sábado, 23 de agosto de 2014

Sobre aporrinhações

Ao ler o texto “Não canse quem te quer bem” tive uma reflexão. Esse texto passa uma idéia legal, mas está um pouco confuso e contraditório, ou poderia ter sido escrito melhor.



O texto recupera aquela idéia de que se implicamos com alguém, é por que temos um laço com essa pessoa,  e não é a toa que tomamos a atitude de apoquentá-la. Sim e não. Não, pois podemos implicar de vez em quando com um sujeito no ônibus ou na fila do banco pela qual não temos nenhum afeto.  E sim porque principalmente temos o hábito de implicar com os familiares ou amigos. E daí sim pode significar um comportamento relacionado à confirmação ou demonstração de intimidade por aqueles que consideramos.  Só que existem aqueles que implicam com qualquer um, com os colegas de trabalho e até com os vizinhos.  E nesse caso estamos falando de outra coisa, que poderia se chamar “azedice”. Ou apenas mal humor, quando não é freqüente. 

Então, ao dizer “não canse quem te quer bem” temos que definir quem é esse que nos quer bem.  Se for nosso cônjuge, ou nossos filhos, ou pais, concordo que temos que priorizar a tentativa de deixar de ser chatos um pouco, e não extrapolar nas reclamações sobre o outro com quem convivemos de modo mais perto. Porque essa amolação que nos afeta tem a ver lá no fundo com a gente e não com esse outro. A psicanálise que explique e isso é papo pra outro post. O que está em cheque é que realmente aporrinhação em demasia, cansa. Portanto sou da opinião que podemos optar pela arte da boa convivência mútua, em harmonia, e realmente não precisamos exagerar na exposição das nossas antipatias.  Veja bem, exposição. Porque o que nos desagrada nem sempre a gente vai conseguir mudar. Mas podemos guardar a opinião pra gente mesmo, dependendo do que for. E justamente, depende do que for, do tamanho dessa coisa que nos incomoda.  Há coisas que precisarão de diálogo, outras apenas de esquecimento. E há também um limite sobre esse ‘controle’ da nossa própria atitude. Maneirar nosso jeito de ser é uma coisa, perder a espontaneidade para agradar o próximo é totalmente diferente.

Mas e agora, se for com um desconhecido, eu devo fazer esse esforço para azucrinar menos? O texto inicialmente disse uma coisa e depois outra. No começo disse que deveria ser crime inafiançável sair alugando alguém com histórias de doença, e no último parágrafo afirma que se for pra ser mala, que sejamos com quem a gente não conhece, porque esses ou não irão se incomodar, ou caso se incomodem, só estes poderão te criticar. Opa, espera lá.

Primeiro, é pra perturbar ou não?  Creio que o argumento do texto é pra não sermos os chatos de plantão. Seja no restaurante, na hora de fazer as compras, ou numa exposição de autógrafos. Excessos nos pedidos de favores, adulações, e gerar espaço para o sentimento de vergonha devem ser comportamentos descartados. O bom senso e a gentileza podem nos guiar. E é claro que piadinhas e sarcasmos é só para os mais chegados. Ponto. Não confunda, desmotive, ou elimine nossa intenção de mostrar fotografias ou deixar alguém cantar ou dançar só porque situações cômicas ou constrangedoras podem acontecer. Nem sempre acontecem. Depende muito da gente captar antes os sinais ou presumir um pouco o quanto estamos ou podemos ser inconvenientes.

Segundo, no último parágrafo do texto, ele inverte a opinião, pois permite que sejamos petulantes, mas desde que seja com qualquer um outro ao seu lado, já que vai se afastar de você por isso ou te dar uma tesourada. Hã? A meu entendimento, as frases finais do texto desconstroem o argumento central e confunde o que o texto quer transmitir. Há alguns erros nessa visão. Antes de tudo, parece que está nos aconselhando só então a nos preocuparmos em não cansar quem nos quer bem. Guarde a sua delicadeza apenas para seus familiares e bem quistos, é isso? O restante do mundo que se foda e nos agüente quando tivermos que estourar? Ou o texto disse o contrário anteriormente? 

Creio que o princípio de polidez deva ser para todos. E algumas vezes mais até para os desconhecidos: que privilegiemos a cortesia para não insurgir em conflitos desnecessários. Não podemos esperar que nossas hostilidades sirvam para afastar os que nos desagradam ou para que eles é que venham até nós nos sugerir onde é que podemos corrigir nossas atitudes. E além disso, a mesma frase parece inferir que os mais íntimos ou não se afastariam de nós ou não seriam críticos. Quem disse que a esposa, o marido, o filho, a sogra, ou qualquer um mais conhecido vai ter que tolerar ou fingir que gosta das nossas importunações? Coitado não só do que está fazendo de conta que está se divertindo, coitado de nós se perdermos o espaço de espontaneidade nas relações.



Resumindo, procure “não cansar” ninguém, independente dessa pessoa te querer bem ou não.  E o pressuposto não é evitar o “infortúnio” de aporrinhar as pessoas mais próximas porque elas vão conviver sempre com a gente. Embora com filhos e pais, o laço é eterno, com cônjuges, há espaço para separação. O pressuposto é evitar os lamentos, as implicâncias e os constrangimentos porque, justamente ao contrário, as pessoas mais próximas podem não conviver sempre conosco devido a isso. Se quisermos uma vida mais harmoniosa, com pessoas à nossa volta, então vamos mesmo priorizar “não cansar” quem quer que seja. E que isso não nos dê margem a interpretar que não se deve nunca discutir com os outros. O lema pode ser melhor rescrito. Podemos ser menos chatos, e controlar nossos comportamentos de exposição daquilo que nos incomoda. E se realmente há alguma atitude ou comportamento que está interferindo a boa convivência mútua, vamos conversar. Insira no contexto: quem se incomoda, como, quanto, e quando. Garanto que o resultado será melhor do que seguir uma receita que te diz: faça isso ou faça aquilo.

E só mais uma coisa. Indago se podermos ter mais cuidado sobre o que andam falando por aí na net antes de sair defendendo ou renegando uma opinião, um assunto! Ou replicando-a no facebook,num mecanismo de imediatismo. Não é um conselho, dica ou sugestão. Só acho melhor refletir mais, quem quiser que assim o faça. Pois esse texto é um exemplo de pensamento que influencia, convence, ou cativa. Mas podemos captar o que ele levanta para pensarmos por nós mesmos!  


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