Capitulo XIV
"(...) Melhor seria permanecer rígida e lealmente ele mesmo. Ele mesmo? Mas esta questão de identidade era precisamente um dos problemas crônicos de Philip. Teoricamente, com a sua inteligência, era-lhe tão fácil ser quase qualquer um! Philip tinha tal poder de assimilação que corria muitas vezes o perigo de não mais distinguir o assimilador do assimilado, de não conhecer, entre a multiplicidade de seus papéis, qual era o ator. A ameba, quando acha uma presa, abarca-a com a sua substância, incorpora-a e continua a deslizar. Havia algo de amebiano no espírito de Philip Quarles. Era como um mar de protoplasma espiritual, capaz de fluir em todas as direções, de engolfar todos os objetos que se lhe deparassem no caminho, de se infiltrar em todos os orifícios, de encher todos os moldes e, depois de engolfar, de encher - continuar a fluir para outros obstáculos, outros receptáculos, deixando os primeiros vazios e secos. Em ocasiões diferentes de sua vida, e até mesmo simultaneamente, ele tinha enchido os mais variados moldes. Philip tinha sido cínico e também místico, humanitário e também um misantropo cheio de desdém; tinha procurado viver uma vida de razão desprendida e estóica, e em outra ocasião aspirara a ausência de razão duma existência natural e não civilizada. A escolha dos moldes dependia do momento, dos livros que lia, das pessoas com quem mantinha relações.
(...) Naquele instante voltava a coar-se num molde que tinha a forma de um coração. Onde estava o eu que ele podia ser leal?
Ou acaso não existia um eu? - pensou ele. Não, não, aquilo era insustentável, aquilo contradizia a experiência imediata.
O caráter essencial do eu consistia precisamente naquela ubiqüidade líquida e indeformável; naquela capacidade de esposar todos os contornos e de não ficar, no entanto, fixado em nenhuma forma; receber impressões e com a mesma facilidade apagá-las. A todos aqueles moldes que seu espírito podia ocupar de tempos em tempos, todos aqueles obstáculos duros e ardentes que seu espírito podia contornar, submergir, penetrando-lhes o coração fogoso e permanecendo no entanto frio – a todos aqueles moldes Philip não devia nenhuma lealdade permanente. É que eles eram esvaziados com tanta facilidade como tinham sido enchidos; os obstáculos eram contornados. Mas o líquido essencial que escorria onde queria, o fluxo frio e indiferente da curiosidade intelectual - esse persistia e a ele Philip devia lealdade. Se houvesse um modo simples de vida em que ele pudesse crer de maneira durável, esse seria aquela mistura de pirronismo e de estoicismo, que lhe havia dado a impressão, a ele, simples colegial curioso no meio de filósofos, de ser o cume da sabedoria humana; e dentro desse molde de indiferença cética ele derramara a sua adolescência sem paixão. Philip Quarles se rebelara muitas vezes contra a suspensão pirrônica do juízo e contra a imperturbabilidade estóica. Mas teria sido alguma vez realmente seria tal rebelião? Pascal fizera dele um católico - mas somente durante o tempo em que o volume dos pensamentos permanecera aberto diante de seus olhos. Havia momentos em que, na companhia de Carlyle, de Whitman ou do vigoroso Browning, ele tinha acreditado no ardor pelo amor ao ardor. Então vinha Mark Rampion. Depois de algumas horas passadas na companhia de Mark Rampion, Philip acreditava realmente na selvageria nobre; convencia-se de que o intelecto orgulhosamente consciente devia humilhar-se um pouco e admitir as reivindicações do coração - sim, e das entranhas, dos rins, dos ossos, da pele e dos músculos - a uma parte razoável de vida. O coração de novo! Burlap estava acertado, embora não passasse dum charlatão, duma espécie de escamoteador trapaceiro de emoções. O coração! Mas, fosse qual fosse o seu procedimento, Phil sabia perfeitamente bem, nas profundezas secretas de seu ser, que não era católico, nem partidário da vida ardente, nem místico ou selvagem nobre. E embora desejasse algumas vezes, com nostalgia, ser uma ou outra coisa, ou todas elas a um tempo, sentia-se sempre secretamente alegre por não ser nada disso e por achar-se livre, mesmo que essa liberdade fosse, de modo estranho e paradoxal, um obstáculo e um limite ao seu espírito". (p.214, CONTRAPONTO, ALDOUS HUXLEY).

