Retomando o assunto dos meus dois posts anteriores, que resumem os capítulos do livro de Luc Ferry, Aprender a Viver, e versam sobre a semelhança entre filosofia e religião no sentido de ambas se constituírem como sabedorias vitoriosas sobre as inquietações associadas à finitude humana, atentarei agora ao Capítulo 03 da obra, o qual apresenta as respostas inéditas da doutrina cristã que dominaram por um longo tempo (do fim do século II ao século XVII) acima da filosofia grega.
Vou tentar ser breve, mesmo que eu não creia ser possível sintetizar tantas informações do capítulo. A partir de algumas subversões de princípios, os cristãos conseguiram fundar uma nova moral, juntando diversas novas idéias. Seguem-nas:
01ª Idéia – A Personificação do divino. O logos, o divino, não se identifica mais com a ordem do mundo (visão estóica), pois passou a encarnar-se num ser excepcional, o Cristo. Essa personalização implica para os cristãos que segundo eles, todos nós seremos salvos não apenas por uma pessoa, mas enquanto pessoas. Para os pensadores gregos, essa atribuição do caráter de divindade a um simples humano é puro delírio. Foi uma mudança abissal no sentido do que seja o ‘divino’.
02ª Idéia – O predomínio da fé sobre a razão. O acesso a suposta verdade não passa mais pelo exercício da razão. Não em suma, pois para os crédulos o que conta primeiro é a confiança dada a palavra de um homem, Cristo. É a confiança Num Outro, não se trata mais de pensar por si mesmo. A lógica não é argumentar a favor ou contra a existência ‘Dele’. ‘Trata-se de testemunhar e crer, de dizer que o ‘Verbo foi encarnado, habitou entre nós, foi visto, apalpado e esse testemunho é digno de fé...’ Não é mais uma questão de inteligência ou raciocínio, ao contrário, ‘bem-aventurados os pobres de espírito’.
03ª Idéia – A humildade como o novo requisito. Conseqüentemente à segunda idéia, são os filósofos os orgulhosos e vaidosos que não quiseram ou souberam aceitar que Cristo pudesse ser a Encarnação do Verbo, que não admitiram a modéstia de uma divindade reduzida ao estatuto de um humilde mortal, suscetível ao sofrimento e a morte. Os judeus também não aceitam essa mudança: Por que um Deus seria fraco e se deixaria martirizar e pregar na cruz? Não tem nada de divino nisso. Um Deus que se aceita rebaixar do seu poder? Então, toda essa subversão de força constitui a eficácia da nova teoria: é pela fraqueza que esse divino torna-se porta-voz dos fracos, dos pequenos, dos subalternos.
04ª e 05ª Idéia – A filosofia não desaparece, mas torna-se menor; a filosofia é relegada à escolástica. Apesar de a verdade ser transmitida pelas palavras de um profeta, resta um lugar para a razão, para a atividade filosófica. Deve-se usar a reflexão e a inteligência em moderação, como por exemplo, para interpretar as parábolas e ler as Escrituras. E também para compreender a natureza a fim de retirar dela os ensinamentos divinos. Deve-se admitir que existe um criador inteligente, ora, para todas as maravilhas e reconhecer a existência de Deus pela bondade e beleza de suas obras. A filosofia é então reelegada a uma disciplina escolar e não mais tem o aval de uma sabedoria de vida. Continua ela sendo um aprendizado discursivo, continua a se filosofar, porém não mais sobre as finalidades últimas da vida humana.
Com todas estas idéias reunidas, Ferry afirma que surgem outras três fundamentais no plano da Ética. São elas:
01ª Idéia – Valorização do livre-arbítrio, aparecimento da igual dignidade e da meritocracia. O mundo grego era aristocrático, era convicto da existência de uma hierarquia natural de todos os seres. Uns seriam feitos para comandar, outros para obedecer. Os cristãos inovam e dizem que a desigualdade de qualidades natas não tem importância; e o que é moral ou imoral é o uso que fazemos destes talentos herdados. Pois os podemos utilizá-los tanto para o bem quanto para o mal, e assim, eles não tem nada de virtuosos em si. Surge a meritocracia. Valoriza-se o mérito que cada um desenvolve ao usar seus dons. As ações livres é que são virtuosas e não as coisas da natureza. Essa mensagem igualitária é herdeira de toda uma revolução sem precedentes.
