Em seu capítulo 02, do livro “Aprender a Viver”, Luc Ferry apresenta a visão dos estóicos. Eu que nem lembrava dessa palavra, percebi o quanto muitas de suas idéias ainda se apresentam fortemente, mesmo que contrárias ou reformuladas.
Abrindo um parênteses para contextualizar, o estoicismo é uma escola de pensamento advinda com os gregos e romanos, no período pré-socrático. Data uma época que compreende IV a.C até 300 d.C, em fases. Os propagadores que mais influenciaram o pensamento Ocidental seriam Sêneca, Epíteto e Marco Aurélio.
Resumidamente, de acordo com o livro do Ferry, advém dos estóicos a crença de que o universo possui uma estrutura ordenada e que essa ordem é cósmica e divina. Para eles, tudo no mundo era perfeitamente ‘bem-feito’, e podia ser contemplado. Por trás do caos aparente das coisas, há a essência, essa ordem lógica, organizada e animada, que pode ser trazida à luz pela razão humana. Desta ordem ‘harmoniosa’ advém a teoria do mundo justo e bom: há um lugar certo, natural, para cada coisa. O caráter divino do mundo é imanente, e não transcendente, ou seja, se situa apenas em relação a ele e não fora dele. A finalidade da vida humana é "viver em conformidade com a natureza".
Diante dessa concepção de vida, já surgiam modos pífios de revogar a ‘mortalidade’. Ter filhos e garantir a descendência era uma forma de continuar vivendo de alguma maneira. Realizar ações heróicas e gloriosas também era outra possibilidade de ascender à eternidade. (Afirmações que continuam existentes até hoje).
Ademais, para os estóicos, a morte não é o fim absoluto, mas uma transformação, uma passagem de um estado a outro, pois somos um fragmento eterno do cosmos. “Tu não será mais o que és, mas outra coisa da qual o mundo precisará”. Não há um aniquilamento, mas passa-se a outra existência, um modo de ser diferente.
Complementando o assunto através do olhar do autor, a sabedoria do estoicismo nos deixou exercícios para ‘aprender a viver’ sem medos vãos ou nostalgias supérfluas, atividades para supressão da angústia. Os primeiros dois grandes males são o peso do passado e a miragem do futuro. Podemos aprender a não permanecer prisioneiro do passado tentando não só não lembrar das coisas dolorosas que nos aconteceram mas também deixar de lado as lembranças dos dias felizes que nunca mais voltarão. Outra sacada é não temer o porvir, preocupar-se menos com o futuro e desvalorizar a esperança que é incerta. “Enquanto se espera viver, enquanto se se prende a estas realidades imaginadas, a vida passa”. Portanto, o estoicismo sugere a reconciliação com o presente tal como ele é. Devemos mudar nossos desejos e não a ordem do mundo. Quanto as catástrofes acontecerem, já estaremos preparados. Sugere-se não se apegar a nada, não querer nada além do momento nem lamentar o que quer que seja. Pois tudo é movimento, flutuação.
Pensem comigo. O quão interessante é constatar que algumas concepções já foram ultrapassadas e outras ainda tão latentes possuem as mesmas raízes tão antigas. E que por isso me parece que tudo (ou muito de tudo pois creio num mundo ‘aberto’) já foi pensado um dia, de alguma maneira.
Eu tentaria separar aqui quais pontos da visão estóica que concordo e quais eu discordo, mas vi que arena é ampla, e talvez haja contradições internas ou eu mesma, por ser meio incoerente e transgressora, inverta algumas idéias por causa de outras que mantenho. Mas me cabe salientar as evidências principais...
Antes de chegar aos outros capítulos me perguntei se não sou estóica. Porque concordo com a visão a qual percebe a ligação com todas as coisas e nos mantém pertos do presente e da realidade a qual sentimos pertencer sem necessitarmos rogar por outros mundos incertos para vivermos bem. Ou seja, eu sou partidária do materialismo e ‘mais ou menos’ do conceito da imanência (depois explico o ‘mais ou menos’). Pra mim, se não podemos nos garantir com uma eternidade além, é válido e sábio essas idéias de evitar apegos e sofrimentos, ‘esperar um pouco menos e amar um pouco mais’ só aquilo que está ao nosso alcance. O livro mesmo aponta que tais premissas se apresentam mais uma vez em Nietzsche, com a sua ‘inocência do devir’. E como parte das minhas verdades, eu resgataria ainda a alusão a um julgamento de existência de ‘harmonia’, ‘felicidade’, ‘serenidade’, ‘paz’, ou alguma coisa nesse sentido quando encontramo-nos num estado de fusão com o cosmos, numa situação de coincidência e identificação que anula o tempo e sem termos consciência deste, nós temos uma sensação agradável a qual nada corrompe. Ai, Ai, se pudéssemos viver infinitamente nessa circunstância que parece ‘perfeição’ em vida... Admiro um pouco essa aceitação da vida, essa espécie de 'entrega'.
