quinta-feira, 19 de junho de 2014

Òh humanos, esses coerentes carentes de utilidade



Sob uma estrela pequenina
Me desculpe o acaso por chamá-lo necessidade.
Me desculpe a necessidade se ainda assim me engano.
Que a felicidade não se ofenda por tomá-la como minha.
Que os mortos me perdoem por luzirem fracamente na memória.
Me desculpe o tempo pelo tanto de mundo ignorado por segundo.
Me desculpe o amor antigo por sentir o novo como primeiro.
Me perdoem, guerras distantes, por trazer flores para casa.
Me perdoem, feridas abertas, por espetar o dedo.
Me desculpem os que clamam das profundezas pelo disco de minuetos.
Me desculpem a gente nas estações pelo sono das cinco da manhã.
Sinto muito, esperança açulada, se às vezes me rio.
Sinto muito, desertos, se não lhes levo uma colher de água.
E você, falcão, há anos o mesmo, na mesma gaiola,
fitando sem movimento sempre o mesmo ponto,
me absolva, mesmo se você for um pássaro empalhado.
Me desculpe a árvore cortada pelas quatro pernas da mesa.
Me desculpem as grandes perguntas pelas respostas pequenas.
Verdade, não me dê excessiva atenção.
Seriedade, me mostre magnanimidade.
Ature, segredo do ser, se eu puxo os fios das suas vestes.
Não me acuse, alma, por tê-la raramente.
Me desculpe tudo, por não estar em toda parte.
Me desculpem todos, por não saber ser cada um e cada uma.
Sei que, enquanto viver, nada me justifica
já que barro o caminho para mim mesma.
Não me julgues má, fala, por tomar emprestado palavras patéticas,
e depois me esforçar para fazê-las parecer leves”.

Esse poema da poetisa polonesa Wislawa Szymborska nos desmonta.  Gostei muito. Porque não devemos nada ao mundo e mesmo assim, precisamos, queremos ser absolvidos de todas as culpas possíveis. Porque as vezes não estamos mesmo nem aí para o que supostamente deveríamos estar. Porque somos cobrados se não lembrarmos com carinho dos que faleceram ou não amarmos nossos pais, porque somos condenados se partimos para outro amor, se rimos em momentos inoportunos, se não quisermos doar donativos para os desprivilegiados e se não plantarmos uma árvore para o bem de nosso futuro planeta. A moral, sempre a moral estipulando as coisas, as regras. 

Oh humanos que não podem passar pelo mundo sem deixar marcas! Que não se deixam ser inúteis, despreparados e incapazes de agradar a todos! Que não suportam o peso do mundo!



Que nós sejamos absolvidos e que a humanidade seja desculpada pela consciência e pela teimosia em que sua história seja coerente e faça sentido! 

Mais humor, espontaneidade e leveza, por favor!

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