voltam como verdadeiras ondas de um oceano. Um oceano de sensações e pensamentos. Mar da vida. Poucos são os acontecimentos. Incomensuráveis os raciocínios. Finos. Profundos. Te prendem como um enigma.

Eu que faço caretas para histórias sem enredo e que soam impossíveis, fui pega e surpreendida por uma ficção, que nada tem de irreal e fantasmagórico, pois fala como nenhuma outra daquilo que é unicamente humano, que tanto, enquanto psicóloga, sou fissurada em perscrutar: os recônditos das existências pessoais, as inebriantes vidas nossas de cada um e de todos, as partituras das individualidades universais, das personalidades formadas no esbarros com os outros, nas imbricações com o vasto e infinito mundo. Aliás, se tão infinito é o mundo, tão infinito somos nós - (sempre quis dizer isso publicamente!)



Diversas são as passagens que me comoveram (tão intensas e marcantes como deve ter sido os momentos da vida de Virgínia Woolf!). O olhar sobre a ingenuidade da infância e a raiva previsível de crianças que pouco compreendem o mundo. Impressões esperançosas da juventude, segundos inesquecíves do frescor dos raros instantes de intimidades, das paixões cerejas, platônicas e clandestinas. Fulgores e vigores. Trivialidades. Descompassos, excessos. Até as reclamações da rabugenta velhice. Embora o livro não tenha um enredo específico, ele caminha sim, pela vida, e ao fim, vai ficando mais pesado. Segurei o nó na garganta e as lágrimas nas palpebras ao entragar-me a sutis trechos... como à sensação do quão melhor é ficar sozinho a sofrer com a estranheza e aviltez não convidada de um olhar que te espia de soslaio, te despe, te aflige. E a aspereza sentida por Bernard, na reflexão após a morte de seu amigo Percival:
"Casamento, morte, viagens, amizades, cidade e campos, filhos e tudo isso, uma substância de muitos lados, recortada nessa treva; uma flor multifacetada. Paremos por um momento, contemplemos o que fizemos. Deixemos que rebrilhe diante dos teixos. Uma vida. Ali. Passou. Apagou-se". Ou da frase "Por baixo, somos todos ossos".
Algumas frases me acertaram mais ainda em cheio. Como essa: "Você não é Byron, você é você mesmo".
E por aí vai... De um paragráfo sobre a ansia pela maternidade, à outro, sobre a fadiga exaustiva por ter laços familiares a carregar e filhos como suspensórios de nós mesmos..

E quem dera... Mais magnanimamente, para mim, é que os fatos são atravessados pelas mais cordiais e torturantes frases construídas por Mrs. Woolf. Mil e uma vezes clamores e palmas ao vocabulário de Virgínia Woolf! Eu a invejo! De ondem surgem palavras como céu encrespado, enrugado; nuvens bojudas; silêncio que tomba; canção dolorosa, gutural, visceral; e outros verbos, adjetivos e substantivos como 'espraiassem', 'bruxuleando', 'fremindo', 'trinou', 'empoou o rosto', 'faias', 'juncos', 'turfas,' 'penumbroso', 'adstringente' 'absorvente', 'pardagenta', 'burilado', (...) ?!!!!



Depois de tudo isso, não consegui sequer conjecturar uma crítica negativa, advertir a possibilidade de um defeito na obra... Quer dizer, tem umazinha só... não gostei dos trechos que descrevem as ondas... os que estão em itálico no livro, eu os achei cansativos, sem chance para minha cabeça imaginar as cenas... mas talvez seja minha falta de tato com livros de descrições tão sensitivas assim!

Enfim, fica a dica: As Ondas é realmente um esplêndido livro, como diz sua contracapa. Mas cuidado: leia sem pressa de absorvê-lo. Assim como um bom filme, há momentos para consumi-lo!

E eu, imediatamente, quis relê-lo. Pena que agora a dedicação à compilação de minha monografia pede mais urgência e ordena cautela nas leituras de literaturas gostosas!

Ah, comentário final: Recomendam para aprimorar nossa sensibilidade ouvir Bethoven e músicas clássicas. Eu recomendo As Ondas, de Virgínia Woolf. Recheada de aromas, cores, texturas, borburinhos...

E depois de lerem, troquem figurinhas comigo, please!

E eu na sequência, desrespeitando meu post anterior que prometia seis post sobre mim, trarei mais fragmentos dessa obra linda!!! Não resisto em registrar os trechos preferidos por mim, para eu ter acesso aqui depois!

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10 Comentários:

Lobo solitário e desdentado disse...

Realmente a obra dela tem uma musicalidade... Vácuos e pontes...
Me deu vontade de ler o resto...rs

SD disse...

Krank, espere pra ver o próximo post, com fragmentos e ai decida-se! =D

Anônimo disse...

que artigo fantastico!
qlqr um que nao tenha lido sentira vontade de ler, depois de ler o seu artigo!

eu, pessoalmente, adorei o livro!
Vou continuar a visitar o seu blogue!

mts bjs, laura

Anônimo disse...

Oi Sil!!! Não li ainda Virginia mas vi um vídeo sobre a vida dela e a complexidade (novamente) da mente humanda, principalmente a feminina. Lendo seu post, agora tenho mais certeza dessa densidade, dessa intensidade de suas obras. Valeu, beijão!

Alexandre Kovacs disse...

Sil, obrigado pela visita lá no meu mundo, gostei muito do seu blog que passo a acompanhar com muito interesse.

Carlos Pereira jr (merlimkerunnus) disse...

Passei por aqui para retribuir a visita e adorei o que encontrei. Belo blog!Um ótimo testemunho de vida e criatividade. O coimentário sobre as Ondas é preciso.

SD disse...

Que alegria pelos comentários elogiando o meu blog! Gosto de agradar os que aqui chegam!

Paula Abreu Silva disse...

Sil, deixo aqui uns excertos sobre Virginia Woolf, personalidade que admiro bastante ! ;)

" O nome de Virginia Woolf simboliza uma síntese invulgar da escritora de vanguarda que dá voz à vida interior e aos estados de alma do ser humano ... "

" Apesar da doença psíquica que a afectava, e não por causa dela - de facto, o mal ter-se-ia manifestado mesmo que não tivesse escrito -, Virginia Woolf revelou-se uma escritora de excepção, embora a escrita tenha sido, para ela, uma experiência necessariamente ambivalente: vivia dominada pelo receio de que os outros não encontrassem sentido no que escrevia e de que a tomassem por louca em vez da mulher brilhante que foi ... "

" Revelou-se, todavia, uma observadora sagaz, incorrupta e infatigável da sua época e da vida. Como autora, deixou patentes na sua obra as experiências-limite que caracterizaram as diferentes fases da doença, dando-nos visões inestimáveis da fragilidade e vulnerabilidade da existência humana. Nada para si era mais importante do que preservar intacta a sua percepção e a integridade da sua arte. "

Bjinhos

SD disse...

Obrigada, Butterfly!! Ela era mesmo fantástica!

Paula disse...

estava pesquisando virginia woolf no google, li umas coisas e achei também seu blog. recomendo a voce este site: http://sexualityinart.wordpress.com/2007/08/18/sisters-virginia-woolf-vanessa-bell-pens-brushes-presses-and-minds-of-their-own/

fala sobre virginia e a irmã vanessa, tem umas pinturas dela..achei muito, muito bacana.

bom proveito, abraço.