02ª Idéia – A consciência torna-se critério último da moral. Quem resolve sobre o que é certo ou errado a ser feito é a consciência de cada um. Os deveres e as leis são aceitáveis desde que não sobrepujem os mandamentos e as mensagens de Cristo que devem ser respeitadas. A moral se torna uma questão interiorizada.
03ª Idéia – A humanidade adquire uma dimensão universalista. Uma vez que há a liberdade, em face da qual estão todos os homens em igualdade; é óbvio que todos se equivalem. A humanidade não pode mais ser dividade em hierarquias naturais e aristocráticas, não há mais fronteiras. “É preciso que se diga que somos todos irmãos, dotados das mesmas capacidades de escolher livremente o curso de suas ações”. O cristianismo é a primeira moral universalista.
Por fim, as idéias ‘Teóricas’ e ‘Éticas’ confluem para algumas afirmações da ‘Sabedoria’ cristã:
01ª Idéia – A promessa da imortalidade singular. O cristianismo promete não uma eternidade anônima e cósmica na qual não somos senão um fragmento inconsciente. A imortalidade a qual os cristão esperam e acreditam é a da vida da pessoa, em um outro plano, talvez sem corpo mas com consciência.
02ª Idéia – O amor se torna a chave de salvação. É através da prática do amor ao próximo, do amor temente a Deus acima de tudo, mais forte que a morte, que os crédulos encontrarão um benigno que os ama enquanto pessoa. Não podemos apegar-nos ao passageiro, mas quem disse que o homem é mortal e finito? A boa-nova é acreditar na ressurreição, não apenas das almas, mas das pessoas como tais e assim poderemos amar a todos sem culpas, pois o Cristo promete que iremos reencontrá-los após a morte biológica e nos comunicar, mas claro - desde que tenhamos seguido os seus sábios mandamentos.
Ferry finaliza apontando que essa promessa é no mínimo tentadora e que o amor como ponto culminante se torna a solução porque toda essa doutrina ultrapassa não só o medo da morte, como a própria morte, ou seja, é como se a morte deixasse de existir, já que passa a haver a possibilidade de um tipo de infinitude eterna, e muito melhor que a dos estóicos, porque ‘individual’ e não inominada.
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Cá pra nós, mais uma vez. Os meus comentários...
Com esse capítulo, Ferry nos proporciona uma visão macro e nos mostra como esses fatores foram se desencadeando e reforçando-se um aos outros. Com a visão da complexidade, isso fica muito interessante de analisar. Por essa estrutura é justificável que o Cristianismo tenha conseguido suplantar por mais de 15 séculos uma forte corrente de pensamento, um paradigma. É perceptível que todas as idéias se amarraram e se fizeram fortes. Ou melhor, irrecusáveis aos humanos, muito ainda temerosos pela finitude (No meu ver a humanidade foi um bando de cagão durante esse período, isso sim! Ops, talvez grande parte ainda seja).
Inovações sobre minha visão.. Eu já havia pensado antes sobre algumas idéias homogêneas e uma delas é esta hipótese da fé sobreposta ao lugar da razão. Mas nunca tinha pensado ou ouvido falar nessa hipótese da personificação do divino. Muito esclarecedor! Como psicóloga, reforço a questão frisando que o humano deseja uma imortalidade pessoal e consciente para apaziguar o medo da morte em si, nem tanto talvez por querer reencontrar seus amados outra vez, mas porque o Ego humano é tão grande que não suporta pensar no seu próprio fim.
(Por esses dois ângulos me sinto menos cagona que os cristãos e fico feliz por pensar que meu Ego é menor comparado aos demais, porque pelo menos eu já aceito, pelo menos teoricamente, essa questão da minha finitude individual!)
Também quero salientar que toda essa doutrina pervertida não foi de todo ruim.. Olha só que importante, foi o cristianismo que nos herdou a questão da igualdade e as bases para a Moral!
Valeu, Ferry, mais uma vez, por tamanhas considerações!
E não pensem meus leitores que acabou, pois os próximos capítulos que virão, trazem mais surpresas!

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