Mas, por outro lado, eu não sou estóica porque rejeito muitos outros princípios. O primeiro princípio, que já é recauchutado por grande parte dos modernos e pós-modernos, é a crença na ordem e harmonia no universo. É óbvio que há harmonias e desarmonias e hoje (não que eles estejam certos) os cientistas privilegiam muito mais a hipótese do caos, que o mundo tende a entropia e mesmo que lute por um equilíbrio de forças pode haver perda de energias, dissipação. No entanto, mais que isso, não tomamos mais o mundo ordenado como referência. Preferimos vê-lo como inconstante, mutante. Porque não vemos que a ordem está no mundo, nas coisas; a realidade não é sempre o fundamento da teoria e dos valores, e sim o julgamento que fazemos dela. Depois de Kant e de outros filósofos, quem que conhece suas idéias ousa não admitir que de repente não há essência alguma e tudo é aparência, sentido e significado construído? (Percebam meu conflito, porque me chamo de materialista, haha). Decanta-se outra tese rechaçada, a de que não vamos mais ser expectadores e contempladores de uma ordem suprema, uma lógica dominante. E por aí se vão as teses já descartadas... Eu poderia encaminhar o diálogo para a defesa de que o mundo não é mais bondoso, que esse divino e esse sagrado já podem ter caído por terra. Usaria Montaigne e outros detentores da crueldade, e depois negaria estes também.
Enfim, mesmo não apostando a ferro e fogo em qualquer das hipóteses, se o mundo é o que é ou o que percebemos dele, a questão que se sobressai para mim é a duvida inerente a ‘ética de tentar nos ajustar ao mundo’ aqui e agora. Eu já fui muito contra a afirmativa do ‘homem certo no lugar certo’ (The right man in the right place). Eu até ia escrever uma monografia a respeito, pois penso que essa idéia ainda está muito em voga, é vigorante até mesmo dos discursos das práticas de recursos humanos (eu sou do Rh e escolho candidatos que se adéqüem a um perfil). Mas ai rumei a outros caminhos monográficos, e essa pergunta permaneceu. Vamos desenvolvê-la um pouco...
O que aconteceu, me parece, foi um excesso sobre a idéia de destino, fatalismo, determinismo, que ainda sobrevive com veemência. A meu ver, somos ainda muito reféns das conseqüências do mecanicismo. Os paradigmas estão sendo reconstruídos, mas não nos desfizemos completamente da fé pragmática de que os fins justificam os meios, de que ‘as coisas são o que são’, e de morais que nos dizem o melhor a ser feito. De um lado admiro esse fato de não nos prendermos a convenções sociais e que se pudéssemos viver em função da natureza, da realidade, do que ela nos reserva e não do que queremos mudar nela, pudéssemos ‘aprender a viver’ ‘tal qual é’. O problema é que existe um relativismo sobre esse ‘tal qual é’. Será que ‘é’? Eu sou cética demais ou não esqueço nunca do indeterminismo e das imprevisibilidades pra ver o mundo como uma coisa dada. Tudo pode ser uma farsa, um auto-engano, virar do avesso. E praticar em demasia esse não apego ou despreocupação quanto ao futuro implica também numa indiferença, e até que ponto é válido ser indiferente? Manteremos-nos sãos individualmente, mas talvez prejudicaremos a espécie no que tange o convívio social. Para manutenção de uma sociedade, temos que ser solidários e altruístas. Temos sim que nos adaptar ao mundo, nos ajustar a ele, mas sem lesar os próximos. E ao afirmar isso eu já me contradigo. Primeiro porque pra mim ‘não temos que nada’, ou seja, detesto quando nos impõe que devemos ou não fazer alguma ou qualquer coisa que seja. Somos livre e cada um que viva a sua maneira. Cairíamos aqui em divagações sobre o Direito Natural. Mas retomando, além de não concordar plenamente com termos que fazer alguma coisa, me injuria ainda mais a palavra ‘nos ajustar’. Talvez no lugar de ajustar ou nos adequar, que conota passividade, como se fossemos manipulados pelo mundo, como se não pudéssemos as vezes alterar o mundo, eu precise de outra palavra. Talvez se ‘integrar’. Porque somos ativos e não é só por um bem comum entre todos que podemos optar por não se opor ao mundo. É meio estranho me sentir partidária e contrária a uma mesma questão. Quem sabe não seja isso a dialética? Rs. Porque posso aceitar o que vier, mas nem sempre e não quero deixar de ser uma revolucionária!
Concluindo o que nem eu sei o que quero dizer, só saliento que ao construir nossas próprias visões de mundo e formas de viver, podemos descartar algumas opiniões e preservar outras. Parece mais uma das minhas obviedades, mas nem tanto. Ler sobre tudo isso tem me ajudado muito a pensar e ir em busca de outros conhecimentos. Tenho agora a vontade de entender melhor outras vertentes do assunto, que não se esgota. Ao pesquisarmos na net sobre o estoicismo se abrem outras questões para debate. Os epicuristas e os panteístas, por exemplo, da mesma forma serão filosofias que buscam sentido para o mundo? O sincretismo, o que é? Ando tão curiosa.... Irei atrás das outras filosofias gregas e dos mitos!
Vou lá, ler mais um pouquinho até eu apresentar o próximo post sobre o terceiro capitulo do Luc Ferry!

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