“- Se sinto vontade de morrer... é porque não o amo mais.
Estou desesperada por isso
Queria ser velha para ter lhe dedicado toda minha vida.
Não queria mais existir, pois não posso mais amá-lo.
É isso. Foi isso que pensei quando estávamos na boate e você
se entediava.
- Se você diz isso, que queria estar morta, é porque ainda
gosta de mim
- Não, é somente pena.
- Não consegui lhe dar nada, não percebi nada.
Joguei e continuo jogando minha vida fora, feito um idiota.
Tirando sem dar, ou sem dar o suficiente.
Talvez eu valha pouco. Se é o que quer dizer, tem razão.
- Não lhe dei nada. É estranho que só hoje percebo que é
dando aos outros que somos felizes.
-Vamos acabar essa conversa
Vamos tentar nos agarrar a qualquer coisa de certo.
-Eu amo você Tenha certeza que ainda a amo. O que quer que
eu lhe diga?
‘Hoje quando acordei, você ainda dormia.
Aos poucos, acordando, senti sua respiração leve.
E através dos cabelos que escondiam seu rosto
Vi seus olhos fechados e senti uma comoção subindo a
garganta.
Tive vontade de gritar e acordá-la
Pois o seu cansaço era profundo e mortal
Na penumbra, a pele dos seus braços e pescoço estava viva
E eu a sentia morna e seca
Queria passar os lábios nela
Mas o pensamento de perturbar seu sono e de ainda tê-la em
meus braços, me impedia.
Preferia tê-la assim..
Como algo que ninguém tiraria de mim, pois só eu a possuía
Uma imagem sua para sempre.
Além do seu rosto, via algo mais puro e mais profundo
Onde eu me refletia
Eu via você numa dimensão que englobava todo o tempo da
minha vida
Todos os anos futuros
E os que vivi antes de conhecê-la
Mas já pronto para encontrá-la.
Este era o pequeno milagre de um despertar
Sentir pela primeira vez que você me pertencia
Não só naquele momento, e que a noite era eterna ao seu
lado.
No calor do seu sangue, dos seus pensamentos
E da sua vontade, que se confundia com a minha
Por um momento, entendi o quanto a amava, Lídia
E foi uma sensação tão intensa
Que meus olhos se encheram de lágrimas
Eu pensava que isto jamais deveria terminar
Que toda nossa vida deveria ser como esse despertar
Senti-la não minha, mas uma parte de mim.
Uma coisa que respira comigo
E que nada pode destruir, a não ser a indiferença de um hábito
Que considero a única ameaça
Então, você acordou,
E sorrindo, ainda adormecida me beijou,
E eu senti que não havia nada a temer.
Que seriamos sempre como aquele momento
Unidos por algo que é mais forte que o tempo e o hábito’.
-De quem é essa carta?
-É sua
-Não o amo mais! Não o amo mais!
Nem você me ama mais.
-Quieta! Quieta! Quieta!"
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Junto de “A Aventura” (L’avventura, 1960) e “O Eclipse” (L’eclisse,
1962), “A Noite” faz parte do que se convencionou chamar de trilogia da
incomunicabilidade.
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