sábado, 5 de novembro de 2011

Entre o sonho e a sonolência

"Estico os braços, estico as pernas. A Sonolência me dá estremecimentos de fadiga. Sinto a noite metida na cidade. É tarde. Não deveria ficar sozinho aqui. Já sei. Mas esta noite me deixei ficar, fui ficando, fazendo nada ou abrindo portinhas na imaginação ou na memória. Preguiçoso, fiquei grudado na cadeira. Por causa do tempo; ou porque sim. Sinto muita gente, conhecida ou inventada, assobiando em minha cabeça. Dentro de mim se cruzam e se misturam as caras e as palavras. Nascem, crescem, voam. Sou este ouvido que escuta ou sou a melodia? Não sou o olho que se vê: sou as imagens." (Eduardo Galeano)

"Repugno a vida real como uma condenação, repugno o sonho como uma libetação ignóbil. Mas vivo o mais sórdido e o mais cotidiano da vida real; e vivo o mais intenso e o mais constante do sonho." (Fernando Pessoa)
 
"Porque é que um sono agita
Em vez de repousar
O que em minha alma habita
E a faz não descansar? 
Que externa sonolência,
Que absurda confusão,
Me oprime sem violência
Me faz ver sem visão?

Entre o que vivo e a vida,
Entre quem estou e sou,
Durmo numa descida,
Descida em que não vou.

E, num infiel regresso
Ao que já era bruma,
Sonolento me apresso
Para coisa nenhuma". 
(FERNANDO PESSOA)
"Entre o sono e sonho,
Entre mim e o que em mim
É o quem eu me suponho
Corre um rio sem fim.
Passou por outras margens,
Diversas mais além,
Naquelas várias viagens
Que todo o rio tem.
Chegou onde hoje habito
A casa que hoje sou.
Passa, se eu me medito;
Se desperto, passou.
E quem me sinto e morre
No que me liga a mim
Dorme onde o rio corre -
Esse rio sem fim"
(FERNANDO PESSOA)

Sonho. Não Sei quem Sou  
Sonho. Não sei quem sou neste momento.
Durmo sentindo-me. Na hora calma
Meu pensamento esquece o pensamento, 
Minha alma não tem alma.

Se existo é um erro eu o saber. Se acordo
Parece que erro. Sinto que não sei.
Nada quero nem tenho nem recordo. 
Não tenho ser nem lei.

Lapso da consciência entre ilusões,
Fantasmas me limitam e me contêm.
Dorme insciente de alheios corações, 
Coração de ninguém.
(FERNANDO PESSOA)